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Fotografia: Renato Parada/Divulgação

A escritora, jornalista e ilustradora Elvira Vigna deixou uma obra que só deverá ser plenamente reconhecida na literatura brasileira nas próximas gerações. A notícia de sua morte surpreendeu a todos os que já conheciam e acompanhavam seu trabalho; em uma luta secreta contra um carcinoma desde 2012, Vigna escreveu seus melhores trabalhos -- entre eles sua magnum opus Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (Companhia das Letras, 2016)-- durante a convivência com a doença.

No período, ela compareceu a eventos, trabalhou ativamente na divulgação de seus trabalhos, escreveu livros e recebeu prêmios. Por escrito, sua penúltima obra, ficou em segundo lugar no Prêmio Oceanos 2015. Em 2016, a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) concedeu o prêmio de melhor romance a Como se estivéssemos em palimpsesto de putas. Anos antes, Vigna conquistara o Prêmio ABL de ficção, romance, teatro e conto com o livro Nada a dizer (Companhia das Letras, 2010).

Sua obra é marcada por personagens ambíguos, de caráter flutuante e uma agressividade visceral à altura da originalidade. Com sua habilidade narrativa, consegue trabalhar as perspectivas em jogo, legando ao leitor o papel ativo de identificar as meias-verdades, tergiversações e juntar os pedaços para compreender os sentimentos envolvidos na trama. Outro destaque das suas histórias é o protagonismo feminino, muito distante dos clichês.

Em evento na Biblioteca Pública do Paraná, Vigna afirmou:
Homem nenhum chega para você e diz: 'minha vida hoje está muito monótona, está ruim, eu não tenho mais adrenalina nenhuma, nada de interessante acontece, tenho uma situação banal, estou sendo massacrado por um trabalho que odeio, por uma relação em que não estou inteiro'. Ele não consegue falar disso. A noção dele de poder, ou de masculinidade, faz com que ele queira se ver, e se vender num livro, como alguém que viveu algo único, interessante, aventureiro, em que ele se tornou herói, mesmo que com o sinal trocado. Porque, mesmo com o herói da marginalidade, que vomita na Avenida São João, por exemplo, ainda é um herói. Ainda é o 'ó do bobó'.
Durante sua vida, publicou 10 romances, além de ensaios, contos, crônicas e artigos em antologias, periódicos e revistas literárias no Brasil e no exterior. Seu trabalho também inclui textos teóricos, traduções e ilustrações -- o que lhe rendeu inclusive um prêmio Jabuti em 1980.

Edições mais antigas ou esgotadas estão disponíveis gratuitamente no site da escritora. Veja aqui outros livros.
Foto: Mônica Câmara/divulgação

Foi no lançamento do livro Liturgia do fim, de Marília Arnaud, numa pomposa cerimônia no pátio da Usina Cultural Energisa, que troquei as primeiras palavras, em pessoa, com Maria Valéria Rezende. Cheguei meio sem jeito, mas ela tratou comigo como quem fala com um velho amigo. Falou desde sua curiosidade por motoboys – personagem do clássico conto "Desejo" – até a revolta com certos escritores. "O jornalista pergunta 'qual a sua rotina produtiva?' aí o cara diz 'ah, de manhã passeio pelo calçadão de Ipanema, depois escrevo, almoço, tiro um cochilo, escrevo de novo'. Aí no final do dia escreveu o quê? 'Um parágrafo'. Porra!".

A santista que abraçou João Pessoa (PB) não nega um dedo de prosa a ninguém. E assim ela fez sua carreira literária -- tardia, porém prolífica: conversando, trocando ideias e absorvendo experiências. Optou pela vida clerical, mas desempenhando ações de cunho social: trabalhou com educação popular, programas de formação de educadores, integrou a direção da Juventude Estudantil Católica e abrigou fugitivos do regime militar brasileiro. Formou-se em Pedagogia e fez mestrado em Sociologia. Viajou bastante em aviões da FAB e conheceu boa parte do Brasil.

O território da literatura não lhe era desconhecido, apesar do início tardio -- Rezende é graduada em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy --, mas a maior fonte do seu trabalho é a experiência. Quando começou a escrever Quarenta Dias, comprou uma passagem para Porto Alegre, cenário do romance, e saiu a perguntar: "conhece um rapaz da Paraíba, o Cícero Araújo, peão de obra, que não deu mais notícias à mãe?" Poucos escritores assumem o ofício de maneira tão comprometida.

Seu primeiro livro, Vasto Mundo (2001), prenunciava a força da sua literatura ao chegar à final do Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Em 24 de janeiro de 2004, o suplemento comemorativo dos 450 anos de São Paulo do Estadão trouxe uma série de contos selecionados sobre a cidade. Um deles era "Desejo", onde Maria Valéria narra, em um fluxo de consciência, a saga de um motoboy nordestino para encontrar uma romã na metrópole paulistana para sua companheira grávida. "Fui eu quem mandei o conto para eles", disse-me a irmã de Maria Valéria durante a cerimônia na Energisa. "Eu adoro motoboys", confidenciou, em seguida, a escritora.

A literatura de Rezende abraça os grupos excluídos, sem voz. É uma extensão do chamado religioso da autora. E é por mostrar essas faces -- em franca oposição à anódina literatura hipster e boêmia da classe média -- que as histórias contadas pela freira são tão cativantes. Confira abaixo os romances e coletâneas de contos assinados por Maria Valéria Rezende.
Livros infanto-juvenis

Aos 30 anos, o tempo – ou a percepção que temos dele – sofre uma variação singular: ele começa a caminhar mais rápido. Em um minuto, coisas que aconteceram ontem já contam cinco anos. De repente, dez. Crianças que vimos nascer já encenam os aborrecimentos da puberdade. Com essa noção, começamos a lembrar do tempo perdido com trivialidades, da importância de ter lido mais, estudado mais, se esforçado mais. Até os 20, temos a eternidade pela frente. Depois disso, é penoso olhar para trás e ver o quanto já passou.

Beirar os 60 anos de idade requer ainda mais musculatura emocional para suportar o fardo do tempo pretérito. Soma-se a isso a queda do vigor físico e a sensação de perda, mesmo das coisas que não tivemos, dos amores não vividos e daqueles que foram vividos, mas só resultaram em dor. Em A bela Helena, nono livro da escritora carioca Miriam Mambrini, a personagem Talita faz um relato com gosto de passado. Ao longo de 42 capítulos curtos, ela relembra a amargura dos seus dias; confidencia ao caderno fatos, diálogos, decepções, brigas e eventos que marcaram a sua vida.


Se tempo e espaço misturassem suas propriedades, o passado seria, para Talita, uma prisão. Sem conseguir se desvencilhar do que viveu e se transformar na bela e desejada Helena do seu ideal, Talita se debruça sobre o caderno para narrar a própria história. Os capítulos são pedaços da personagem que se embaralham pelo tempo; ora ela é uma estudante secundarista, ora uma adulta, ora uma viúva com 59 anos de idade aguardando a virada do milênio, sozinha, sem amigos, longe do único filho e com um amante inconstante. Rejeitada, assim como era em sua infância. Quando se põe a escrever, Talita passa a ser uma crisálida, uma transição.
“As lembranças aproveitavam os momentos vazios e vinham se instalar em seu pensamento. Não era uma ocupação pacífica, era uma invasão, uma intromissão violenta. Imagens surgiam, alongavam-se, desfaziam-se, eram substituídas por outras imagens e voltavam mais uma vez. O seu tempo passou a ser o passado” – Texto do prólogo.
A marcação dos diálogos com aspas, ao invés de travessão e uso predominante do tempo verbal no pretérito imperfeito reforçam essa característica da narrativa. A narradora é Talita, o seu tempo presente é a véspera do ano 2000, mas toda a história é o seu passado com ligeiras incursões em sua atualidade. Como a história não obedece a uma sequência temporal – o começo e os meios estão fora de ordem –, o leitor precisa ficar atento para não se perder. Mas quando as primeiras peças são posicionadas, fica fácil montar o restante do quebra-cabeça.

Em que pese a narrativa madura e experiente de Miriam Mambrini, erros de edição podem ser percebidos – a maioria pouco significativos, como espaços duplos e uma falta de pontuação. O mais grave é a personagem, então estudante de Letras, citar a obra de Guimarães Rosa como Grandes Sertões: Veredas [o título correto é Grande Sertão: Veredas], embora o lapso não comprometa a densidade da narrativa.

História

Filha inesperada de uma mãe indiferente e pobre, sem muito amor para dar, e de um pai tão ausente quanto ignorado, ela é atirada na casa dos avós paternos, que viviam em Copacabana. No mesmo apartamento, morava seu pai, dado à bebedeira e prostituição, uma tia desinteressada e egoísta, um avô severo e uma avó carinhosa. Esta decidiu criá-la quando Zenaide, mãe de Talita, bateu à porta com a mala da criança já pronta, com a promessa de buscá-la assim que tivesse melhores condições. Ainda na infância, Talita enfrentou a rejeição dos parentes, a pobreza de afeto e a ausência de um lar.

Quando adolescente, começa a descobrir a paixão sensual durante agarrações com o jovem Luiz Eduardo, ambos dentro de um fusca estacionado nos ermos da floresta da Tijuca. Os toques e carícias levam ambos a picos de excitação que exigem sexo. Mas, nos anos 50 e começo dos anos 60, o hímen ainda era um instrumento social; perdê-lo implicava rebaixamento, o que levou Talita a recusar posteriores amassos. Luiz Eduardo, herdeiro de família tradicional, propõe casamento, e ambos passam a viver na casa dos sogros de Talita.

Mais uma vez, ela experimenta a rejeição. Embora bem instalada em um quarto grande e bem mobiliado, vivia de favor, não era respeitada pelos sogros e ainda lidava com a indiferença do marido, que ainda agia como adolescente, interessado apenas em sexo. Ao se separarem, Talita era uma jovem desquitada sem ter concluído os estudos secundaristas e com poucas perspectivas. Volta a viver com a mãe, a contragosto desta, e consegue emprego em um jornal.

Vive outros amores. Com Gustavo, um executivo acostumado ao controle, ciumento e com ímpetos de violência, tem o único filho. Com Eugênio, um empresário bem-sucedido, quinze anos mais velho, casa-se e, durante seis anos, experimenta a tranquilidade de um relacionamento estável. Mas o personagem que mais a influencia é Laerte, com quem Talita vive um romance tórrido, porém sem promessas de fidelidade, estabilidade ou respeito mútuo. Ele aparece e desaparece de sua vida conforme o próprio gosto.

A primeira vez que Laerte vê Talita é no meio de um tumulto provocado por um atropelamento fatal. De imediato, a imagem da garota é associada tanto ao amor quanto à morte, dualidade que o personagem sintetiza na expressão “anjo mau”. A maneira como ele se relaciona com ela reflete esse pensamento. Atração e repulsa coabitam. Laerte surge em momentos pontuais da vida de Talita para desaparecer após algumas semanas ou meses. Talita, por sua vez, projeta em Laerte a mesma decepção provocada pelo abandono paterno, mesmo com sua completa entrega. O período mais duradouro do relacionamento foi também o mais frio; o combustível da paixão é fugaz.

Contudo, o aspecto mais marcante do romance não são as histórias de amor e sofrimento, mas a condição da mulher no século passado – não faz tanto tempo. Talita molda-se aos relacionamentos conforme exigem seus homens, mesmo quando há um sacrifício emocional. Apesar de forte, ela se mostra totalmente passiva, ao ponto de incomodar o leitor. Se o marido é ciumento e possessivo, ela toma para si a tarefa de chegar em casa nos horários definidos para não levantar suspeitas. Ao descobrir o prazer e a sexualidade, descobre também a culpa unilateral de não ser uma mulher “para casar”. Se o cônjuge é de uma alta casta social, ela adequa o modo de falar, vestir e comer. E poucos dão importância ao que ela pensa ou sente a respeito disso tudo.

Essa condição de vida não era algo particular. O jugo carregado pela mulher na sociedade brasileira até o final do século 20, como vemos hoje, era profundamente desigual – ainda é, se considerarmos o atraso social das localidades distantes das metrópoles. O melhor que se podia esperar era um casamento tolerável, onde a traição e outras falhas de caráter atribuídas ao sexo masculino – enquanto construção social, não natural – deveriam ser relevadas em nome da respeitabilidade. Com isso, abusos sexuais, violência doméstica, prostituição dentro do casamento, ameaças constantes, homicídios domésticos e outros fenômenos grassaram no seio necrosado da família brasileira.

Nunca saberemos quanta dor e sofrimento aprisionaram as mulheres que viveram nesse período, tornando-as crisálidas sob força e opressão sufocantes. Muitas certamente pensaram em matar os esposos, algumas podem ter levado o intento a cabo – como a personagem Clarice –, ou mesmo atentado contra a própria vida. As mulheres dessa época que vivem hoje e conseguem ser felizes conseguiram romper um casulo grosseiro, artificial e desnecessário – ou ainda tentam. A história de Talita faz com que A bela Helena seja uma leitura ideal para mães, avós e filhos que pouco reconhecem o que elas sofreram e os sonhos que esqueceram para criá-los.
Sofá vermelho... se é que você me entende... A propósito, você precisa conferir esse ensaio fotográfico |

Ao ler Das trips, coração, do escritor alagoano Dau Bastos [já falei sobre ele aqui e aqui] fui conferir a data de publicação. 1984. Cambaleante, o aparelho da censura ainda existia, sem falar na resistência da sociedade ao abordar temas até hoje espinhosos. Como o livro foi publicado, se foi um sucesso ou um fracasso de vendas, não sei bem. Mas, além de ser o primeiro, é um dos melhores livros de Dau Bastos.

A história se passa no fim da década de 70. O jovem Epaminondas (Pá) sai da minúscula cidade fictícia de Renitência, no interior de Pernambuco, para concluir o ensino médio em Recife. A transição simbólica – não só de cidades, mas de etapas da vida – é a fuga de Epaminondas de uma vida absolutamente sem perspectivas. A economia brasileira na época era pouco interiorizada, de modo que o futuro dos jovens pouco tinha de surpreendente – isso até a chegada da televisão no lugarejo.

"Em Renitência os hábitos mudavam menos velozmente que as tartarugas"

Só para ilustrar, o substantivo renitência significa teimosia, obstinação cega. Só para ilustrar²: trip, do inglês, significa viagem.

Na capital, Epaminondas vive em um quarto no convento – fingindo vocação religiosa –, onde conhece o frei homossexual André, uma espécie de guia na transição de Pá. Apesar de a disposição sexual de André ser conhecida, ele era tolerado no convento, talvez pela acreditada possibilidade de conversão. Por sua vez, André não saberia sobreviver fora daquelas paredes, com um emprego e contas a pagar.

"— É uma pessoa muito sofrida... Marcado pela vida... Com problemas desde a infância... Todo cristão tem de dar atenção aos outros, assim Jesus ensinou. Mas há pessoas perto de quem a gente deve ter cuidado, pois às vezes, mesmo sem querer, servem a Satanás"

Talvez, pela ótica religiosa, não houvesse exagero. Para o amigo sair do convento, André põe em palavras motivos falsos numa carta endereçada ao pai e avó de Epaminondas – porém assinada pelo próprio. Alegando vocação para medicina ou engenharia, e não teologia, consegue uma mesada de dois mil cruzeiros para viver num pensionato e continuar no colégio particular da Congregação, onde estudava a fina-flor de Olinda.



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Ao sair do convento, passa a ter contato pleno com o mundo. Sem regras nem mediadores, se entrega às paixões, experiências e amizades, passa a ter consciência do próprio corpo e de seus desejos. Tudo isso se traduz na metáfora do "sofá vermelho", único lugar onde o personagem, ainda em Renitência, tinha contato com o resto do mundo, seja pela televisão ou pelos livros. Em parte, a história de Pá se parece com a do próprio autor, declarada no prefácio do livro.

Bastos consegue mesclar o discurso indireto livre com o discurso direto, marcado por travessões. Cabe ao leitor identificar a necessidade de cada um: para falas e pensamentos simples, indireto livre. Para diálogos mais extensos ou apenas uma única fala mais comprida, direto. Dentro da narrativa, conseguem cumprir seu papel de deixar o texto fluido sem prejudicar a compreensão do leitor. Porém quem não está acostumado ao discurso indireto livre pode ficar confuso nas primeiras páginas. Já a linguagem é leve, jovial, até mesmo coloquial, escrita quase da mesma maneira como se fala, sem floreios.

A história vai parecer bem familiar para aqueles que, como eu, passaram uma temporada fora de casa para estudar. É como um segundo nascimento, a redescoberta e ressignificação de todas as coisas à luz da falta de grana e da incerteza do que vai ter para o almoço. Ainda assim seguimos construindo nosso próprio futuro, cada vez descobrindo mais sobre a vida e sobre nós mesmos no meio das espinhosidades.

"Ser jovem é ter integral respeito por si mesmo, de tal maneira que não há mais nada a destruir ou enfrentar, pois se investe toda a energia na construção dos próprios sonhos".
Arte do chargista Carlos Latuff retratando o massacre [não presente no livro] |

Em 17 de abril de 1996, há pouco mais de 19 anos, dezenove sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar no município de Eldorado dos Carajás, no Pará. Segundo a perícia, dez foram executados à queima-roupa. A represália brutal que culminou em tragédia, embora pouco lembrada hoje, serve como panorama do primeiro romance da escritora Valéria Pimentel, que está sendo lançado pela Novo Século.

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Valéria Pimentel é blogueira, cronista e formadora de arte. Trabalhou na região norte durante doze anos e relatou suas impressões em Irina do Pará. O romance é a aposta da Novo Século, pelo selo Talentos da Literatura Brasileira, para o mês de junho.

Ficha técnica

Título: Irina do Pará
Autora: Valéria Pimentel
Categoria: Ficção/Literatura brasileira
Páginas: 168
Edição: 1ª edição
Preço: R$ 29,90
ISBN: 9788542804263

Em 2012, a baiana Parla de Paula venceu um concurso de poesias em Vitória da Conquista, cidade onde reside, e teve a oportunidade de conhecer Ariano Suassuna. Com sua conhecida pegada alegórica mestre armorial profetizou, na ocasião, que Parla seria a "princesa do sertão baiano".

O primeiro passo já foi dado: o selo Talentos da Literatura Brasileira, da Editora Novo Século, publicou o primeiro romance da jovem: Clara e a garota do espelho.

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A história mostra a vida de uma garota cheia de sonhos, porém sua insegurança forma um lastro pesado demais. Essa trama é representada de maneira fantástica com a garota no espelho, transformando o indivíduo em um ser dual. Como diria o sábio Yoda: "o medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio e o ódio leva ao sofrimento".

O sofrimento, no caso de Clara se traduz em doenças como a anorexia e bulimia. E os sonhos dão lugar a uma espiral de dor sem fim. À medida em que isso acontece, de forma secreta e silenciosa, a imagem da protagonista passa a ser refletida de forma distorcida, representando a sangria de todos os sonhos e planos.

Parla aprendeu a ler aos três anos de idade. Aos nove ganhou seu primeiro concurso literário. Com esse talento e a bênção de Ariano, a história dela deverá ser melhor do que a de Clara.

As relações de classes no Brasil, por mais que se queira negar, são baseadas na dissimulação. É o racismo que não é bem racismo, que inventa subterfúgios para escapar da reprovação, mas que espalha veneno insípido e indelével cujos efeitos se traduzem em ódio, dor e violência. O conflito abandona os contrastes e assume outras matizes, nas quais o paroxismo pode se manifestar em um ritual egoísta de sexo ou num simples tiro na cara.

Essa é a base da crônica social Reima, livro de doze capítulos escrito pelo professor de literatura Dau Bastos e publicado em 2009 pela Editora Record. A obra tem uma forte pegada sociológica, porém o discurso é entremeado nas histórias dos personagens, que vão se desvelando ao longo da trama. Cada um tem conflitos extremamente complexos e particulares, o que torna impossível a pasteurização típica de alguns romances, onde os personagens jamais se distanciam da sua zona demarcada.

Nicole é a franco-portuguesa órfã de mãe e objeto de interesse sexual do pai. Educada e formada em Ciências Sociais, ela passa a vida em busca do orgasmo, sensação que os parceiros conterrâneos -- pouco familiarizados com uma coisinha chamada clitóris -- não conseguem provocar nela. Bastos naturaliza o egoísmo colonizador e volta-o contra os próprios cidadãos das ex-metrópoles. O sexo com franceses é pragmático, o que, aliado aos traumas afetivos, contribui para a frigidez de Nicole.

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Quando conhece o músico bissexual carioca Boiô, é apresentada ao paraíso. Atribui o molejo e habilidade sexual do brasileiro, inicialmente, à cor da pele, mais uma pincelada da naturalização proposta por Bastos. O carioca, por sua vez, é um egresso dos Prazeres, favela que protagonizará um conflito armado entre facções, amigo de infância do traficante Camarão e do líder comunitário Juca. Boiô e Nicole permanecem juntos, mas a incapacidade de manter um relacionamento sedentário, paixão pela música e preferência do brasileiro por outros homens levam ao fim do relacionamento, marco que se torna outro conflito para Nicole: afinal, foi o único parceiro que lha provocou espasmos orgásticos.

O interesse de conhecer as origens do ex-amante e o tom mórbido que a capital francesa assume no psicológico de Nicole arrastam-na para trópicos inferiores. No Rio de Janeiro, passa a viver em um condomínio de classe média situado entre os Prazeres -- que, apesar de ser substantivo próprio, é sempre referido no plural -- e o Cerro, favela que se contrapõe em rivalidade. Nas relações do condomínio Equitativa com as comunidades, Dau Bastos deduz a tensão quase insuportável entre a classe média e os favelados, algo que muitos teimam em dizer que não existe. A convivência forçada leva à formação de laços que trafegam entre amor, amizade, interesse, repulsa e raiva.

O mote do livro é a tensão que perdura meses entre o Cerro, o Equitativa e os Prazeres.

No condomínio, uma das principais figuras é a síndica Clara, síntese do cu-docismo [habilidosamente desconstruído no final do livro], que manteve um triângulo amoroso entre o preparador de textos Rodapé e o aspone Gabriel. Ao sentir os calores da menopausa, desperta para a necessidade de ter um filho, o que acabou rompendo o relacionamento a três, onde Rodapé era favorecido e Gabriel servia de "contrapeso". O primeiro é intelectual frustrado, que dedica a vida a melhorar textos alheios, mas é incapaz de escrever um livro próprio. Mas é inteligente, culto, bom de lábia e senhor de uma luxúria insaciável, ao passo que o rival é corpulento e bruto, desprovido do mínimo traquejo para a conquista e com potencial para o crime.

Manuela, filha de Gabriel, tem contatos próximos com os moradores de ambas as comunidades, com os quais não hesita em dividir a mesa de bar ou a cama -- tanto que foi iniciada pelo porteiro negro Juca. Não se perca ainda, as relações que se estabelecem pelo contato sexual são amplas e ganha matizes que variam entre desejo e ódio. O romance, dessa forma, desconstrói e enterra de vez o ideal romântico que ainda predomina em alguns escritos.

Em resumo, é possível construir um infográfico intrincado sobre quem transa ou já transou com quem em Reima.

O mote do livro é a tensão que perdura meses entre o Cerro, o Equitativa e os Prazeres. Os traficantes do Cerro, liderados pelo alagoano 'paraíba' Reimoso, preparam um avanço sobre os Prazeres, onde Camarão manda, para unificar as comunidades. Há também um componente pessoal, uma vez que Reimoso foi injustamente expulso tanto do seu trabalho no Equitativa quanto da comunidade rival. No meio de ambos, o tradicional condomínio de classe média, capitaneado pela síndica Clara, vive o risco de ser ocupado durante a invasão. Conhecendo os não-pobres-ascendentes brasileiros, não é difícil imaginar que os sentimentos dos moradores não passam de uma reedição da casa grande e da senzala -- mas nesse caso a senzala vem armada com AKs-47.

Análise

Apesar de a violência e o sexo -- Eros e Tânatos -- pautarem todo o romance, não se deve ter a percepção de que o mesmo é superficial. Bastos consegue passear pelas características, sentimentos e decisões dos personagens, apesar de utilizar um ponto de vista narrativo que pessoalmente não curto: o narrador onisciente "intrometido" ou intruso. Em certos momentos ele demonstra conhecer particularidades sobre os personagens que nem os próprios sabem. Por um lado pode ser vantajoso para o tipo de romance que ele quis escrever, já que apresenta ao leitor os "porquês" daquela situação de conflito. Por outro, cansa e tira o clima de ação transmitido pela capa e pela sinopse do livro. Lança o foco sobre as questões sociológicas e antropológicas, os construtos culturais sobre raça e diversidade sexual e a intolerância griffithiana. Não sobre a trama em si. O autor assume para si todas as opiniões e visões que estão ali escritos, mesmo atribuindo-os aos personagens.

A sociedade brasileira precisa de uma certa instrução, nada contra, e a literatura brasileira carece disso. Mas eu quase não sobrevivi ao primeiro capítulo, onde cansei de me compadecer pelas desventuras sexuais de Nicole.

Mesmo minúsculo em área, Alagoas é o estado com a maior área plantada de cana-de-açúcar da região. Conhecer um personagem que teve origem nesse contexto é fascinante.

Para quem insiste no livro, as coisas ficam mais interessantes. Dau Bastos utiliza uma linguagem de fácil trânsito entre o erudito, o regional e o demótico. O próprio título do livro faz referência tanto a um termo grego quanto à corruptela do Norte e Nordeste. 'Reima' carrega uma conotação de doença, o mesmo sentido que pode ser atribuído ao personagem Reimoso. Ambos os termos têm a mesma raiz de 'reumatismo', por exemplo. Assim, fica fácil deduzir que uma sociedade doente (Reima) produz indivíduos potencialmente nocivos (Reimoso). O segundo termo é popularmente utilizado para definir alimentos saudáveis que prejudicam pessoas doentes. Uma metáfora habilidosa para definir traficantes e milicianos que se aproveitam da vulnerabilidade gerada pela pobreza extrema para criar um poder paralelo.

Em contraste ao ambiente violento, o bucolismo do local é um dos aspectos mais marcantes. Os cenários naturais dentro do bairro Santa Teresa, como a cachoeira e a floresta que circunda as comunidades, são mostrados como verdadeiros refúgios para os personagens. Mais do que um lugar de contemplação, é um templo onde ocorrem mudanças interiores significativas em momentos de conflito, como a conversão de Reimoso de um sujeito tranquilo e sedutor para um matador violento e a desvirginação de Manuela. O verde da natureza também é um símbolo de esperança que cerca uma terra manchada de sangue.

Após a leitura do romance, descobri que Dau Bastos é alagoano e vive há algum tempo no Rio de Janeiro, onde leciona Literatura Brasileira. Isso explica o conhecimento geopolítico e econômico sobre o estado nordestino, bem como a realidade social periclitante da capital fluminense narrados no livro. A lembrança de que o governo Sarney foi particularmente destruidor para as usinas de álcool do Nordeste e seus milhares de empregados é algo que não se pode esperar de escritores do eixo Sul-Sudeste. Mesmo minúsculo em área, Alagoas é o estado com a maior área plantada de cana-de-açúcar da região. Conhecer um personagem que teve origem nesse contexto é fascinante.

Na hora de comprar, não se deixe enganar pela sinopse sexy e cheia de promessas de ação, tiroteios e demonstrações visuais de barbárie. Infelizmente Dau Bastos, um escritor inteligente, talentoso e com trinta anos de carreira na área literária, foi vítima da necessidade desesperada de vender imposta pela indústria editorial. Uma sinopse equivocada é capaz de destruir a experiência do leitor. Reima exige uma leitura calma e reflexiva, pouco a pouco, um avanço lento e paulatino, porém contínuo e inexorável. Entornar bocados do romance de uma só vez pode levar ao abandono prematuro da leitura pela falta de paciência ou perda da mensagem contida nas entrelinhas. Ler duas páginas por dia tem o mesmo efeito. Reima não é filme, é um seriado com 12 temporadas.