Mostrando postagens com marcador Biografias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Biografias. Mostrar todas as postagens


Nem todos sabem, mas o autor do celebrado Vidas Secas também foi político certa feita. Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, administrou durante alguns anos a cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas – hoje a quarta maior cidade do estado. Ele já era escritor, publicara várias crônicas em jornais locais, a maioria sob pseudônimos. Mas ainda não havia escrito Angústia, Caetés, Vidas Secas ou São Bernardo, livros que o consagrariam como um dos maiores escritores brasileiros.

Em 1927, Graciliano foi eleito em uma disputa sem fazer comícios nem campanha em Palmeira dos Índios, cidade sertaneja escravizada pela corrupção e pelo coronelismo – embora ele tenha reconhecido, em entrevista à Revista Globo em 1948, que sua coligação não jogou limpo: “Fui eleito naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando”, afirmou. Tá perdoado, Graça.

Apesar disso, foi tão excelente administrador quanto escritor: com poucos recursos em caixa, realizou obras na cidade, construiu escolas, saneou comunidades e soube lidar com a vontade dos soberanos da terra. Foi talvez o único gestor de toda a história da cidade a deixar dinheiro nos cofres ao sair do cargo. Mas seu maior legado foram os dois relatórios anuais destinados ao então governador Álvaro Correia Paes em 1929 e 1930 [acesse o conteúdo na íntegra aqui e aqui].

Ao invés do tom burocrático e formal, Graciliano fez literatura. Talvez ele não quisesse apenas informar, mas provocar emoções, riso, choque... talvez não o tenha feito com essa consciência, mas por acreditar que a melhor maneira de comunicar a situação do município fosse através de metáforas e ironias sutis. O fato é que enxergamos a pena de Graciliano em cada palavra, em cada construção linguística nos relatórios de prestação de contas.

"Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante de Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.

Para que tal anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensava uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro." (Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1929).

A tradição política ordena que os ocupantes e aspirantes a cargos públicos arrotem obras e feitos. O Velho Graça foi, ao menos até onde mostram as evidências, o único da nossa história que não se fiou em propaganda para convencer os outros da sua competência.

"A receita, orçada em 50:000$000, subiu, apesar de o ano ter sido péssimo, a 71:649$290, que não foram sempre bem aplicados por dois motivos: porque não me gabo de empregar dinheiro com inteligência e porque fiz despesas que não faria se elas não estivessem determinadas no orçamento." (Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1929).

"No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985. E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores." (Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1930).

Sua conduta foi compatível com a visão que temos do autor ao ler seus livros. Enfrentou privilégios, cortou mamatas, demitiu aspones e colocou todo mundo para pagar impostos.

"Arrecadei mais de dois contos de réis de multas. Isto prova que as coisas não vão bem.

E não se esmerilharam contravenções. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infrações que produziram soma considerável para um orçamento exíguo referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habituada a sofrer a opressão dos que vão trepando.

Esforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. Com inabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me.

Sei bem que antigamente os agentes municipais eram zarolhos. Quando um infeliz se cansava de mendigar o que lhe pertencia, tomava uma resolução heróica; encomendava-se a Deus e ia à capital. E os Prefeitos achavam razoável que os contraventores fossem punidos pelo Sr. Secretário do Interior, por intermédio da polícia." (Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1930).

"POBRE POVO SOFREDOR

É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu.

Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão.

Como ninguém ignora que se não obtém de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros." (Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1930).

"As despesas com a cobrança dos impostos montaram a 5:602$244. Foram altas porque os devedores são cabeçudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os contribuintes pagam ao Município se querem, quando querem e como querem.

Chamei um advogado e tenho seis agentes encarregados da arrecadação, muito penosa. O município é pobre e demasiado grande para a população que tem, reduzida por causa das secas continuadas." (Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1929).

Segundo o jornalista Maurício Melo, da TV Senado, que exibiu um especial sobre Graciliano Ramos, os relatórios do escritor podem ser historicamente comparados a outro documento, escrito mais de um século antes: Lembrança e Apontamentos para o Governo Provisório, escrito pelo estadista José Bonifácio, que é considerado o primeiro projeto para a modernização administrativa do Brasil.

Ivan Barros, jornalista, advogado e escritor natural de Palmeira dos Índios, guarda os originais dos dois relatórios e de um Código de Postura Municipal, também escrito por Graciliano. "Dizem que os relatórios inspiraram a Lei de Responsabilidade Fiscal", afirma. "Eu vejo os Relatórios como uma lição para esses políticos fichas-sujas, ficha limpa e os que estão denunciados por improbidade ou irregularidades", disse, em entrevista à Gazeta.

Político ou escritor, Graciliano deixou muito mais do que bons livros para nosso deleite. Confira abaixo dois documentários sobre o escritor alagoano.





É impossível não se emocionar com a história do Conde de Monte Cristo, ainda que pela adaptação cinematográfica. A obra clássica escrita por Alexandre Dumas, autor que, entre outras coisas, inventou a indústria do livro, vendeu cerca de 250 milhões de cópias em seus 170 anos de existência. É um dos maiores sucessos literários do ocidente, atrás apenas de O Peregrino e Dom Quixote.

Porém um fato que há até pouco tempo era ignorado é que o personagem principal, Edmond Dantés, foi profundamente inspirado em uma pessoa que caminhou entre nós. E essa pessoa foi nada menos que o pai de Alexandre Dumas, um ex-escravo que se uniu às hostes de Napoleão Bonaparte e ascendeu à posição de general: Thomas-Alexandre Dumas, o Diabo Negro. A imponente figura também emprestou sua influência para Os Três Mosqueteiros, outro sucesso editorial.

Thomas nasceu em Santo Domingo, então colônia francesa no Caribe, batizado como Thomas-Alexandre Davy de la Pailleterie. Seu pai, o nobre francês Alexandre Antoine Davy -- Marquês de la Pailleterie -- migrou das terras gaulesas para viver com o irmão, Charles, um bem-sucedido plantador de açúcar -- o petróleo do século 18. Pode-se dizer que a parceria não deu muito certo, os dois brigaram violentamente, e Alexandre fugiu, arrebatando consigo três escravos. Um deles não foi roubado, mas comprado, e caro: Marie Cessette, com quem Alexandre teve quatro filhos mulatos. Thomas era o seu favorito.

O relacionamento com a família não durou, e ele vendeu todos para conseguir voltar à França. Mas Thomas foi negociado a um contrato condicional, e assim que Alexandre assumiu o castelo da família na Normandia, trouxe-o de volta em 1776. Como a escravidão era ilegal na França desde 1315, Thomas foi automaticamente liberto, e recebeu educação formal, um luxo negado aos seus irmãos. Nessa condição e com bons relacionamentos aristocráticos, conseguiu ingresso nas forças armadas. E aqui começa a ficar interessante.

Com 24 anos de idade Thomas era um soldado raso. Aos 31 liderava um destacamento de 53 mil homens como general do exército francês nos Alpes. Conseguiu uma vitória estratégica na abertura das rotas alpinas, o que deu à França uma vantagem estratégica contra o Império Austríaco no norte da Itália. O apelido de Dumas entre os inimigos era Schwarzer Teufel, ou Diabo Negro. A alcunha não veio gratuitamente: na tomada da ponte sobre o rio Isarco, dominada pelos austríacos, testemunhas afirmam que ele conseguiu triunfar no braço com a ajuda de menos de vinte homens, depois que meia dúzia amorteceu as balas dos mosquetes. Paul-Ferdinand Dermouncort, amigo pessoal e combatente ao lado de Dumas, afirma que ele "fez mais sozinho com sua força Hercúlea do que vinte e cinco de nós juntos. Quando digo vinte e cinco eu exagero; as balas austríacas fizeram seu trabalho, e cinco ou seis dos nossos homens estavam caídos".

Napoleão concedeu um epíteto mais gentil: Horatius Cocles, em memória do soldado romano que defendeu uma ponte sozinho contra um esquadrão etrusco. Porém os dois não demoraram a se desentender. A Expedição do Egito não teve o mesmo sucesso obtido contra o Império Austríaco. O cansaço, calor e ausência de suprimentos puseram à prova a lealdade das tropas. Muitos homens se mataram. Dumas e outros generais confabularam críticas ao comandante supremo, consideraram recusar ordens de marchar sobre o Cairo. Algum tempo depois, Napoleão confrontou Thomas a respeito da tentativa de motim e ameaçou executá-lo por sedição. As palavras do imperador teriam sido: "posso facilmente substituí-lo por um brigadeiro". Dumas pediu para ser dispensado e voltar à França, uma tarefa logisticamente complicada após a destruição da frota franco-espanhola pelos britânicos sob o comando de Horatio Nelson.

Arriscou embarcar em um navio entre soldados e civis, clandestinamente. Um temporal por pouco não afundou o navio, mas empurrou-o para as praias do Reino de Nápoles, que naquele momento em particular estava em guerra contra a França. Dumas ficou preso entre 1799 e 1801, e teve todos os bens confiscados. Quando foi solto, estava semi-paralisado, quase cego de um olho e surdo, porém conseguiu se recuperar -- ele suspeitava que estava sendo envenenado na prisão. Thomas recebeu auxílios médicos de um grupo favorável à França enquanto cativo.

Desde 1792 Dumas era casado com Marie Louise Labouret, mãe do escritor Alexandre Dumas, que nasceria em 1802. Ele não voltou ao campo de batalha nem teve direito à pensão do exército, sendo forçado a trabalhar mesmo debilitado, a despeito das cartas solicitando auxílio ao próprio imperador. Ironicamente ele morreu de câncer no estômago, mesma enfermidade que ceifaria a vida de Napoleão. O herói sempre foi representado como um homem branco.

Todas essas informações foram desenterradas pelo historiador Tom Reiss, que ganhou um Pulitzer de biografia em 2013 pela obra The Black Count, lançada no Brasil este ano pela Editora Objetiva. Reiss procurou evidências em cartas antigas e documentos históricos trancafiados em um museu na pequena cidade onde Thomas Dumas teria falecido. Foi necessário explodir um cofre da família para recuperar alguns manuscritos, já que a única pessoa que conhecia o segredo era uma bibliotecária falecida. Nem nas próprias memórias de Alexandre Dumas é possível encontrar referências objetivas ao pai, que é vagamente citado como homem branco. Em entrevistas à imprensa, Reiss é enfático em afirmar que era inaceitável para o povo francês que um mestiço assumisse um papel central na história do país -- tanto na esfera militar quanto na literária.

A biografia do militar deve ganhar uma adaptação para o cinema em breve: Cary Fukunaga, diretor da consagrada série True Detective, planeja levar a narrativa do Conde Negro para as telas grandes.

Uma história ainda mais surpreendente que a de Edmond Dantés, não?

Leia o primeiro capítulo gratuitamente
Antes de qualquer coisa, não se trata apenas do Livro, e sim de toda uma uma história que remete às origens da humanidade, da cultura e da escrita. A prática da leitura, apesar de ser pouco cultivada seja por falta de incentivos às editoras e escritores, seja pela pura falta de interesse da maioria das pessoas ou por qualquer outro motivo que se possa elencar, hoje é acessível a uma grande parcela da população. Entretanto, em civilizações antigas, como os sumérios e egípcios, e até mesmo medievais, como os nórdicos, a prática da leitura e da escrita era possível a apenas uma casta restrita de nobres, sacerdotes ou feiticeiros, de forma que a ela era atribuída um caráter divino, transcendental, costume que chegou à própria Igreja Católica, que deificou o Latim.

As primeiras formas de escrita de que se têm registro vêm da cultura dos Sumérios, povo que habitou a Mesopotâmia (região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates, onde atualmente se localiza o Iraque). Os caracteres cuneiformes – os mesmos que vimos nas aulas de História – eram registrados sobre placas de argila para identificar transações comerciais, uma forma de garantir os direitos de compra, troca e venda, resguardando, de uma certa forma, as partes envolvidas (nasceria aí, também, o Procon)? Apesar de não possuir valor jurídico, uma vez que não haviam instituições competentes para julgar a legalidade e idoneidade do comércio, tampouco um sistema de leis complexo, os registros tinham por finalidade representar uma garantia documental de que determinada transação havia sido feita. Isso por volta de 3.300 a.C.

Sistemas de escrita mais sofisticados começaram com pictografias, desenhos que lembravam a forma física daquilo que representavam. Lá por volta de 2.000 a.C, ainda na Suméria, estima-se que tenha surgido um estilo diferenciado da escrita cuneiforme, conhecido como logogrifo. Este baseava-se na combinação de dois símbolos com a finalidade de exprimir uma ideia ligada a eles, porém distinta. Para simplificar, podemos dizer que é mais ou menos como o processo de formação de palavras que temos hoje na língua portuguesa (justaposição e aglutinação). Pode parecer simples hoje, mas à época foi a Grande Sacada da humanidade, tanto que foi incorporado à linguagem de inúmeras outras civilizações e, de certa forma, permanece até hoje.

Os egípcios utilizavam a escrita hieroglífica (no grego, hieros = sagrada), artisticamente bem elaborada e excessivamente esmerada em relação à cuneiforme e logogrífica, o que nos leva a inferir que, novamente, apenas sacerdotes e escribas tinham acesso à leitura e escrita dos textos. Esse estilo foi sendo substituído aos poucos, à medida em que o trabalho dos escribas passava a demandar certa agilidade, contrária ao trabalho de paciência da escrita hieroglífica. Daí se desenvolveu a escrita hierática, que utilizava as mesmas bases da antecessora, mas se caracterizava pela ligação entre os símbolos (escrita cursiva). Em 650 a.C surge a escrita demótica, mais popular e distante dos desenhos, utilizada em assuntos correntes pela sua maior simplicidade. A Pedra de Rosetta, documento que permitiu o deciframento da linguagem egípcia a partir do grego, contém as escritas demóticas, hieroglífica e grega.

Caracteres escritos na Pedra de Rosetta

Alguns anos antes, em 1.000 a.C, foi criado um sistema de representação dos sons através de símbolos escritos em um sistema bem lógico e peculiar: o alfabeto. Atribuído aos Fenícios, conhecidos por serem grandes navegadores e comerciantes, consistia em apenas 30 símbolos (apenas consoantes) que poderiam representar tudo o que se falava, enquanto os sumérios utilizavam 600 cuneiformes, os egípcios centenas de hieróglifos e os chineses milhares de ideogramas. Isso facilitou a disseminação da escrita e leitura, ou seja, outra Grande Sacada.

Com a evolução da escrita, os meios técnicos utilizados para a sua representação também ficaram mais aprimorados. Da tábua de argila (uma coleção delas constituiu uma biblioteca primitiva na Suméria), passamos para os papiros, rolos de até 40 metros feitos com fibras de plantas e prensadas com pasta de amido, meio amplamente utilizado na rica civilização egípcia. Em uma região da Ásia Menor conhecida como Pérgamo, foi inventado o pergaminho (200 a.C), feito a partir de couro curtido. Os romanos organizaram os registros em códices (codex), palavra que significa, literalmente, livros. Esse é o modelo que persiste até hoje, mesmo em convivência com os contemporâneos formatos digitais.

Outra Grande Sacada começou a germinar com os chineses (aproximadamente em 1040 d.C), que criaram métodos de reprodução que poderiam abreviar os processos de cópias e aumentar a produção: surgia a técnica da tipografia. Entretanto, o invento que realmente possibilitou a impressão em larga escala de livros e condicionou o surgimento da imprensa no ocidente foi a Prensa Móvel, do alemão Johannes Gutenberg (1398 – 1468). Seu grande trabalho foi a impressão da Bíblia, um marco na história do livro e da editorialização.

Atualmente temos o privilégio de vivenciar mais uma tranformação história no modo de ler e escrever. Estamos num período de transição entre as fronteiras temporais do livro físico e digital, novos formatos de leitura (a exemplo dos e-readers) surgiram, grandes discussões sobre a permanência do papel e de uma suposta e futura prevalência dos meios digitais marcam os debates sobre como o livro será lido em algumas décadas e como o é atualmente. Paralelamente à imensa produção editorial, que despeja um volume esmagador de informações todos os dias, temos novos e cada vez mais sofisticados sistemas de classificação e indexação eletrônicos, que possibilita o acesso ao conhecimento de maneira rápida e eficaz. Estamos em cima de um marco histórico, então não há motivo para esquecer o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, tanto pelo que o Livro representa historicamente (racionalidade, escrita, conhecimento) quanto pela sua crescente importância atual e futura.

Referências
- JEAN, Georges. A escrita: memória dos homens. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
- HIGOUNNET, Charles. História concisa da escrita. São Paulo: Parábolas, 2003.
- HORCADES, Carlos M. A evolução da escrita: história ilustrada. Rio de Janeiro: SENAC, 2004
- Portal Sua Pesquisa
- A Origem dos Livros Chineses e Tipografia
Salutations larmoyantes, ilustração da edição de 1580 de Viagem à Terra do Brasil

Escrito por Fabio Antonio Costa, mestrando e especializando pela PUC-SP [fabioantoniocosta at hotmail.com]

A obra Viagem à Terra do Brasil do francês Jean de Lery editada pela primeira vez em 1578 na Europa é uma importante fonte de informações acerca da parte inicial do período colonial do Brasil, dos primeiros contatos dos povos Europeus com os povos Ameríndios e do contato da Europa pós-medieval no século das Grandes Navegações.

Pelas surpresas que a vida proporciona, Lery perdeu a obra original na perturbada Europa do século 16 e viu-se obrigado a relembrar os eventos da viagem ao Brasil e demorou quase duas décadas para republicá-la, devido a alguns fatores como a concorrência de obras menos complexas (e mais fáceis de ler) que antes não afetavam o sucesso que a obra de Lery fez.

Apesar da visão religiosa e européia da época (Lery se admitia um escravo de Deus) o viajante francês traz uma minuciosa visão do Novo Mundo e de seus habitantes.

Filho de pais protestantes, modesto sapateiro, estudante de teologia e discípulo do mestre Calvino, Lery viu-se obrigado a abandonar o Velho Mundo devido às disputas religiosas entre católicos e protestantes e pelas novas possibilidades da França Antártica, na época uma colônia francesa na Baia de Guanabara, atual estado do Rio de Janeiro. Lery chamava a nova terra de América e Terra do Brasil (p. 53).

Compre por aqui e ajude o Livreiro

Livraria Cultura [versão impressa]
Livraria da Travessa [versão impressa]
Estante Virtual [versões impressas]

Talvez você também se interesse por:

O Brasil quinhentista de Jean de Lery (2ª edição)
Livraria da Travessa [versão digital]
Livraria da Folha [versão digital] [versão impressa]
Saraiva [versão digital] [versão física]

Apesar da visão religiosa e européia da época (Lery se admitia um escravo de Deus) o viajante francês traz uma minuciosa visão do Novo Mundo e de seus habitantes.

É destacada a vida em alto-mar. Em meio à população do navio encontram-se mulheres e crianças, levados com propósitos bem definidos a América. Dificuldades como o apodrecimento da comida e água, doenças e mortes eram comuns nessas viagens, que também vivenciou encontros com outros navios em alto-mar, como naus Espanholas e Inglesas. Tormentas e calmarias dificultavam a navegação. Após alcançar o Brasil, chamado por ele também de França Antártida e quarta parte, (referência ao quarto continente conhecido na época) Lery e sua tripulação aportam no território do Rio de Janeiro atual. Sua visão dos habitantes da América é muito próxima de outros viajantes europeus como Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio (citados por ele).

A visão do autor acerca dos habitantes e seus costumes tende em alguns relatos para a ideia que os índios viviam na escuridão (p. 209) e em outros relatos os considerava puros em relação aos habitantes do Velho Mundo Europeu.

[...] nos índios do Brasil fica clara a diferença entre o canibalismo e antropofagismo [...]

Adjetivos como ‘selvagem’, ‘ignorantes’, ‘cães’, ‘vingativos’ e ‘iletrados’ são comuns em sua obra. Formas de organização dos índios, principalmente dos Tupinambás e Margaia que Lery conviveu integralmente foram minuciosamente exploradas; tinham grande diversidade de idiomas, eram robustos, bebiam da fonte de juventude (p. 112), pintam-se de barro, banhavam-se muitas vezes por dia, excelentes usuários de armas de guerra, praticavam o canto e tratavam muito bem seus amigos, ao contrário dos inimigos. Quando em guerra com tribos adversárias, Lery informa da grande violência e selvageria que presenciou com as inúmeras flechas (p. 189) que as tribos lançavam uma sobre a outra e da crueldade que sofriam os guerreiros quando se efetivavam os encontros entre eles.

Merecem destaque os comentários do historiador acerca do antropofagismo; nos índios do Brasil fica clara a diferença entre o canibalismo e antropofagismo, sendo que nos índios o ato de comer o inimigo não estava ligado a ideia única de alimentação e sim de absorver a coragem e boas qualidades dos mais nobres guerreiros. No passar do ano que Lery ficou no Brasil, presenciou que o ato antropofágico era muito comum entre as tribos, nos rituais em que os prisioneiros eram preparados para serem devorados normalmente era por vingança por parentes ou amigos devorados anteriormente, sendo que o próprio Lery por momentos ficou aflito com ele ser a vítima desses rituais dos povos da América. Por parte dos povos indígenas, era evitado se alimentarem dos miolos e características que por eles não eram bem vistas, como se alimentar de animais que fossem considerados lentos, com receio de assim também ficarem.

Outros aspectos são detalhados; a poligamia masculina, casas que comportam até 600 índios, o conceito de machismo inerente a eles, lamentações com altas cantorias aos mortos, curiosidade indígena nos rituais cristãos, divisão dos afazeres masculinos e femininos e as crenças indígenas como o espírito de Anhagá.

No retorno a Europa, Lery disserta sobre o gelo visto nas Américas e as inúmeras dificuldades em seu retorno, merecendo destaque o fim dos alimentos e água que entrava nas frágeis embarcações; a situação esteve tão precária que Lery relata que se alimentaram do Pau-Brasil dentro do navio, ratos e ratazanas e rodelas de couro, havendo horas em que os próprios tripulantes viviam a ameaça de devorar os esqueléticos corpos uns dos outros como o próprio autor temia acontecer, situações tais que arruinaram a saúde da tripulação. Isso na visão de Lery que o mundo é uma máquina redonda de água e terra miraculosamente suspensa no espaço.

Em suma, adicionando o glossário dos idiomas Português-Tupi, a obra de Jean de Lery é um importante manual de informações históricas, geográficas e antropológicas dos habitantes do território Sul da América no século 16 e mesmo sendo uma visão fortemente influenciada pela religião cristã, permite ao leitor descobrir importantes informações com a minuciosidade e detalhamento nem sempre disponível de outras experiências.

Livro: LERY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Tradução de Sérgio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia. 2007.