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É provável que crescidos longe da Região Sul pouco conheçam a respeito da poeta Maria Dinorah Luz do Prado – de cujo nome emana poesia. Professora, contadora de histórias e colunista, Maria Dinorah se destacou na produção literária pensada para crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul.

O trabalho da escritora carrega singeleza e simplicidade no linguajar arranjados em ricas e criativas construções poéticas, desde sonetos até versos livres. Os temas transitam entre imagens da infância, dramas maternos, homenagens aos filhos, crítica social e muitos outros, em geral com uma abordagem pensada para o público infanto-juvenil – o que não impede que pessoas de qualquer faixa etária desfrutem da obra.

Mas por que uma escritora e ativista cultural reconhecida por artistas do porte de Erico Verissimo, Carlos Nejar, Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade – além de ter conquistado vários prêmios literários em todo o Brasil – é pouco conhecida ao norte dos pampas?

"O legado cultural de Maria Dinorah é certamente muito maior do que seu reconhecimento", conta Patrícia Pitta, mestre e doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS e estudiosa do espólio da escritora, falecida em dezembro de 2007. Pitta é organizadora da antologia Maria Dinorah Luz do Prado: que falta que ela nos faz, lançada em dezembro do ano passado. A obra reúne textos publicados, manuscritos inéditos e até fac-símiles de notas escritas à mão por Maria Dinorah. A obra foi editada a pedido dos quatro filhos da escritora: Luiz Carlos, Maria Luiza, Beto e Carmen, responsáveis pela seleção do material depositado no acervo DELFOS da Biblioteca Central da PUC-RS. A cada um foi dedicada uma seção da antologia, onde eles tiveram a liberdade de selecionar os escritos conforme a memória afetiva que guardaram da mãe.

Para Pitta, os críticos de literatura frequentemente circunscrevem Maria Dinorah ao ambiente escolar. No entanto, sua obra é vasta e não cabe nesses limites, embora ela de fato tenha se concentrado em produzir para o público local com o propósito desenvolver suas potencialidades.

"Eu me senti pequena e impotente frente à enorme quantidade de seus manuscritos", relata Pitta. A maior parte do material da escritora disponível na biblioteca jamais foi publicado. "São mais de 200 cadernos com poesias, contos, crônicas, aforismos. Textos que, entre originais e inéditos, levarão anos para serem catalogados, analisados e selecionados". Seu projeto permaneceu ativo entre 2013 e 2015, mas foi paralisado por falta de financiamento.

"O certo é sermos. O resto é covardia" (imagem: reprodução/livro)

O livro

Maria Dinorah Luz do Prado: que falta que ela nos faz tem gosto de saudade. Mesmo para quem nunca ouviu falar da escritora gaúcha, é impossível olhar para versos escritos às pressas em uma página de agenda e não sentir o punho da artista no exato momento em que ela transcrevia sua ideia. "Grande parte da obra de Maria Dinorah é voltada para o leitor infantil, contudo, a sua produção dirigida ao leitor maduro é vasta e bastante festejada", relata Pitta.

Sob a textura sensível dos versos, é possível identificar uma estrutura complexa de metáforas, ritmos, assonâncias e aliterações. Porém, longe de ser uma arte parnasiana, são poemas que acertam em cheio a subjetividade na primeira leitura, pungentes em forma e conteúdo, um casamento singular entre ética e estética. Escritos lúdicos e sérios, claramente escritos por uma alma que buscava tocar outras almas.

Várias facetas de Maria Dinorah estão presentes na antologia; é o primeiro contato ideal para aqueles que não conhecem a escritora e uma edição de colecionador para aqueles que aprenderam a ler passando os olhos pelos versos de Maria Dinorah. Crianças e adultos que nascerão no próximo século deveriam ter contato com sua obra. "O que eu depreendo da obra e da trajetória de Maria Dinorah é que ela se preocupava com o fazer literário muito claramente de duas formas dicotômicas: uma relacionada à sua ânsia existencial, que a impelia a produzir, e outra relacionada à quantidade, qualidade e validade de seu público leitor", considera a pesquisadora.

Leia abaixo alguns versos retirados do livro, que pode ser adquirido aqui.

"Eu gosto tanto de brincar de infância
que esqueço, às vezes, o apagar dos dias.
Como se a vida, a derramar distância,
fosse um brinquedo em minhas mãos vazias" (Preocupação, in Hora nua, 1980)

"Tudo quando me emburra
é uma surra.
Tudo quanto me anima
é uma rima.
Tudo quanto me enrola
é uma bola.
Tudo quanto me encanta
é uma planta.
Tudo quanto me invade
é amizade" (Tudo quanto, in Cantiga de estrela, 1984)

"Procuro
uma receita mágica.
Pra dar riso ao Janjão.
Pra farturar o pão.
Pra adoçar a lição.
Pra promover a banda,
remover quem desmanda,
coroar a ciranda.
Procuro um jeito
de ser leve e profundo.
Procuro uma criança
pra comandar o mundo" (Receita, in Coração de papel, 1986)

A fama precede o poeta norte-americano Charles Bukowski; há uma razão para seu apelido ser "velho safado". Porém alguns de seus poemas são tocantes e capazes de encher de inspiração seus leitores.

Morto em 1994, aos 73 anos, Bukowski sempre sonhou viver pela sua obra e ser reconhecido por ela. Era dissoluto, e seus escritos iniciais demonstram bem esse comportamento; segundo o próprio, boa parte de sua obra é autobiográfica. Cada linha tange um sentimento: nojo, repulsa, raiva, paixão, melancolia, riso. E às vezes introspecção e motivação.




O estilo passional de Bukowski foi disseminado em gerações de novos escritores e a artistas. Alguns deles resolveram então homenagear o poeta através de animações baseadas na sua obra. Os vídeos são uma brecha para a poesia do velho safado, mas se você observar bem, verá que são janelas para dentro de si próprio.

A propósito, quando tiver um tempinho leia essa entrevista de John Martin, editor de Bukowski, para a Revista Vice.









Plus

O vídeo abaixo é uma animação que tem como fundo uma conversa entre Bukowski, sua esposa e John Martin, durante a sessão de entrevistas para o clássico Run with the hunted – a Charles Bukowski reader.



Vinde, musas que habitam
Nas regiões divinais,
Banhar-me nas santas águas
Das fontes celestiais -
Que vou contar o romance
Do herói João de Calais.

No meio da feira livre de Areia, um formigueiro de gente negociava, conversava, afundava a mão nos sacos de grãos, apertavam e cheiravam para selecionar os melhores frutos e legumes que a lavoura fornecia. Eos abrira os portões para Hélio e o vento gelado da serra passeava entre as construções históricas e varria a rua úmida. No meio do vuco-vuco, Severino Folheteiro, flanqueado pela sua invariável maleta que servia como estante, cantava a história secular de João de Calais. Ali perto, um pirralho ajudante de feira fitava-o, maravilhado pela rima, métrica e beleza da melodia no poema. O balaio fora esquecido, as velhas chamavam para dar-lhe uns tostões em troca do transporte de sacolas, mas os versos furtaram sua atenção. "Cabra preguiçoso".

Aos oito anos de idade, Aderaldo Luciano era apresentado à poesia de cordel.

Filho de Areia e Pilões, o brejeirinho cresceu pobre. Sua mãe era empregada doméstica – do pai não fala – e o criou sozinha na Rua do Bode. "Meu filho, estude". O dito proferido por todas as mães desde a criação do mundo era reiterado por Dona Mocinha. E no coração de Aderaldo a semente encontrou solo fértil. "Ela me dizia isso todos os dias invariavelmente e eu fui fiel ao conselho. Estudei nas maiores intempéries, sem roupa, sem calçado, sem caderno, sem horizonte, mas não parei de estudar, de encontrar saídas para meu desespero pessoal. Vinguei-me nos livros", relembra.

Daí foi ladeira acima. Na Biblioteca Municipal Rodrigues de Aquino tornou-se canibal: devorou Verne, Dickens, Poe, Balzac, Borges, Cortázar... nem gibis escapavam à sua fome. "Foi incrível como esses autores caíram no meu colo", diz. Na biblioteca do Padre Rui fartou-se dos brasileiros Jorge Amado, Humberto de Campos, José Lins, Graciliano, Raquel de Queiroz e outros. O moleque carregador só queria saber de ler, ficava até tarde praticando aquele ritual. O dinheiro que ganhava gastava com cinema, na lanchonete de Seu Nunes – onde tomou o primeiro gole de Coca-Cola e detestou – e com os cordéis.

Aos 17 anos arrumou a trouxa e subiu a serra da Borborema em direção a Lagoa Seca, para estudar na casa de formação de religiosos dos Irmãos Maristas. "De repente me vi lendo todos os filósofos cristãos, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, os patriarcas e muita teologia". Já contava com uma bagagem cultural de impressionar anciãos. Dali migrou para uma comunidade eclesial em Propriá, Sergipe, onde entornou Loyola Brandão e João Antônio.

O conselho de Dona Mocinha levou o rapaz outrora pobre para o ensino superior. Licenciou-se em Língua Vernácula na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e dois anos depois, na virada do milênio, desterrou-se para o Rio de Janeiro. Na UFRJ iniciou o mestrado, onde se dedicou ao estudo da arte telúrica que lhe despertou o gosto pela erudição; em 2003 apresentou a dissertação Literatura de cordel: uma poética para os heróis degolados. Na mesma instituição cursou o doutorado, concluído em 2009, também debruçando-se sobre os folhetins. "É a minha senda". Até hoje leciona Literatura Brasileira na terra de Machado.

Aderaldo tem seis livros publicados, sendo três como participante de um grupo de estudos do CNPq e outros três assina sozinho: O Auto de Zé Limeira; Apontamentos Para Uma História Crítica do Cordel Brasileiro; e A Princesa Adivinhona, escrito para a peça Urucuia Grande Sertão, do Coletivo Peneira. Tem mais quatro projetos na agulha, aguardando publicação, além de estudos autorais sobre o cordel: Teoria geral do cordel brasileiro; Investigação sobre as origens do cordel no Rio de Janeiro e Memórias recentes do cordel no Brasil (2009-2014).

Em breve somará ao cartel sua estreia no romance com a história O rio nasce no mar, "ainda muito incipiente". O cabra, que já foi chamado de preguiçoso, ainda arruma tempo para ser músico: "toco por prazer da música. E, geralmente, toco só para mim. Componho, mas não gravo". Utiliza a música como apoio nos projetos, aulas e oficinas. O moleque do balaio, que observava a cantoria de Severino Folheteiro no palanquim do meio-fio, enveredou pelo caminho da poesia, da música e da pesquisa. O pirralho da Rua do Bode virou erudito.

Livreiro – Como a literatura de cordel se firmou enquanto instrumento da cultura popular tipicamente nordestina?

Aderaldo Luciano – Primeiro quero alertar para dois termos que a pergunta nos apresenta, meu olhar sobre eles. Depois seguirei na busca pelos elementos consolidantes do cordel como marca identitária do Nordeste brasileiro. O primeiro termo é “literatura de cordel”. Sou um revisionista desse termo por percebê-lo não condizente com o nosso produto literário. Essa denominação é originalmente portuguesa e não se refere aos nossos folhetos. Os nossos pais e avós chamavam o cordel de folheto, verso, romance. Quem chamou de literatura de cordel foi o francês Raymond Cantel ao encontrar semelhanças entre os folhetos nordestinos e os folhetos da península ibérica, mas esqueceu-se de observar o conteúdo e fazer as comparações necessárias. Nós criamos uma forma literária. Essa é a grande diferença, logo, o que temos não é “literatura de cordel”, é poesia brasileira, a única forma poética legitimamente brasileira. O mesmo se dá para a maneira como nossos folhetos eram vendidos. Em nossa infância não vimos os folhetos sendo pendurados em barbantes. Eles eram vendidos de duas maneiras: ou no chão, sobre uma lona; ou em maletas, assentadas sobre pequenas armações de quatro pés. O barbante é português e era uma das características da venda lá por Lisboa, mas não a única, pois também havia os cegos andarilhos, vendendo literatura de cordel, com ela amarrada em volta da cintura.

O segundo termo é “cultura popular”. É talvez o mais depreciativo que as elites culturais encontrarão para designar tudo que é produzido pelo povo. Quer queiram ou não, o termo foi utilizado, e hoje muito mais, para fazer a apartação. É criar um muro entre a arte produzida por aqueles que não frequentaram os bancos escolares, mas não menos elaborada, e a arte produzida por aqueles iniciados nas “belas” artes, “belas” letras e outras coisas também “belas”. Enquanto essas “belas” estão, para eles, municiados de elementos estéticos superiores, aquelas, as artes populares, são desprovidas dessa complexidade estética. O que é uma mentira. Um engodo. Apenas uma forma de se autodeterminar superior. Mas se pensarmos que a arte, e a poesia especificamente, não tem pátria, nem classe social, tudo isso vai por água abaixo. Isso se aplica ao cordel. As elites, sem meios, mas com medo de perder seus centros, elegem o cordel como manifestação popular, apenas com o intuito de dizer: — Isso é uma poesia menor, sem atributos estéticos! É uma conspiração. Todavia um cordel produzido por Ferreira Gullar é enaltecido como obra literária de grande valor. Embora o cordel seja considerado menor. É um paradoxo.

Agora, quanto à consolidação do cordel como marca nordestínica, e não nordestina, deu-se pelo fato de ela ter como pais quatro poetas oriundos da Paraíba, Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, João Martins de Athayde e Francisco das Chagas Batista. Essa genealogia explica-se por uma questão de sucessão e adaptação. Silvino criou o romance, a história em versos, mas foi Leandro quem percebeu o potencial mercadológico, pensou a forma de produzi-la graficamente, experimentos vários modelos e chegou a esse que todos os poetas utilizam hoje. Embora Leandro tenha feito isso, foi Athayde quem industrializou e realmente pensou o cordel como um sistema: contratou poetas para escrever para ele, produziu em série, diversificou a distribuição, instalando-se em uma casarão no centro do Recife. Chagas Batista seguiu o caminho de retorno, foi para Campina Grande, depois para Guarabira e finalmente desceu à capital onde fundou a Popular Editora e deu um aspecto melhor acabado ao cordel, inclusive com antologias de capa dura. Esses quatro semearam o cordel pelo Nordeste. O ponto de partida foi a cidade do Recife, do final do séc, XIX, a grande metrópole econômica e intelectual do Nordeste. Dali, o cordel encantou os estados nordestinos e desceu ao sudeste.

E aconteceram dois caminhos: o caminho para a ruralidade e o caminho para a urbanidade. Enquanto as histórias de fantasia, de amor, de bravura e as pelejas cativavam a população rural e a população urbana com raízes rurais, os temas sociais, os acontecimentos, a política, as sátiras, faziam a população urbana, citadina, discutir os temas circunstanciais da época. Isso nos primeiros tempos, na geração fundadora e na geração princesa. Assim seguiu até a geração prometida, aquela que viria para consolidar de vez o cordel, mas que naufraga na grande depressão cordelística acontecida na década de 80 do século XX, entrou pelos anos 90, inclusive com os anúncios de fim do cordel, mas que a geração coroada, espalhada por todo o Brasil, ressuscita das cinzas, fênix nacional, e coloca o cordel na estante burguesa por meio de edições bem cuidadas, produzidas por editoras do Sudeste. Hoje, o que se vê é um movimento que, embora rachado, atua de maneira decisiva para o poder de nossa literatura mais marcante.

Esse estilo foi importado mesmo da Europa e adaptado por aqui? Ou a literatura de cordel do Nordeste assumiu um caráter inteiramente novo?

O termo literatura de cordel é realmente europeu, mas não porque sejamos o mesmo produto. Aconteceu porque, colonizados que fomos por Portugal, ficou-nos a ideia de uma literatura que teria vindo nas caravelas, esse sonho romântico, a lenda sem sustentação histórica. As caravelas colonizantes vinham repletas de homens sem instrução, totalmente analfabetos, aventureiros, muitos de péssima reputação. Não acredito, e a história não nos mostra, que esses homens em seus momentos de descanso ou de diversão sentassem no convés de alguma caravela para ler histórias de cordel. Pelo contrário, as cartas de bordo falam de vida miserável e violenta a bordo, doentia. A coisa só muda com a chegada da família real que traz a biblioteca real, mesmo assim dentro dessa biblioteca, que era particular e não seguiu para o meio do povo, havia pouco ou nenhum cordel. A vida literária brasileira só vai se formando por volta de 1850. Esse termo literatura de cordel em solo brasileiro aparece em Sílvio Romero, em 1879, em A Poesia Popular No Brasil, e em José de Alencar, em 1893, em Como e porque sou romancista. Nem um nem outro referem-se aos nossos folhetos, mas à produção portuguesa. No Brasil, o cordel transformou-se em uma forma poética, assim como o soneto, a ode, a balada, o vilancete, o rondó. Quem quiser escrever cordel tem que se moldar à forma.

Qual a importância histórica da poesia de cordel – em conjunto com outras manifestações artísticas e culturais, como o repente, xilogravuras – para a formação da identidade do povo nordestino, sobretudo sertanejo?

Essa pergunta nos leva a uma reflexão para a História. Há uma vinheta intelectual teimando em rimar Nordeste com cabra da peste. Podemos prestar atenção. Até mesmo poetas mais voluptuosos, pesquisadores corretos, caem nessa zona confortável, mas temerosa. A preguiça de pensar dá lugar ao conforto de ser engraçado, caindo no caricato. Por outro lado, quem produz esse tipo de rima também cai na tentação de colocar todas as formas poéticas nordestinas dentro do mesmo caldeirão. Assim, repente, cantoria, embolada, glosas, pulhas, cantigas, benditos, cirandas são todas cordel. Para os mesmos, a xilogravura também sinonimiza-se ao cordel. E não são. Tampouco o cordel é uma poesia sertaneja, como muitos querem. Então vejamos. Embora três dos quatro pais do cordel que citei tenham nascido no sertão (Athayde nasceu em Ingá do Bacamarte, zona da mata), os três escreveram muito pouco sobre o sertão. Uma ou outra história teve como cenário o sertão e só um poema de Leandro remete a saudade do sertão: Suspiros de um sertanejo. No mais, a maioria dos poetas clássicos do cordel nasceram na região do brejo paraibano ou na zona da mata pernambucana. Aliás como já citei, o cordel nasce no litoral e é lá onde se adapta. O que quero dizer é que a poesia não tem pátria. O poeta tem, mas a poesia, não. Dessa forma, chamar o cordel de poesia sertaneja é um equívoco.

Os folhetins de cordel ainda têm o mesmo caráter popular ou se tornou uma forma de arte mais restrita, elitizada, até mesmo erudita, como prevê o Movimento Armorial?

Vamos utilizar esse termo popular como algo do seio do povo. O cordel é prioritariamente poesia brasileira e como tal deve ser abordado. Uma de suas características que temos apontado é: o cordel deve ser difícil de fazer e fácil de entender. Como toda e qualquer produção literária, ele é pensado, trabalhado, erguido entre os dois eixos linguísticos do homem: o vocabulário e a relação entre as palavras. Existem poetas que primam pelo vocabulário, outros primam pela relação entre as palavras, ou seja, o que existe são poetas mais ousados (que querem realmente trabalhar os elementos literários de sua obra), outros que querem apenas atingir um maior número de pessoas, transformando seus poemas em literatura de massa, geralmente tratam de gracejo; e outros que conseguem unir a literariedade ao gosto do leitor, seja o leitor mais exigente, seja o leitor que apenas quer se entreter.

Na sua opinião, o Movimento Armorial contribuiu para a disseminação da literatura de cordel? De certa maneira pareceu uma tentativa de "cristalizar" não só essa, mas várias formas artísticas populares nordestinas para que não desaparecessem com o tempo... você enxerga dessa forma?

A contribuição armorial é importante, mas ela trafegou, ou navegou, dentro das orientações estéticas europeias. Ao transpor a nossa música para as orquestras apenas traduzia para os moldes europeus. Porque as orquestras continuaram tocando seus violinos, e não as rabecas; suas flautas, e não os pífanos; os címbalos, e não as zabumbas; os naipes de cordas, e não as sanfonas; não o violão, não as violas repentistas. Para mim, a Banda de Pífano é vanguarda. Os Trios de Forró, são vanguarda. Siba e a Fuloresta, é vanguarda. O importante do armorial é provar que nossa música resiste a qualquer instrumental e que se pode também afetá-la. Quanto ao cordel, a atuação armorial sobre ele sofreu as mesmas orientações. Foi importante porque propagou o universo nordestínico profundo, mas o cordel, como tal, e os seus autores, não foram abraçados. Aliás, é uma questão da elite brasileira: ela acha que pode fazer melhor do que os que já fazem. Então o poeta oficial descobre o cordel e pensa em subvertê-lo, romper suas regras, acha que está amarrado, que não vai evoluir. E não é assim. No cordel não há evolução. Há mudança. De suporte, de linguagem, de tema dentro da forma.

Você acredita que a internet conseguiu assimilar bem a poesia de cordel? Qual o futuro dos folhetins, eles ainda devem resistir nas feiras livres do interior ou nos centros turísticos da região Nordeste?

Outra questão interessante de se pensar. Vejamos como evolui a humanidade, atrelada a Darwin com a ideia de que uma espécie que evolui vai fazendo a outra original desaparecer. Quando o rádio apareceu disseram que ia colocar por fim o jornal impresso. Quando a televisão apareceu disseram que ia acabar com o rádio. Quando chegou a internet disseram que ia acabar com a televisão. E todos iam acabar com o cordel. São os enganos do mundo. Tudo convive, embora alguns tenham que se reinventar, sem perder seu caráter original. O cordel conviveu com o jornal, conviveu com o cinema, com o rádio, com a televisão, com a internet, com as mídias eletrônicas, com a velocidade, com o raio X. Porque o cordel é poesia. É literatura, é da alma. Os folhetos de cordel seguiram o caminho do todo literário universal: acabando o papel, migra para outro suporte. Mas vai levar um tempo ainda. Como diria meu amigo Ancelmo Góis: — O cordel não vai acabar porque eu não quero que acabe. Pronto!
Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto não tem pressa. Não funciona na pressão, como os 'operários do conhecimento' da atualidade, habituados ao estresse. Ao contrário, é preciosista como um relojoeiro ou luthier, gosta das peças no lugar e funcionando perfeitamente. Toma o tempo que julga necessário, elabora e oferece à luz e ao mundo o seu trabalho. Assim ele faz com a poesia, assim ele fez com a entrevista abaixo, realizada por e-mail. Sérgio é do tempo do ocaso das vanguardas – integrou o Grupo Sanhauá de poesia nos idos da década de 60, junto com Marcus Vinícius e outras sumidades – e início da mistureba, da mescla entre popular e erudito, onde tudo é apropriado, destruído ou massificado pela internet e TV (agora em alta definição).

O poeta nasceu em João Pessoa, aos 25 dias de abril de 1947 – o jornalista e literato vieram alguns anos depois. Formou-se na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde ministra aulas de literatura brasileira. Sua primeira obra foi publicada em 1967, intitulada Gestos Lúcidos. Seguiram-se A ilha na ostra (1970), Domicílio em trânsito e outros poemas (1983),  O cerco da memória (1993), A quatro mãos (1996) e Zôo imaginário (2005). Recentemente publicou seu sétimo livro de poesias A Flor do Gol – ao contrário do que o nome sugere, apenas seis poemas versam sobre futebol. A novidade do livro é a forma, não o conteúdo.  “O que eu ressalto nesse livro mais recente, são os poemas longos e narrativos, a exemplo de 'esta lua' e 'o gato e o poeta', que se contrapõem ao poeta minimalista que eu quase sempre fui”, conta.

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Castro também publicou ensaios sobre literatura, como Longe, Daqui, Aqui Mesmo: a poética de Mário Quintana e A Casa e Seus Arredores. Participou de várias antologias poéticas no Brasil e no exterior, dentre as quais se inclui Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizada por José Nêumanne Pinto, onde ele figura ao lado do próprio Mário Quintana e outros nomes, como Paulo Leminsky, Carlos Drummond de Andrade e o também paraibano Augusto dos Anjos. Como nos anos de Sanhauá, o que ele gostaria mesmo é de ver a poesia produzida na Paraíba e no Nordeste ser valorizada à altura de sua qualidade. “Mas, o que fazer? Os queridinhos da mídia sempre existiram em todos os tempos e lugares”, lembra, referindo-se à produção “incensada” por resenhistas do eixo Sul-Sudeste.

No momento apenas leciona. Após o lançamento de A Flor do Gol em junho, ele não tem planos – ou pelo menos não quis revelar ainda – para um próximo livro. “Por enquanto, estou entregue ao ócio, embora saiba que o ócio é produtivo. E que a preguiça, como já disse Quintana, é um método de trabalho”, diz.

Como você classifica a sua construção poética? Algumas poesias têm um quê de concretistas, mas não são predominantes. Fale um pouco sobre essas construções.
Sérgio de Castro Pinto – Claro que a minha poesia se apropriou de algumas das conquistas do concretismo e seus desdobramentos, mas não ao ponto de recalcar os ditames do eu profundo. Porém, mais do que das vanguardas, a minha geração se mostra tributária ao João Cabral sucinto, parcimonioso, substantivo. E também ao Cassiano Ricardo de "Jeremias Sem-chorar", espécie de bíblia, de breviário estético dos que se iniciaram nas lides poéticas a partir dos anos 60. Em suma, creio que soube converter as influências em confluências.

Quais foram as suas maiores influências literárias?
A minha primeira influência foi a do meu pai, memorialista, autor do livro "Páginas de um diário", cujas crônicas tratam a respeito das pugnas entre liberais e perrepistas, a propósito da Revolução de 1930, mas sob a ótica, sob o ponto de vista de uma criança. Depois vieram Monteiro Lobato,  José Lins do Rego e muitos e muitos outros, pois tudo o que se lê - segundo Fernando Pessoa - se transforma em influência. Creio que o poeta já nasce poeta no modo de sentir o mundo a contrapelo, de se sentir um exilado, de experimentar a sensação de não estar de todo. O difícil, o mais difícil, é encontrar a linguagem com a qual possa expressar estes sentimentos. Isto custa muitas leituras, muitas reflexões, uma longa jornada noite a dentro.

Em relação aos temas, quais são os aspectos da realidade que mais te inspiram a criar poesias?
Desde a minha estreia em livro, "Gestos lúcidos (1967), a minha poesia se deixou impregnar pelas coisas simples, prosaicas, pelos sobejos de Deus, digamos assim. Daí, investir em núcleos temáticos que, para os mais puristas, podem soar pouco nobres ou sublimes. Enfim, sempre dei uma enfase toda especial àquilo que alguém já considerou "as pequeninas grandes coisas do universo". Que o digam os meus poemas sobre o lápis, sobre a borracha, a propósito da dentadura, da máquina fotográfica, etc. Mas, a par desses temas, tenho outros de extração política, quando concebi poemas a respeito da ditadura militar em plena vigência do arbítrio e da censura institucionalizada.

"O difícil, o mais difícil, é encontrar a linguagem com a qual possa expressar estes sentimentos. Isso custa muitas leituras, muitas reflexões, uma longa jornada noite adentro"

Você foi incluído na antologia dos 100 maiores poetas brasileiros do século, do José Nêumanne Pinto, dentre outras homenagens. Ou seja, foi colocado em um panteão que inclui Augusto dos Anjos, Paulo Leminsky, Drummond e o próprio Mário Quintana, cujo trabalho foi objeto de sua dissertação de mestrado. Como você se sentiu com esse reconhecimento?
Claro que a inclusão do meu poema "camões/lampião" na antologia os "Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século", organizada por Nêumanne, me deixou bastante lisonjeado, sobretudo por figurar, lado a lado, com os chamados poetas federais, embora considere bastante desigual a poesia de Leminski. Bem o sei, na esteira de Bandeira, que não existem poetas perfeitos, mas poemas perfeitos, não obstante existam aqueles cujas obras nem sempre façam jus aos calorosos aplausos da mídia. Mas o que fazer? Os queridinhos da mídia sempre existiram em todos os tempos e lugares. Sob este aspecto, o crítico e poeta Amador Ribeiro Neto, do jornal "Contraponto", está fazendo um trabalho admirável, corajoso, na medida em que se propõe a desmistificar alguns livros de poesia incensados, principalmente, pelos resenhistas do sudeste do país.

Fale um pouco sobre o movimento literário Grupo Sanhauá. O grupo ainda existe?
O Grupo Sanhauá consistiu numa tentativa, creio que bem sucedida, de fazer com que a poesia paraibana entrasse em sintonia com as experimentações vanguardistas levadas a efeito no eixo Rio-São Paulo. Nem por isso, porém, recalcamos o eu profundo, uma vez que não nos submetemos passivamente aos breviários estéticos do concretismo, da poesia práxis, etc. E tanto foi assim que a poesia do grupo, exceção, talvez, da de Marcus Vinícius, sempre se mostrou imagética e metafórica, ingredientes repudiados pelos movimentos de vanguarda de então.

"Os queridinhos da mídia sempre existiram em todos os tempos e lugares"

Como você enxerga a forma como a poesia se situa em meio a outros gêneros literários ligados à prosa. A poesia ainda é "intelectualizada" e exclusiva, enquanto a prosa é mais disseminada (tanto que se transformou no adjetivo "prosaico")?
Creio que a poesia, até mesmo por ser, geralmente, mais ambígua do que a prosa, reivindica um leitor mais especializado, mais familiarizado com a performance do poeta contemporâneo, cujos ardis e sutilezas terminam por passar despercebidos pelos neófitos do gênero.

Recentemente você lançou "A Flor do Gol", um livro de poesias sobre esportes – em um momento bastante propício, aproveitando o ensejo da Copa do Mundo 2014. Fale um pouco sobre esse livro, quando você começou a escrevê-lo?
"A Flor do gol" reúne apenas seis poemas sobre o futebol, mais especificamente a propósito de Didi, Vavá, Jairzinho, Leônidas e Garrincha, este último uma espécie de "gauche" dentro e fora das quatro linhas do gramados. A segunda seção do livro, conforme sugere o próprio título - "A Minha voz dos bichos" - , trata a respeito de animais, tema que explorei à exaustão no meu livo anterior, "Zoo imaginário".Já na terceira seção, "Bricabraque", os temas são bem diversificados. Porém, o que eu ressalto nesse livro mais recente, são os poemas longos e narrativos, a exemplo de "esta lua" e "o gato e o poeta", que se contrapõem ao poeta minimalista que eu quase sempre fui. Aliás, João Batista de Brito e Hildeberto Barbosa Filho registram, no prefácio e na apresentação do livro, este fato novo na minha poesia.

Você acredita que o futebol de hoje – depois do que assistimos do nosso escrete na Copa – ainda é poético, como no tempo de Leônidas, Garrincha e Jairzinho? Ou se distanciou muito do futebol de craques, tal como era descrito por Nelson Rodrigues?
Os jogadores de futebol de hoje não possuem o romantismo dos jogadores do tempo de minha adolescência. Adolescência, aliás, marcada muito mais pela palavra do que pela imagem. Explico-me: não dispúnhamos da televisão, mas do rádio, cujos locutores - um Oduvaldo Cozzi, um Jorge Curi, um Valdir Amaral e tantos outros - faziam com que gerássemos as nossas próprias imagens a partir da voz empostada de cada um deles.

Você está trabalhando em algum outro livro? O que você pode adiantar sobre ele?
Por enquanto, estou entregue ao ócio, embora saiba que o ócio é produtivo. E que a preguiça, como já disse Quintana, é um método de trabalho.

Entrevista realizada para a Revista de literatura e Artes Boca Escancarada