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A tarefa era simples: levar um cruel e influente prisioneiro político udenista de Paulo Afonso até Barra dos Coqueiros, município conurbado com Aracaju. Mas, no meio do caminho, uma reconfiguração nas alianças de poder leva o mandante da prisão a ordenar ao sargento Getúlio Santos Bezerra abandonar a empreitada e liberar o prisioneiro. Homem bruto do sertão, talhado nas mortes e experiente em tirar sangue, Getúlio se recusa a obedecer as ordens -- carregadas por terceiros -- e, desconfiando dos mensageiros armados, reitera que levará o prisioneiro até o Coronel Acrísio. "[...] vou levar esse traste arrastado ou espetado, naquele hudso até Aracaju, e chegando lá apresento ele". Seus únicos companheiros de viagem são o motorista Amaro e um velho Hudson.


É claro que a empáfia do sargento não sai barato: à medida em que avança em direção à capital e a vegetação seca dá lugar aos mangezais, mais se envolve em brigas e conflitos armados. Com uma noção de honra própria de um vassalo e a valentia de um guerreiro, não aceita desaforo nem afrouxa seu sistema de valores particular. A preparação psicológica e a experiência em combate, por outro lado, fazem do sargento um homem que vale por vinte.

João Ubaldo Ribeiro se inspirou nas histórias reais narradas por seu pai, Manoel Ribeiro, que fora chefe da Polícia Militar de Sergipe, para escrever Sargento Getúlio, publicado em 1971. A narrativa se passa em torno da segunda metade do século 20, quando metralhadoras eram uma raridade no arsenal da Polícia Militar -- principalmente no interior nordestino. A primeira ideia que vem à mente quando o leitor se depara com o título e a capa da nova edição -- um muro velho crivado de balas -- é violência. Mas o autor trata de mostrar a humanidade que existe debaixo de toda a camada de brutalidade e revela sentimentos ainda menos compreensíveis: rancor e medo.

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A história envolve pouquíssimos personagens, a maioria transitórios. Dessa maneira, o falante personagem principal se expõe completamente, deixando que o leitor reflita sobre a sua personalidade e os acontecimentos ao longo de sua vida. O livro é narrado em primeira pessoa -- na verdade é um monólogo -- e o discurso é sempre indireto, embora entrecortado com alguns poucos diálogos. O domínio do tempo na narrativa é extremamente complexo -- não é à toa que rendeu um Prêmio Jabuti ao autor na categoria "Revelação. Em alguns momentos, o personagem descreve eventos que se passaram muitos anos antes que tiveram muito ou pouco impacto em seu caráter. Em outros, narra um tiroteio no qual se envolveu há poucos dias com riqueza e precisão de detalhes. Parte da narrativa é analéptica, e vai mudando para o tempo presente à medida em que avança.

Um aspecto dramático que se destaca nos primeiros capítulos é o homicídio pretérito que o sargento comete contra a própria esposa, grávida, sob alegação de ter sido traído. "Eu tinha de fazer. Não gostava de pensar que ia atravessar a rua com o povo me olhando: lá vai o dos galhos". A motivação óbvia é a tradição de 'lavar a honra' com sangue, onde o assassinato é a única maneira de expiar o adultério perante a sociedade.

Em determinados momentos Getúlio é confrontado com sua própria identidade, como no trecho em que narra a conversa com o pároco: "Não sei, não sei, diz o padre, sacudindo a cabeça e fazendo um bico com a boca. Por que vosmecê não some? Eu sumir, eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir". Ingenuamente Getúlio argumenta que fugir do mundo significaria fugir de si mesmo e do seu dever, e antes disso acontecer ele prefere abrir mão da própria vida: "É preciso entregar o bicho. Entrego e digo: ordem cumprida. [...] eu levo esse lixo de qualquer jeito, chego lá e entrego. Nem que eu estupore." A mando de Antunes, matou uma vintena, mesmo assim não espera consideração nem apreço. Essa noção primitiva de valores já se repetiu diversas vezes na história da humanidade e é patente na era feudal do Japão, onde a morte era um destino menos terrível para um samurai do que viver desgarrado, sem suserano.

A morte sem bravura, pacata, resultante de uma vida medíocre ou em uma condição desonrosa também é repudiada, o que fortalece o arquétipo. "Pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém [...]". Logo, no decorrer da trama, Getúlio começa a se conformar e até mesmo desejar a morte durante a missão derradeira. Ele sabe que não tem futuro, que jamais vai se esvair lentamente numa vida singela com uma mulher. O que ele sabe fazer melhor é matar. Viver e morrer pela espada. Enquanto os samurais entendem isso desde o início da carreira, Getúlio descobre aos poucos, e esse 'desabrochar' do entendimento para a morte certa dá um encanto único à obra.

Entretanto o sargento é derrotado constantemente pelos próprios temores, e isso é abordado por Ubaldo com uma sutileza que separa escritores eternos dos meia-bocas. Getúlio jamais dirá que sente medo; mas brada constantemente sua bravura, macheza e destemor. Quando está em perigo, fala ainda mais. "E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma"; "nunca senti medo de macho nenhum". Quanto mais numerosos os protestos em contrário, mais evidente o medo.

Ele sabe que é bem dotado no combate. Mas, durante a narrativa passa a compreender que é uma peça fora de um tabuleiro de maracutaias e arranjos políticos que jamais seria capaz de compreender. Ele já está fora de cena, mas é o único que não percebe. Quando nota, a revolta [birra quase infantil] o leva a se imaginar como um cangaceiro -- metáfora usada para exprimir a ideia: "se eu não sei jogar seu jogo, invento meu próprio jogo com minhas regras". Claro que é um devaneio.

O monólogo é calcado no linguajar típico do interior nordestino, coloquial, quase um dialeto. Ubaldo resgata e ressignifica termos que jamais seriam ouvidos em uma conversa de esquina atualmente. Tudo na linguagem remete à cultura popular que, como o leitor haverá de descobrir, é riquíssima e complexa. Esse aspecto mostra um lado do coronelismo que ninguém se importa muito de conhecer: o dos matadores, jagunços, dos cabras simples e ignorantes que, a mando do político ou coronel, agem sem piedade. Numa tremenda inversão, o autor traz o desumano violento para a ribalta e coloca os graúdos mandatários na periferia, criando uma denúncia contundente contra uma estrutura de poder que desafia leis e estabelece seu próprio comando. De repente os bandidos não são tão simplórios, eles têm uma história, têm desejos, cultura, alegrias e gostam de viver. Alguém tirou isso deles.

A trajetória é concluída quando Getúlio se vê diante da 'força', um destacamento de soldados. "Aquele homem que o senhor mandou nessa condição, no hudso preto com Amaro, que nem estava lá na hora e estava dormindo na Chefatura ou olhando os crentes na Rua Duque de Caxia, que ele apreciava os cantos dos crentes, eu acho, pois então, aquele homem que o senhor mandou não é mais aquele. Eu era ele, agora eu sou eu". A viagem transforma o sargento, muda seu pensamento, dá uma nova perspectiva. Esse é o momento em que ele se emancipa mentalmente da estrutura de poder que o escravizou. Manda tudo às favas e vai ser dono do próprio nariz. Por três vezes ele repete: "agora eu sou eu", e finaliza com "agora eu sei quem eu sou". Na minha opinião, o que acontece depois é detalhe, esse é o verdadeiro desfecho do livro.

Até o final da década de 80, a Romênia era um estado comunista, parte da União Soviética, governado por Nicolae Ceausescu. O regime sangrento durou de 1965 até 1989, e vitimou cerca de 60 mil cidadãos. Esse é o cenário no qual se desenvolve a trama da escritora alemã nascida na Romênia Herta Müller: A raposa já era o caçador.

A professora Adina e a operária Clara são amigas e convivem na mesma residência. O ponto de conflito se dá quando Clara se envolve com Pavel, um agente da polícia secreta, e ambas passam a desconfiar uma da outra. A deterioração de uma pele de raposa usada por Adina como adorno do apartamento representa a corrosão da amizade no romance.

A própria Müller, vencedora do Nobel de literatura em 2009, viveu os anos de chumbo na Romênia e sofreu perseguições políticas antes de deixar o país. Entratanto o país não a deixou: ela reconhece que seus romances são inspirados pela atmosfera de perseguição e investigações que motivaram sua fuga. Müller passou por quase 50 interrogatórios e teve várias amizades impactadas pelo clima de desconfiança entre os cidadãos durante o regime, pouco conhecido no mundo ocidental.

"O romance é formado por capítulos aparentemente independentes. Aos poucos o leitor vai compondo a história. Herta Muller não se atém apenas a narrar os acontecimentos, sua prosa é repleta de imagens e reflexões. A pele da raposa, mutilada aos poucos, adquire vários significados. O tom de ameaça, a casa invadida, um objeto pelo qual Andina tem afeto sendo, aos poucos, destruído."

A obra já está disponível no Brasil pelo selo Biblioteca Azul, da Editora Globo. O selo já lançou outras cinco obras de Herta Müller no Brasil: O rei se inclina e mata; Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio; Fera d'alma; Depressões; e O compromisso.

Sobre

Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2009, Herta Müller nasceu na Romênia em 1953. Poeta, ensaísta e romancista, formou-se em literatura romena e letras germânicas na Universidade de Timisoara antes de deixar o país por se recusar a colaborar com a Securitate, o serviço secreto do governo. Emigrou para a antiga República Federal da Alemanha e atualmente vive em Berlim.

Ficha técnica

Título: A raposa já era o caçador
Autora: Herta Müller
Tradução: Claudia Abeling
Gênero: Romance
Páginas: 240
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R$ 39,90
ISBN: 978-85-250-5856-0
Editora: Biblioteca Azul

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Ficha Técnica

Título: Clube da luta
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Preço: R$ 39,90