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O que fazer diante de uma folha em branco? Essa é a lida diária dos escritores. Em determinadas ocasiões, as palavras surgem aos borbotões e vão se encarrilhando em frases, períodos e parágrafos. Em outras, bem mais comuns, há o que se convencionou chamar de bloqueio criativo. Por dias, semanas a fio, é impossível extrair alguma coisa. Nesse momento, surgem na memória do escritor todos os grandes clássicos que ele já leu, Balzac, Machado, Poe, e aquela sensação de impotência, de que ele nunca irá se comparar aos grandes, portanto não vale a pena se arriscar na mediocridade. Sempre que um escritor pensa dessa maneira, ele morre um pouco.

Só existe um antídoto para reverter a necrose: experiência. Em A arte da ficção, Henry James analisa obras de escritores e estudiosos de literatura do seu tempo, e sugere reflexões que são fundamentais para os escritores de qualquer época. "Escreva a partir da experiência, e só dela", recomenda aos iniciandos da ficção. "Tente ser uma das pessoas com quem nada se perde", sugere. Leon Tolstói, célebre escritor russo, segue pelo mesmo caminho. "Se, então, alguém me perguntasse qual o mais importante conselho que eu poderia dar [...], simplesmente diria: em nome de Deus, pare por um momento, suspenda seu trabalho, olhe ao seu redor", escreveu, em texto presente na coletânea Essays, letters and miscellanies.

A descrição mais minuciosa e completa que pode ser dada a respeito desse assunto foi criada pelo filósofo Nieztche.
"A receita para tornar-se um bom romancista… é fácil de dar, mas executá-la pressupõe atributos que costumam ser negligenciados quando se diz: 'não possuo talento suficiente'. É necessário apenas que se façam cem esboços para um romance, e nenhum deve ultrapassar duas páginas, mas a precisão no emprego de cada palavra é fundamental; deve-se diariamente tomar nota de historietas até que se aprenda a dar-lhes uma forma a mais inventiva e eficaz possível; deve ser incansável em colecionar e descrever tipos humanos e personagens; acima de tudo, deve-se narrar casos para outras pessoas e ouvir os casos que elas têm a narrar, mantendo-se sempre os olhos abertos e os ouvidos atentos para o efeito que estas pequenas narrativas produzem em quem as ouve; deve-se viajar tanto quanto um pintor de paisagens ou de costumes... finalmente, deve-se refletir sobre os motivos dos atos humanos, não desprezar os sinais capazes de fornecer informações sobre eles e colecionar dia e noite todos esses dados. Deve-se persistir neste exercício multiforme durante cerca de dez anos; o que, então, for criado neste laboratório... estará pronto para ser mostrado ao mundo".
De volta a Henry James, o escritor britânico acredita que, da mesma maneira que as pessoas sentem a vida, elas sentem a arte. Portanto, o mérito do escritor não está em ser inventivo ou em buscar enredos mirabolantes. O elixir da escrita está bem mais perto do que se imagina, porque a experiência é o resultado primeiro do diálogo do homem com o mundo ao seu redor. A diferença entre o artista e outros profissionais é que aquele soube desenvolver seu olhar a partir da experiência. "Nenhum romance jamais virá de uma mente superficial", decreta James.

A partir desse pressuposto, a principal característica de um bom romance, aquele que será lido, é a verossimilhança com a realidade. "O ar de realidade é a virtude suprema do romance", afirma. Pode-se argumentar, de maneira contrária, que Tolkien, C. S. Lewis, George R. R. Martin, Moorcock, Terry Pratchett, Douglas Adams e milhares de outros escritores criaram mundos fantásticos e situações distantes da realidade. É uma compreensão equivocada por dois motivos: primeiro, realidade não é algo meramente documental, palpável. O domínio da razão tem limites curtos, há muito que a humanidade não conhece, porém existe – e a realidade que uns conhecem, outros ignoram. Segundo, a interpretação artística da realidade é facultada ao artista. A arte está associada à liberdade, que, por sua vez, está associada com a experiência. Se o leitor observar com cuidado, verá que as relações humanas nos bons livros de Literatura Fantástica são bem reais. Na melhor das hipóteses, essas relações refletem a sociedade; na pior, reflete o que o autor pensa dela.

Mais do que uma palavra à toa, "experiência" é um conceito filosófico. É fruto das respostas consciente e inconsciente do cérebro diante das situações vividas. Filósofos como Hegel, Nietzche e Wilhelm Dilthey utilizaram o termo "Erlebnis" para definir a experiência imediata. O termo significa, precisamente, "estar ainda presente na vida quando algo acontece". É a apreensão do conteúdo que ainda não foi construído ou codificado em símbolos e tradições, portanto é estritamente pessoal. O Dicionário Histórico de Filosofia alemão aponta que o termo Erlebnis "alude à imediatez entre o homem e a vida, à significabilidade do que foi vivenciado a ponto de alterar o caráter global da existência de alguém, e o significado estético, na medida em que não é possível comensurar racionalmente o conteúdo de uma vivência, enquanto nela estamos".

Saindo do mundo etéreo, veja um exemplo abaixo. O texto é da escritora e poetisa Analice Chaves, autora de Setembrices.

Quando cactos de apartamento encontram as folhas de jornal, é sempre um dia especial. Na maioria das vezes, cresceram...
Posted by Analice Chaves on Monday, March 28, 2016

Uma situação comum ganhou novos contornos e significados. Além da imaginação – outro elemento da tríade proposta por Faulkner, ao lado de observação –, a experiência se reflete na humanização da planta, na atribuição de conflitos e características inerentes às pessoas, não a plantas. É o que recomendou Graciliano Ramos à sua irmã, Marili Ramos: "só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos".

Foi mais ou menos o que eu tentei fazer no texto abaixo. Aliás, exercícios como esses são ótimos para o desenvolvimento da capacidade de observar e narrar as coisas com um olhar próprio. Veja um carro passando pela rua rasgando o asfalto, uma árvore tocando o vento de primavera com os dedos verdes, um morador de rua alimentando seu cão com as próprias mãos. Existe mais ali do que o óbvio.
"A bolha

Multicolorida, baila amorfa conforme a atmosfera empurra dentro e fora. Sua existência é provocada, destinada a separar moléculas errantes de ar, capturadas feito cardume de peixes. Não é rede trançada, entremeada por mãos meticulosas, mas fruto inesperado de uma mistura, alçada aos ventos por uma tarrafa de dois gravetos enlaçados em barbante. Sabe-se de vida fugaz, dura enquanto encerra o cardume, enquanto sustenta a membrana líquida em conflito com o vento, que golpeia debalde em busca do pedaço roubado, conferindo-lhe infinitas e imprevisíveis formas. Grávida indesejada que encerra em si o feto já parido, flutua, ignora por onde. Decompõe a luz econômica do poste, derrama-se em olhares como arco-íris artificial; provoca em crianças e adultos ímpetos de estourá-la, extingui-la, abraçá-la, sorvê-la. Ao toque de uma mão, a membrana se desfaz e o cardume explode em ira e revolta, livre, espargindo gotas do seu cativeiro sobre sorrisos satisfeitos, orgulhosos da condição de libertadores. Aliviados pela resolução de uma tensão insustentável que se desfez como música para os olhos... ou apenas felizes, com desejo de mais."
O desafio do escritor não é apenas aprimorar suas técnicas narrativas – isso vem junto, mas nem de longe é o principal. Antes disso, cumpre aprofundar a si mesmo, permitir-se viver experiências e garantir que elas criem uma erosão tão profunda na alma que não exista outra saída a não ser o papel e a caneta. Conforme defende Henry James, a arte literária reproduz a vida. Não é uma ocupação para pessoas superficiais.
Paul Alexis lê um manuscrito para Émile Zola |

1. A arte da ficção, de Henry James

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Autor dos livros Outra volta do parafuso e Retrato de uma senhora, Henry James desenvolve uma argumentação em favor da prosa tanto como forma artística quanto instrumento de manutenção da moral de uma sociedade. Advogou pela liberdade da criação, paradigma que orienta a produção literária até hoje. A arte da ficção é um livro-ensaio com cinco capítulos. A linguagem é objetiva e exige atenção do leitor para os argumentos utilizados.

Trecho:

"Um romance, em sua definição mais ampla, é uma impressão direta e pessoal da vida: isso, para começar, constitui seu valor, que é maior ou menor de acordo com a intensidade da impressão. Mas não haverá intensidade alguma, portanto valor algum, se não houver liberdade para sentir e dizer".

2. A arte da ficção, de David Lodge

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PDF em inglês (sou desses)

Apesar do nome idêntico ao do livro acima, A arte da ficção de David Lodge tem um teor diferente. Não soa como um manifesto. O livro aborda aspectos técnicos, como o narrador intrusivo, histórias epistolares, desfamiliarização, suspense, figuras de linguagem, mistério, desfecho e vários outros. Tudo com fartura de exemplos. É muito utilizado em oficinas de criação literária, portanto tê-lo na biblioteca é um bom negócio para escritores. Infelizmente, a única edição em português está esgotada e sem previsão de reimpressão.

Trecho:

"Quando um romance começa? A questão é quase tão difícil de responder quanto a seguinte pergunta: quando o embrião humano se torna uma pessoa? Por certo, a criação de um romance raramente começa com os rabiscos ou dígitos das primeiras palavras. A maioria dos escritores fazem um trabalho preliminar, se estiver apenas em suas cabeças. Muitos preparam o terreno cuidadosamente por semanas ou meses, criando diagramas do roteiro, compilando a vida dos seus personagens, preenchendo cadernos de anotações com ideias, configurações, situações, piadas, para serem desenhados no processo de composição".

3. Aspectos do romance, de E. M. Forster

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O livro foi elaborado a partir de uma série de conferências proferidas pelo escritor Edward Morgan Forster na Universidade de Cambridge durante a década de 20. Forster é autor de Um quarto com vista, Maurice, Howards End e Uma passagem para a Índia, que foram adaptados para o cinema. Aspectos do romance destaca elementos que compõem a narrativa – como padrão, ritmo e tom – e como os bons autores se valem deles para criar obras memoráveis. O autor é publicado no Brasil pela Globo Livros, mas é difícil achar um exemplar impresso de Aspectos do romance. O livro pode ser adquirido também em formato digital.

Trecho:

"Isso que chamamos de intimidade não passa de uma improvisação; o conhecimento perfeito é uma ilusão. Nos romances, porém, conseguimos conhecer as pessoas perfeitamente, e, além do prazer normal da leitura, podemos encontrar aqui uma compensação pela falta de clareza da vida. Neste sentido, a ficção é mais verdadeira do que a História, porque ultrapassa as evidências, e todos nós sabemos por experiência própria que existe algo além das evidências".

4. Como funciona a ficção, de James Wood

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James Wood apresenta um ponto de vista singular nesta lista: ele é crítico literário e leciona Prática da Crítica Literária na Universidade de Harvard. Em Como funciona a ficção, ele começa pela ruptura de Flaubert para então partir para os personagens, consciência, empatia, linguagem e diálogo. É um livro de dois gumes: funciona tanto para escritores quanto para quem aprecia literatura. A edição de bolso da Cosac Naify dispensa qualquer consideração sobre a qualidade.

Trecho:

"A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. Qualquer outra coisa não vai parecer muito uma narração, e pode estar mais perto da poesia ou do poema em prosa".

5. Para ser escritor, de Charles Kiefer

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Kiefer, apesar do nome gringo, é brasileiro. Participou de um dos mais conhecidos cursos para o desenvolvimento da escrita, o International Writing Program, da Universidade de Iowa. Tem 31 livros publicados e venceu o Prêmio Jabuti em três ocasiões. Para ser escritor carrega também a experiência de Kiefer como pesquisador e professor de literatura. Tem uma linguagem simples de acompanhar e relata situações comuns enfrentadas pelos escritores brasileiros (como o uso exagerado de adjetivos).

Trecho:

"Um escritor somente é escritor quando menos é escritor, no instante mesmo em que tenta ser escritor e escreve. Na absoluta solidão de seu ofício, enquanto a mente elabora as frases e a mão corre para acompanhar-lhe o raciocínio, é escritor. Nesse espaço, entre o pensamento e a expressão, vibra no ar um ser sutil, fátuo e que, terminada a frase, concluído o texto, se evapora. Nesse átimo, o escritor é escritor. Aí e somente aí. Depois, já é o primeiro leitor, o primeiro crítico de si mesmo e não mais escritor"

6. Para ler como um escritor, de Francine Prose

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Prose, autora de A vida das musas e Gula, faz a defesa que a melhor maneira de aprender a escrever é lendo. Mas não de qualquer jeito nem qualquer coisa. Inevitavelmente ela cita os clássicos: Tchekhov, Nabokov, Jane Austen, Virginia Woolf e Flaubert, por exemplo. É apontado como um bom livro para guiar o trabalho em oficinas de literatura.

Trecho:

"No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de que mais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneira mais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como o escritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregando detalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de 'pôr cada palavra em xeque': mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgula de volta."

7. Sobre a escrita, de Stephen King

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Esse é recente e bem conhecido de todos os escritores. Afinal, Stephen King é um dos mais produtivos e conceituados autores de mistério e terror da atualidade. Em Sobre a escrita ele detalha – em formato de ensaio, com poucos capítulos – seu próprio processo de... bem, escrever. Manifesta-se contra os advérbios, explica o que faz e o que não faz e por quê. Direto e simples, pode ser lido no ônibus ou no horário de almoço. É um livro cheio de aforismas e juízos de valor, mas há virtudes em suas páginas, incluindo a maneira apaixonante de Stephen King prender a atenção ao contar uma história.

"Quando eu tinha 5 ou 6 anos, perguntei a minha mãe se ela já tinha visto alguém morrer. Ela respondeu que sim. Já tinha visto uma pessoa morrer e outra morrendo. Perguntei como era possível ouvir uma pessoa morrendo, e ela contou de uma menina que tinha morrido afogada em Prouts Neck, na década de 1920. A menina nadou para depois da arrebentação, não conseguiu voltar e começou a gritar por socorro. Vários homens tentaram chegar até ela, mas naquele dia a contracorrente estava muito forte, e todos foram obrigados a voltar. No fim, turistas e moradores, entre eles a adolescente que se tornou minha mãe, só puderam esperar por um barco de resgate que nunca veio enquanto ouviam a menina gritar até que suas forças se esvaíssem e ela afundasse de vez. O corpo apareceu na praia em New Hampshire, contou minha mãe. Perguntei quantos anos tinha a menina. Minha mãe respondeu que tinha 14, depois leu uma revista em quadrinhos para mim e me colocou na cama. Em outro dia ela me contou sobre a morte que presenciara, a de um marinheiro que pulou do telhado do Hotal Graymore, no Maine, e aterrisou na rua. – Ele se espatifou – disse ela, usando seu tom mais casual. Fez uma pausa, depois acrescentou: – O negócio que saía dele era verde. Nunca esqueci".

8. A tentação do impossível, de Mario Vargas Llosa

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O escritor peruano Mario Vargas Llosa conquistou um Nobel de literatura e tem uma vasta carreira literária. É uma figura incontestável na hora de aconselhar outros escritores. Em A tentação do impossível – apresentado em forma de ensaio, por sua vez elaborado a partir de um curso ministrado pelo autor na Universidade de Oxford – Llosa faz uma análise profunda de Os Miseráveis, de Victor Hugo. É uma mistura que só pode dar certo.

Trecho:

"As ficções existem por isso e para isso. Porque só temos uma vida, e os nossos desejos e fantasias nos exigem ter mil. Porque o abismo entre o que somos e o que gostaríamos de ser precisava ser preenchido de alguma maneira. Para isto nasceram as ficções: para que, dessa maneira vicária, provisória, precária e, ao mesmo tempo, apaixonada e fascinante, como é a vida a que elas nos transportam, possamos incorporar o impossível ao possível e nossa existência seja ao mesmo tempo realidade e irrealidade, história e fábula, vida concreta e aventura maravilhosa".

9. Valise de Cronópio, de Julio Cortázar

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Para concluir essa lista, ninguém melhor do que nosso amigo Cronópio, o formidável contista argentino Julio Cortázar. Aqui no Livreiro Nômade destaquei um discurso-ensaio que ele fez para escritores cubanos pouco depois da revolução. O mesmo texto pode ser lido na coletânea Valise de Cronópio, que reúne 18 ensaios do escritor. Alguns têm uma forte pegada acadêmica, como a análise da poesia de John Keats, outros são mais expositivos, abordando desde os gêneros romance e o conto até os escritos de Poe e outros autores de referência. Diferente de Sobre a escrita, Valise de Cronópio requer atenção, muita atenção. Sua absorção deve ser ativa, porque Cortázar tem pernas longas, caminha rápido e não espera por ninguém.

Trecho:

"Tenho pensado algumas vezes se a literatura não merecia ser considerada uma empresa de conquista verbal da realidade. Não por razões de magia, para a qual o nome das coisas (o nome verdadeiro, oculto, esse que todo escritor persegue embora não o saiba) dá a posse da própria coisa. Nem tampouco dentro de uma concepção da escritura literária segundo a entendia (e previa) Mallarmé, espécie de abolição da realidade fenomênica numa progressiva eternização de essências. Esta ideia da conquista verbal da realidade é mais direta e sem dúvida menos poética; nasce sobretudo da leitura de tantos romances e também, provavelmente, da necessidade e da ambição de escrevê-los."

O que achou da lista? Ficaram de fora outros livros não menos recomendáveis, como Iniciação à estética, de Ariano Suassuna, por seu teor mais filosófico e menos prático, e outros que são indicados dentro dos livros mencionados neste post. Você acrescentaria outros livros? Deixe sua opinião nos comentários.

Atualização 10.11: Após uma produtiva discussão no grupo Escritores ajudando outros escritores, surgiram outros títulos promissores, devidamente elencados abaixo.

A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer
Sobre a Literatura, de Umberto Eco (esgotado)
Seis passeios pelos bosques da ficção, de Umberto Eco
O romancista ingênuo e o sentimental, de Orhan Pamuk
O laboratório do escritor, de Ricardo Piglia
O Zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury
Os segredos da ficção, de Raimundo Carreiro (esgotado, mas alguns trechos podem ser lidos no site do escritor)
A arte do romance, de Milan Kundera
A arte do romance, de Henry James
Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino
Todos nós entendemos o sofrimento, amigo... |

Emplacar um romance que vende feito água é o sonho de alguns escritores. Para o bem ou para o mal, muitos desses não passam da mediocridade. Mas conseguir colocar um título na lista dos mais vendidos tem menos a ver com talento do que com matemática.

Cientistas da área de informática da Stony Brook University, em Nova Iorque, desenvolveram um algoritmo que pode prever com até 84% de precisão se um livro será o próximo sucesso comercial. A técnica é chamada de estilometria estatística, que basicamente analisa o uso de palavras contidas nos textos. Segundo os pesquisadores, o resultado foi "surpreendentemente eficaz".

"Nosso trabalho é o primeiro a fornecer resultados quantitativos na conexão entre o estilo de escrita e o sucesso de trabalhos literários".

O estudo foi feito com uma amostra de livros clássicos em domínio público baixados do Projeto Gutenberg, para que os estilos textuais fossem comparados com outras informações históricas acerca do sucesso do livro. Todos os estilos entraram na pesquisa, incluindo poesia e ficção científica.

É importante observar: os livros estudados foram publicados em inglês. Há diferença nas práticas de leitura, no idioma e na cultura em relação ao português que, naturalmente, não foram considerados.

Os resultados apontaram, por exemplo, que o uso frequente de conjunções "e" e "mas", além da ampla utilização de substantivos e adjetivos, estava ligado ao sucesso da obra. Por outro lado, livros que venderam menos abusam dos verbos e advérbios, bem como de palavras que descrevem explicitamente ações e emoções -- o caso de verbos dicendi como "quis", "pegou" ou "prometeu". Nesses casos, o mais recomendável é a utilização de verbos que remetam a processos, como "reconheceu" ou "lembrou".

"Nosso trabalho é o primeiro a fornecer resultados quantitativos na conexão entre o estilo de escrita e o sucesso de trabalhos literários", afirma o professor assistente Yejin Choi, um dos responsáveis pelo artigo científico. Foram analisados cerca de 800 livros de vários gêneros.

É claro que inúmeros outros fatores orbitam no nebuloso abismo que separa os best-sellers literários dos demais títulos. E esses fatores englobam desde a qualidade intrínseca da narrativa, passando pelo marketing literário, até o envolvimento do autor com seu público. No fim das contas, essa é apenas mais uma informação que pode ajudar as editoras a escolherem melhor os originais.