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Harald Henzler é um cara de poucas, porém valiosas palavras. O CEO da Smart Digits – empresa alemã de consultoria em tecnologia e estratégias digitais – explica como a profissão de editor deixou de ser uma carreira glamourosa no mercado cultural de cem anos atrás para se tornar parte de um mercado dominado pelos dados. E ele faz uma ressalva importante, algo sobre o qual já se fala há algum tempo nos bastidores: a Amazon pode se tornar uma editora gigantesca, talvez a maior do mundo. Isso porque ela tem dados.
A companhia sabe o que os seus leitores compram, até que páginas eles leem, quantas vezes por dia, semana ou mês eles leem eBooks, qual o dispositivo que utilizam, dentre outras informações cruciais que as editoras tradicionais mal sonham em obter. Mesmo nesse cenário não é impossível competir no mercado.

De uma maneira prática, Henzler explica que o Big Data é crucial para o sucesso no mercado de eBooks, mas as editoras precisam começar pelos primeiros passos.

“As editoras têm que começar conhecendo ou definindo quem são os seus clientes. Em um primeiro momento, eles não têm que focar no produto”, explica. “Se os meus clientes são de São Paulo e se interessam por literatura, por exemplo, o próximo passo poderia ser pensar em um aplicativo que poderia ajudar pessoas a ler algo em um smartphone ou tablet. As editoras ganham os dados e os leitores passam a ter informações como se o seu autor preferido está na cidade, ou se ele tem romances que acontecem aqui na cidade, e por aí vai”, detalha. Veja

Livreiro – Vamos começar com uma pergunta simples, porém incômoda: os eBooks podem ser lucrativos para os autores e editores?

Harald Henzler – Sim, eles podem. Alguns já são lucrativos, mas vai levar algum tempo até que ambos os parceiros encontrem o caminho em lidar com a situação. Como exemplo, nós temos a indústria da música. Nós temos novos formatos, novas maneiras de publicar as coisas e isso precisa de novas formas de abordagem, de como mostrar o conteúdo para o público. Esse é um dos desafios. O outro desafio é que hoje em dia qualquer um é um editor, então o mercado dos editores mudou completamente. Você pode publicar sem precisar de uma editora, porque não precisamos investir dinheiro para publicar livros impressos, apenas tempo. Podemos publicar, por exemplo, na iBooks Author um maravilhoso livro multimídia sem dor. O terceiro desafio são os ecossistemas das grandes plataformas, como o Google, Apple, Amazon. Facebook e Microsoft nós não sabemos ainda, mas pelo menos aqueles dominam de uma maneira que nós nunca vimos na área editorial antes. Há algum tempo atrás, nós podíamos publicar livros impressos sem depender da tecnologia; agora nós dependemos da tecnologia porque nós não podemos distribuir o mesmo livro com a Amazon e com a Apple. Eles têm ecossistemas fechados e eles também dominam o mercado no sentido de que eles fazem o preço. Quando a Apple oferece tutoriais gratuitos, informações gratuitas para a educação, torna-se difícil para mim, enquanto editor, publicar a mesma informação por um preço. Se a Amazon diz que o preço deveria estar entre 1,50 e 10 euros, torna-se difícil para mim manter um preço acima, como 20 euros, 40 euros, porque o público com o tempo, vai pensar: "eu posso ter o mesmo livro mais barato na Amazon".

Há algum tempo atrás, nós podíamos publicar livros impressos sem depender da tecnologia; agora nós dependemos da tecnologia porque nós não podemos distribuir o mesmo livro com a Amazon e com a Apple.

Você é contra a política de preços da Amazon?

Eu não sou contra, estou apenas dizendo que temos que manter isso em mente. A Amazon ainda tenta manter os preços mais altos do que a Google ou Apple, porque a Amazon foca na distribuição. A Amazon é a maior distribuidora do mundo de livros físicos e digitais. Eles vendem seus produtos, eles querem que você tenha um preço, não gostam de conteúdo gratuito. A Apple, por sua vez, gosta de conteúdo gratuito na área educacional porque eles querem vender seus tablets ao público. Eles ganham dinheiro com o hardware. E o Google quer dar tudo de graça porque o Google tira dinheiro da publicidade. Eles têm modelos de negócios completamente diferentes e esses modelos de negócios fazem com que eles usem o conteúdo como algo necessário no ecossistema, mas não pelo mesmo preço que as editoras estão acostumadas a vender.

Podemos notar que existem vários modelos de negócios em livros digitais – agenciamento, varejo, assinaturas, etc. Qual é o melhor modelo de negócios hoje e qual será o melhor no futuro?

Depende de qual negócio você está. Livros serão apenas uma parte dos negócios digitais. Em combinação com outros formatos, eles formam um novo portfolio. Para editoras B2B (business-to-business), bases de dados e serviços para os seus clientes, podem ser muito lucrativos. Editoras como Demand Media ou Bookboon focam em publicidade. A McGraw-Hill oferece um produto especial para estudantes. E por aí vai.

Os eBooks atuais são, de uma maneira geral, muito similares aos seus congêneres impressos. Temos muitas palavras, um projeto gráfico simples, e uma leitura linear. Alguma mudança vai acontecer no futuro, quer dizer, o livro digital vai encontrar seu próprio formato?

É claro. Vivemos tempos maravilhosos e podemos experimentar muitos novos formatos. Os livros digitais serão diferentes. A transformação já está aqui. Vemos que as pessoas publicam muito no Facebook, no Tumblr, no Pinterest... eles já usam filmes, animações, fotografias, eles utilizam texto. Eles publicam seus próprios sentimentos, suas próprias opiniões. E para as editoras é difícil combinar esses elementos agora. E eles precisam publicar eBooks que possam ser lidos em smartphones de uma maneira diferente da que você lê no tablet, e de uma maneira diferente da que você lê no computador, que é diferente de quando é impresso. Isso significa mais formatos de publicação, e mais audiências para focar. Então é necessário adaptar os formatos para diferentes situações do usuário, e isso é um desafio para as editoras, porque elas não podem simplesmente dizer: "esse é o livro impresso, esse é o formato, use-o nas diferentes situações nas quais você está lendo".

Eu acredito que as editoras têm que começar conhecendo ou definindo quem serão os seus clientes.

Como o editor pode rastrear o comportamento de leitura dos leitores? Existem ferramentas para isso?

Existem ferramentas de diferentes companhias. Por exemplo, a coisa mais importante para a Amazon no selfpublishing é guardar os dados do usuário para oferecer a ele outros produtos. A Amazon vai se tornar uma editora, porque eles coletam esses dados, e com esses dados eles podem fazer mais e melhores produtos. Cem anos atrás, uma pessoa seria orgulhosa se fosse um editor, dizendo "eu sou responsável por um certo tipo de conteúdo". A Amazon não tem nada a ver com essa imagem do editor. Eles são editores porque eles têm os dados; têm o browser Silk, e estão aptos a detectar cada passo seu quando você lê um livro no Kindle. Eles vendem os produtos Kindle por um preço baixo; não ganham nada vendendo o hardware. Ganham com o software, com o conteúdo. Isso mostra o quão importante é o Big Data, saber o que o cliente faz. Se apenas a Amazon tem esses dados, você fica muito dependente da Amazon, enquanto publisher. E, portanto, você tem que encontrar outras fontes para saber quem é o seu cliente.

Sim, mas a Amazon tem o seu próprio ecossistema, então eles podem facilmente rastrear o comportamento de leitura dos usuários. E quanto às pequenas editoras, que não têm um "kindle" ou um “silk” para coletar esses dados? Elas podem entender a questão do Big Data e usar isso em seu favor?

Eu acredito que as editoras têm que começar conhecendo ou definindo quem serão os seus clientes. Num primeiro momento, eles não têm que focar no produto, como "eu faço livros", ou "eu faço jornais". Vamos supor que meus clientes são pessoas em São Paulo interessadas em literatura. Uma vez definido o cliente, então você pode seguir os próximos passos e pensar em um aplicativo que poderia ajudar pessoas em São Paulo a ler algo em um smartphone ou tablet, porque então as editoras ganham os dados e os leitores passam a ter informações como se o seu autor preferido está na cidade, se ele tem romances que acontecem aqui na cidade, dentre outras informações. Daí a editora pode decidir de pode usar imagens e vídeos, se irá abrir uma fanpage no Facebook. Você tem que se dirigir a esse público, porque será mais preciso de dizer que é uma editora especializada em literatura em São Paulo. Porque há tantas coisas para fazer, como pensar no formato, nas pessoas, no ecossistema com o qual se trabalha, e portanto é preciso focar mais em certos clientes, e não em todos eles. Uma mudança importante em como fazer negócios como um editor: pensar mais diretamente em seu consumidor agora do que você pensava antes.

Você acredita que o Big Data é um fator-chave para a indústria editorial?

Sim, claro. De qualquer maneira que você queira definir Big Data, você pode definir como uma grande quantidade de dados. Se você definir dessa maneira, as editoras provavelmente não vão usar. Mas você definir como uma coleção de dados utilizados por dispositivos móveis e na internet, e como as pessoas usam seus produtos lá, então é realmente importante para um editor saber se, por exemplo, eu parei de ler na página 10, porque eu estou entediado. Ou se eu recomendei esse livro para outras cinco pessoas ou para nenhuma. Isso é importante para a distribuição, para o marketing e para o produto em si. Daí eu saberei se ele gostou do livro e se ele gostaria de algo similar, ou se ele não gostou do livro, e é melhor não fazer um livro como esse de novo – ao menos nessa situação para esse cliente. E nesse contexto, acho que é crítico para as editoras saberem quais dados coletar e quais não. Então elas têm que começar a ter uma ideia de quem são os seus clientes e o que querem saber sobre os eles e o mercado.

Perfil

Harald Henzler estudou Literatura Comparada e Filosofia em Munique, Berlim e Madrid. Trabalhou durante duas décadas em várias editoras na Alemanha até sair para fundar a sua própria companhia, a Smart Digits. Seu trabalho na Haufe Lexware, uma editora B2B (business to business) lhe forneceu a experiência necessária para desenvolver soluções digitais para o mercado. A Smart Digits presta consultoria para editoras, companhias e universidades. No blog da empresa são publicadas informações semanais sobre o panorama do mercado de eBooks.

O que falta para o mercado empreendedor das startups de base tecnológica se encontrarem com as livrarias e editoras? Segundo um estudo da consultoria Dosdoce.com, conversa. Só o que falta é diálogo, principalmente por parte das editoras. Enquanto 73% das startups assumem o papel proativo na busca por acordos de negócios, 91% das editoras reconhecem que precisam se mexer mais. Das pequenas empresas de tecnologia, 88% declararam que suas soluções cairiam como uma luva para as livrarias de eBooks, que atravessam uma via crucis.
Para Javier Celaya, coordenador do estudo e fundador da Dosdoce.com, ainda é possível alcançar um bom patamar de competitividade na internet, embora não seja fácil. “Para competir na web, eles [os editores e livrarias] precisam criar serviços com valores agregados em torno do seu conteúdo e tais serviços seriam fornecidos por startups. Na nova era da colaboração, é muito caro e absurdo desenvolver esses serviços internamente”, indica.
Em tom de urgência, ele convoca as empresas do segmento editorial a pensarem “fora da caixa” – jargão que se tornou popular desde A Startup Enxuta, de Eric Ries – e buscarem parcerias estratégicas de maneira proativa. “Para sobreviver na era digital, tudo o que as entidades da cadeia do livro devem compreender é que tecnologia irá se transformar no centro dos seus modelos de negócios”, diz.

Livreiro Existem soluções que garantam a sobrevivência das livrarias digitais? Com competidores como a Amazon e Apple, o que as pequenas e médias livrarias devem fazer para sobreviver?

Javier Celaya – A Internet é como um tsunami que vai transformar completamente o papel de todos os players no mundo do livro: editores, bibliotecas, distribuidores, e também livrarias. Para sobreviver na era digital, tudo o que as entidades da cadeia do livro devem compreender é que tecnologia irá se transformar no centro dos seus modelos de negócios. As pequenas e médias livrarias que não abraçarem a tecnologia irão desaparecer na próxima década. Abraçar a tecnologia significa que as livrarias devem desenvolver sites de e-commerce com tecnologia de ponta para vender tanto livros impressos quanto digitais para clientes em todo o mundo. A boa notícia para as livrarias de São Paulo ou Rio de Janeiro é que agora, com a internet, elas podem vender eBooks para clientes que falam português em qualquer lugar do mundo. Não vamos esquecer que a Amazon começou como uma pequena livraria 21 anos atrás. Não é fácil competir na internet, mas também não é impossível.

No estudo desenvolvido pela Dosdoce, as editoras estão muito mais reticentes do que as startups para conversar e fazer acordos rentáveis para ambos. Empreendedores frequentemente promovem meetups, onde as pessoas compartilham ideias e moldam novos negócios. Por que os editores de todo o mundo são tão conservadores?

Os resultados da pesquisa Como colaborar com startups, revela que a maioria dos editores ainda não construíram pontes colaborativas sólidas com companhias digitais. Embora 55% dos respondentes tenham declarado que mantiveram ao menos de 1 a 5 encontros com uma startup durante o ano anterior, apenas 9% dos editores afirmam ter uma relação fluida com startups. Essa falta de conexão é prejudicial para o futuro digital da comunidade editorial. Se os conglomerados de mídia, telecomunicações, finanças e companhias hospitalares, dentre outros setores, estão trabalhando com startups relacionadas aos seus setores para, juntos, identificarem oportunidades de negócios, por que as companhais editoriais não poderiam fazer o mesmo? Empreendedores de startups usualmente pensam fora da caixa. Colaborar com eles permitirá às empresas do ramo editorial ter uma compreensão mais profunda da dinãmica da economia digital e das oportunidades de negócios.

Uma das soluções para essa falta de comunicação é as editoras nomearem um ombudsman (representante) para negociar com startups. Não seria mais interessante se as editoras abrissem totalmente as portas para os empreendedores, para que eles se sentasse e formulassem soluções juntos?

Na era digital, os editores devem assumir que eles não estão mais no negócio de conteúdo. Para competir na web, eles precisam criar serviços com valores agregados em torno do seu conteúdo e tais serviços seriam fornecidos por startups. Na nova era da colaboração, é muito caro e absurdo desenvolver esses serviços internamente. Em vez disso, os editores deveriam andar de mãos dadas com empreendedores digitais com o objetivo de aumentar o conhecimento das novas tendências digitais e emergir novos modelos de negócios em áreas estratégicas, como a melhor geração de serviços para seus autores ou capacidade de descobrir serviços para os leitores, dentre outras áreas. Se os editores exclusivamente “usarem” a tecnologia fornecida por terceiros em vez de trabalhar junto a eles, então eles sempre serão pouco competitivos e “cegos” na era digital. Ser “cego” na era digital segnifica que os editores não têm acesso em tempo real aos dados sobre os perfis e sobre os comportamentos de leitura dos seus clientes. Eles leram o livro que compraram até o final? Eles tiveram uma boa experiência? Eles compartilharam essa experiência com outros leitores? Quais livros novos eu poderia recomendar a esse leitor com base nessas informaçẽos? Amazon, Apple, Google, Kobo e outros têm essas informações, mas eles não as compartilham com os editores. Os dados são o petróleo do século 21. Os editores precisam entender que startups irão ajudá-los a explorar esse novo petróleo. Para gerenciar esse desafio da “cegueira”, o The New York Times recentemente lançou uma notável e inovadora iniciativa: TimeSpace. Esse projeto tem como objetivo trazer empreendedores digitais para as instalações do NYT para redefinir e crescer junto com o negócio deles. Durante quatro meses, as startups selecionadas irão trabalhar junto a uma relevante equipe do jornal, demonstrar suas tecnologias e aprender com/ensinar uns aos outros.

As startups têm soluções muito similares para o mercado editorial: marketing e e-commerce, basicamente. Mas o negócio de publicaçẽos digitais ainda tem problemas além desses. Por que as empresas de base tecnológica insistem em manter esse foco, em vez de pensar em outras soluções, como novas maneiras de criar eBooks, por exemplo?

É verdade que o mercado está bem saturado com startups especializadas em soluções de marketing e e-commerce, mas felizmente nos últimos meses, uma nova geração de empresas de base tecnológica tem emergido no setor editorial, que fornece um vasto espectro de serviços e soluções interessantes, desde modelos de assinaturas em nuvem até plataformas colaborativas de conteúdo aberto, de aplicações de leitura social até ferramentas de descoberta (Bookmovies, QR Codes, NFC Chips, tecnologias de promoções cruzadas de eBooks) que irão ajudar os leitores a descobrir e comprar livros (impressos ou digitais) de formas inimagináveis.

O Brasil é o quinto maior mercado de eBooks, mas as coisas não estão andando muito rápido por aqui. Nós também somos um dos países mais empreendedores do mundo. Então o que está faltando para esses dois mundos se encontrarem?

O Brasil, assim como a Espanha, é uma nação que usualmente se transforma do passado para o futuro sem passar muito tempo no presente. Em outras palavras, temos uma tendência de atrasar as mudanças, somos muito conservadores por natureza. Mas uma vez que tomamos conhecimento que a mudança é fácil e até melhor do que o passado, então apressamos o futuro. Tem acontecido com mudanças tecnológicas anteriores, como a telefonia móvel, internet banking, ou leitura de jornais online. No começo, os usuários ficam relutantes em mudar, mas após alguns anos, essas atividades se tornam completamente comuns. Irá acontecer o mesmo com a leitura de eBooks. Mais cedo do que a indústria espera, mais e mais leitores brasileiros de todas as idades e níveis de renda irão transformar seus hábitos de leitura e se tornarem leitores regulares de eBooks. Para a maioria dos editores, a pior coisa a se fazer é ignorar essa transformação social antecipada que está tomando lugar bem à frente dos nossos olhos. Meu melhor conselho seria começar a pensar fora da caixa, trabalhar de forma mais próxima com startups tecnológicas para desenvolver novos produtos e serviços digitais. Fazer parcerias com companhias digitais recém-nascidas irá permitir que empresas de publicação tenham acesso a ideias inovadoras bem antes de seus competidores e irá também trazer respostas reais para os seus modelos de negócios de um futuro iminente.

Perfil

Javier Celaya foi uma testemunha ocular do desastre das pontocom no início do milênio. A empresa onde trabalhava foi uma das que não sobreviveram á explosão da bolha especulativa. Ele continuou mantendo contato com o universo das empresas de base tecnológica e já desenvolveu vários estudos e livros sobre o tema. Atualmente é fundador e presidente da consultoria Dosdoce.com, focada em produtos culturais.

Provavelmente você já observou algum filho de um conhecido, amigo, ou até o seu próprio demonstrar habilidades impressionantes com o smartphone na mão. Também não é raro ver que nossas crianças estão crescendo intelectualmente rápido demais, desenvolvendo habilidades que há meio século apenas as conhecidas como “superdotadas” possuíam. Como essa aceleração da cognição está impactando as escolas, que ainda não tiveram tempo para respirar e mudar seus paradigmas educacionais? E como os livros didáticos podem competir com a tecnologia que está nas mãos dos jovens e adolescente durante as aulas maçantes?
A resposta, segundo a educadora Patrícia Konder Lins e Silva, é que eles não podem. “Livros didáticos são recortes simplistas do conhecimento, coisa do passado e parecem desnecessários”, decreta. “Os sites de busca entregam a informação quase que instantaneamente, o que não acontece na velocidade de acesso à informação encontrada num livro”, prossegue, lembrando que esse salto não é apenas de volume, mas também qualitativo, exigindo uma reformulação completa de paradigmas. A escola e o professor têm que acompanhar a mudança que o próprio estudante vive – é o choque entre o que ela chama de “nativos digitais” e “imigrantes digitais”.

Para ela, a escola precisa ensinar o que não se pode aprender pesquisando pela internet. “Na escola eles precisam aprender a resolver problemas reais e a viver num mundo em transformação. Precisam ler livros e saber buscar informações em todas as fontes”, conclui.

O formato do livro digital, em muitos sentidos, ainda é bastante assemelhado ao físico, principalmente no que diz respeito à leitura linear e exaustiva. O que muda é apenas o suporte. Você acredita que o livro digital ainda deverá evoluir para se adequar ao comportamento e às praticas de leitura dos "nativos digitais"?

O formato dos livros digitais ainda imita o livro “físico” talvez porque, como diz Nicholas Negroponte, fundador do projeto One Laptop per Child, seja uma boa “forma”, apresenta uma boa “Gestalt”. Leve e prático para segurar e manusear. A questão não é o formato, mas o que a leitura, que exige concentração, significa para uma geração que interage ativamente, o tempo todo, com o que encontra nos suportes digitais. Acredito que, no futuro, o livro digital oferecerá som e imagem, além do dicionário e outras coisas que já oferece. O eventual cansaço da leitura poderá levar a clicar um botão e pedir para escutar ou ver o que se está lendo. Talvez se caminhe sempre na direção do que for mais rápido. A rapidez do mundo externo se introjeta no interno, dificultando ações pacientes, como pode ser a da leitura de um livro inteiro.

Como os livros digitais se encaixam em um mundo de informações rápidas, despejadas via smartphones, tablets e outras interfaces? A forma de produzir, distribuir, gerenciar e recompensar literatura também é partícipe dessa mudança de paradigmas?

O mundo continua mudando, não apenas rapidamente, mas em saltos qualitativos, provocando rupturas com o surgimento de outros referenciais e instalação de novos paradigmas. Os livros já podem ser lidos nos smartphones e tablets. Existe leitura para adquirir informação e leitura para lazer. A questão sempre é a velocidade do acesso à informação. Os sites de busca entregam a informação quase que instantaneamente, o que não acontece na velocidade de acesso à informação encontrada num livro. A velocidade faz privilegiar os textos curtos, a imagem e o som. Já a leitura por prazer e para o lazer teve, tem e terá sempre a competição de outras formas de adquirir divertimento. Os nativos digitais estão acostumados a uma interatividade diferente daquela que os livros oferecem. Nos novos paradigmas, será preciso criatividade dos especialistas para reinventarem a forma de produzir, distribuir, gerenciar e recompensar literatura.

A mudança de paradigmas na educação e na criação de crianças já é patente aos olhos de todos. Várias habilidades – como reconhecer formas geométricas ou até mesmo ler – estão sendo aprendidas precoce e autodidaticamente. Como os livros digitais deverão superar os velhos didáticos, que levam anos para serem atualizados, nesse cenário?

Livros didáticos são recortes simplistas do conhecimento, coisa do passado e parecem desnecessários. A informação está nos sites de busca. Enquanto a escola não se transforma radicalmente para atender às necessidades de aprendizagem da geração digital, os livros deveriam, pelo menos, trazer questões e problemas da vida real para o aprendiz exercer a capacidade de pensar e resolver problemas. É um modo de oferecer mais interatividade.

As escolas no futuro irão incluir os livros digitais no processo educacional ou deverão optar por outras plataformas, como jogos eletrônicos?

Os livros digitais devem ser utilizados para expandir conhecimento e não para recortar saberes, como nos livros didáticos tradicionais. Os chamados “conteúdos” escolares já estão nos sites de busca. A escola não é mais a grande provedora da informação para as novas gerações. O mundo dos nativos digitais é nos suportes digitais, eles não conheceram uma vida sem eles. Portanto, não há opção entre livros, jogos e outras plataformas. Tudo serve para apoiar a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças e jovens. Na escola eles precisam aprender a resolver problemas reais e a viver num mundo em transformação. Precisam ler livros e saber buscar informações em todas as fontes.

Perfil

Patrícia Konder Lins e Silva nasceu em 1945, no Rio de Janeiro. Aos 15 anos de idade já frequentava o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), órgão autônomo destinado ao ensino e divulgação de Ciências Sociais, posteriormente fechado pela Ditadura Militar (1964 – 1985). Passou por vários cursos universitários, entre Letras, Biologia e Sociologia. No final da década de 80, se associou a Mary Ferraz Soares Lopes e Rita Barbosa Coutinho, fundadoras da Escola Parque, e atualmente é diretora do estabelecimento. Patrícia é orientadora pedagógica, especializada em epistemologia genética.
Lúcia Santaella / 4º Congresso CBL do Livro Digital |

A grande aposta em torno das possibilidades do livro digital reside no seu potencial interativo e dinâmico. Teoremas físicos e matemáticos poderiam ser melhor explicados quando um estudante desliza o dedo por cima da tela e aciona uma força que vai fazer com que a polia gire e puxe um objeto que exerce força em sentido contrário, por exemplo; tudo com os valores exibidos e calculados em tempo real. Parece bem mais interessante do que uma figura completamente desvinculada do cotidiano repleta de setas e formas impressa sobre uma superfície imutável.
Essa capacidade de incluir elementos interativos nos eBooks é chamada de gamificação, um neologismo que está se tornando cada vez mais conhecido no vocabulário editorial. “Com o advento dos tablets, os livros didáticos serão os primeiros a desaparecer. Isso porque o conteúdo didático, com seus exemplos, ilustrações e transposições adequa-se muito bem aos formatos digitais”, explica Lúcia Santaella, fundadora do Grupo de Pesquisa em Games e Semiótica da PUC/SP.


A acadêmica – que também é autora de dezenas de livros – acredita que vai haver uma mistura de tecnologias, tanto as mais recentes quanto as que já estão em uso há alguns séculos. E as redes digitais, que estão no centro dessa transformação, já mudaram o padrão de comportamentos e práticas de leitura das pessoas que delas participam. “Certamente esse universo está gerando um novo tipo de leitor que chamo de imersivo e, agora, com os equipamentos móveis, esse leitor passou a ser ubíquo, leitor de prontidão em qualquer lugar e a qualquer hora”. Confira abaixo a entrevista completa.

O livro impresso é uma síntese da reprodutibilidade técnica da indústria cultural: produzido em massa para uma larga audiência. Já o livro digital nasce em meio a uma cultura de consumidores conectados, conscientes, plurais e críticos. Na tua visão, o mercado editorial necessita de uma reconfiguração dos seus mecanismos de produção para atender a essa nova geração de leitores?

Dizer, em um país como o Brasil, que o livro impresso é produzido para uma larga audiência é não perceber a diferença entre o potencial do livro impresso para ser, de fato, dirigido a uma larga audiência e as condições de leitura do brasileiro. Vivemos em um país que, comprovadamente, não lê. Hábitos de leitura não foram adquiridos e cultivados. A cultura do livro não chegou a se sedimentar no Brasil com a força que teve na Europa, por exemplo. Essa condição de carência foi atropelada pela emergência da cultura digital que, tal como anteriormente à cultura de massas, em especial a televisão, está tendo penetração intensa.

Além disso, que os novos consumidores, ou melhor, prossumidores, estejam conectados, não há dúvida, mas que sejam necessariamente críticos, tenho as minhas dúvidas. Basta ver quanta bobagem rola pela internet. Esta é uma terra de todos e de ninguém. Há nela tanto conteúdos preciosos quanto o lixo mais descartável. Mas quando falamos das redes digitais do que é que estamos falando? Trata-se de um mundo extremamente complexo, com uma diversidade de faces, por exemplo: as redes sociais, os blogs, as wikipedias, os serviços de busca que nos levam a quaisquer informações que buscamos.

Certamente esse universo está gerando um novo tipo de leitor que chamo de imersivo e, agora, com os equipamentos móveis, esse leitor passou a ser ubíquo, leitor de prontidão em qualquer lugar e a qualquer hora. Entretanto, quando comparamos essa nova situação com o livro impresso, nesse âmbito, temos que nos deter nas transformações pelas quais o próprio livro, antes impresso ou ainda impresso, vem passando quando transposto para o digital. Há vários formatos de livros digitais, desde a simples transposição do impresso ao digital, até os livros que exploram todo o potencial para a hipermídia, mistura de linguagens, que o digital possibilita. Creio que o mercado editorial está alerta a essa fase de transição que estamos atravessando, em que o livro impresso ainda continua vivo e vem se complementando com suas variadas formas digitais. Vivemos um momento em que, em todas as áreas de comunicação, devem ser encontradas estratégias para conviver com essa fase de transição entre o impresso e o digital.

No paradigma predominante até o século passado, o livro era uma espécie de contêiner de informação e conhecimento. Mas atualmente encontramos tudo o que precisamos durante alguns minutos de navegação; as pessoas estão mais autodidatas do que nunca. Qual o impacto dessa mudança no ensino e aprendizagem mediados pelo livro?

Sim, o livro era um contêiner de informação e conhecimento, mas nem por isso, menos imprescindível. Tão imprescindível que seria impossível especializar-se em um assunto sem a continuidade e crescimento da complexidade da informação que o livro possibilita tão logo ele encontre um leitor concentrado. Sim, encontramos tudo que precisamos nas redes, mas desprovido de sistematização. Navegar pelas redes enseja outra forma de conhecimento. Ou a rede é meramente informativa para assuntos imediatos ou, então, a informação fragmentada que ela nos fornece apenas ajuda a incrementar informações que obtemos em livros. Por isso mesmo, tanto quanto posso ver, o livro é eterno, especialmente para a informação especializada. Entretanto, quando falamos em livro, não devemos considerar que livro é necessariamente impresso. Livros digitais continuam a ser livros e a cumprir funções que o livro sempre desempenhou. Em suma: livro é um modo de configuração da informação, esteja ele no impresso ou no digital.

A relação entre autor e leitor sofreu profundas alterações com o advento do livro digital. Hoje é possível um diálogo direto entre os dois, não apenas por conta do selfpublishing, mas também pelos laços criados nas redes sociais. O que essa relação direta representa para a indústria editorial? Isso pode minar a importância das editoras, agentes e livrarias?

As relações mudaram, mas nem por isso, autor continua sendo autor e leitor continua sendo leitor, com a diferença de que agora essas posições são comutáveis. O leitor pode interferir, comentar sobre a informação que recebe e tem meios de se transformar em autor ele mesmo, pois há plataformas que facilitam isso. Os laços criados nas redes sociais são voláteis, pássaros voadores e migrantes. Quanto às informações que as redes trazem, elas variam entre trivialidades do cotidiano, quando as redes funcionam mais como fluxos de trânsito da afetividade, ou elas fornecem links de informação. Longe de minar a importância das editoras, agentes e livrarias, esses links ou mesmo simples posts de compartilhamento podem estar incrementando a tarefa do editor e do livreiro, ao divulgarem obras gratuitamente. Veja-se, além disso, o que as editoras ganharam com sites especializados e com sites de vendas, de livros impressos.

Mudando um pouco de assunto, você também se dedica ao estudo de jogos eletrônicos, um mercado que avança a passos largos sobretudo devido ao aumento nas vendas de smartphones e tablets. O livro digital pode perder importância devido à maior qualidade técnica e narrativa dos games, e seu poder de transmitir símbolos e construir linguagens?

Quando falamos de livro digital, não podemos limitar esse livro à mera transposição do livro impresso para o digital. Embora essa forma de livro seja perfeitamente válida, há formas de livros digitais mais incrementadas, mais hipermidiáticas. Imagine estar lendo um livro de física e ter, no próprio livro, o acesso a uma demonstração de um experimento. Isso enriquece sobremaneira e torna vivas as velhas ilustrações dos livros impressos. Pode haver livros digitais em formato de games. É o que está sendo chamado e gamificação, a estrutura do game e suas propriedades não necessariamente em um game. Não podemos mais pensar as coisas em gavetas; livros impressos em uma gaveta, livro digital em outra, games em outra. Com a cultura digital tudo se tornou líquido, as mídias e as informações que elas transmitem interpenetram-se, complementam-se.

A interatividade tem um grande poder de provocar o aprendizado, o que representa outra vantagem para os games. As instituições de ensino deverão passar a adotar gradativamente o uso de jogos de maneira educativa e lúdica?

As pessoas que estão preocupadas com a educação na era digital estão introduzindo a função lúdica dos games no aprendizado. Com o advento dos tablets, os livros didáticos serão os primeiros a desaparecer. Isso porque o conteúdo didático, com seus exemplos, ilustrações e transposições adequa-se muito bem aos formatos digitais. Para disciplinas que trabalham com resolução de problemas, não há nada mais apropriado do que adaptar o material pedagógico para um game.

Perfil
Lúcia Santaella ocupa um papel de destaque na pesquisa em Semiótica no Brasil. Doutora em Teoria Literária pela PUC/SP, ela já publicou aproximadamente 40 títulos, muitos dos quais são apontados como obras de referência em diversas áreas do conhecimento. Também se dedica à pesquisa e extensão em tecnologia como fundadora do CS Games, grupo de pesquisa dedicado ao estudo de Games e Semiótica da mesma universidade. Leciona diversas disciplinas na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP/FGV).
imagem: divulgação/4º Congresso CBL |

Toni Brandão é experiente em experiências. Autor de livros voltados para o público juvenil, começou a criar livros interativos para computador em meados da década de 90, quando o Google era uma empresa de garagem, a Amazon vendia seus primeiros livros e a Apple estava caminhando para a falência. Pródigo em novas ideias para seus livros, Toni vive de buscar novas soluções que apliquem a tecnologia de maneira que torne a leitura uma atividade agradável, prazerosa, inclusiva e prática – como toda literatura deve ser.
Em um bate-papo pela internet, ele aponta que os eBooks lineares, sobretudo em formato PDF, que exploram pouco os recursos tecnológicos à disposição, não são ideais para que os jovens desenvolvam boas práticas de leitura. Mas esse ainda é o mercado que tenta gerar lucro para as editoras. “Acho que isso aí é uma coisa de mercado. É mais barato para as editoras fazerem assim. Esses projetos audaciosos são mais caros para uma editora formal”, explica.

Em 2013, em parceria com a Fundação Telefónica, Toni ajudou a recriar três livros da literatura brasileira clássica – Dom Casmurro, Memórias de um Sargento de Milícias e O Cortiço – em formato de eBook/videogame. Na entrevista abaixo ele explica como funciona esse tipo de leitura, e porque os autores e pequenos editores devem começar a apostar em formatos de leitura cada vez mais ousados.

"Acho bobagem essa coisa de uma mídia mata a outra. Mas nunca houve uma mídia tão generosa com o entretenimento como as tecnologias digitais, que misturam tudo."

Conheça os livros
de Toni Brandão

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Qual a sua relação com o universo dos eBooks?

Como autor eu sou multimídia, sempre transitei por outras mídias. Há uns quinze anos atrás, eu fiz com a Editora Melhoramentos um CD-ROM de um livro meu que é exatamente um eBook, só que era em um CD. Eram três versões do livro, em inglês, português e espanhol. O leitor clicava a partir do conteúdo do livro para verbetes, hipertextos, e ia para uma área onde jogava. Isso foi um pouco depois de eu ter ido pra Frankfurt, da primeira vez que o Brasil foi homenageado. E eu tava vendo que tinha um pé na tecnologia, ainda mais nesse formato CD-ROM. Ninguém sabia muito bem onde isso ia dar, a internet era muito incipiente ainda. Na mesma época, um pouquinho depois, eu fiz para o Canal Zas (atual Terra), duas webséries, que eram os prenúncios dos apps. Uma delas (Crimes no Parque) era um livro de 20 capítulos que os leitores iam recebendo de uma maneira seriada – semelhante aos romances escritos no século 19 – e era um novo tipo de linguagem, de estrutura. Era para desvendar um crime, e também tinha uma maneira linear de acompanhar a história pelo "jornal" local. A partir daí tinha a área da polícia, algumas conversas telefônicas, um pouco de uma revista de fofoca, e o leitor tinha que desvendar um crime que era a morte de uma atleta no Parque do Ibirapuera. Isso foi em 1997. A outra novela que eu fiz para o Zas era mais audaciosa ainda, porque a gente usou tecnologia flash. Ela era menos interativa, mas era como se fosse uma HQ em animação em flash, e era super bacana.

Eu sempre fui um pesquisador das linguagens, e eu acho que de lá pra cá, sinceramente, a gente andou muito pouco no sentido de experimentação. Acho que o mais interessante não é fazer um PDF do livro, isso não tem nada a ver com o livro eletrônico porque não explora a linguagem digital, as possibilidades narrativas que esse tipo de linguagem oferece, que são basicamente duas: a não-linearidade da história e a interação do leitor com a história. Ele pode movimentar a história como se ele fosse um jogador. Acho que e eBook é um híbrido entre o videogame e o app. É nisso que eu aposto.

Recentemente eu fiz um projeto para a Fundação Telefónica que é a adaptação de Dom Casmurro, do Memórias de um Sargento de Milícias e d’O Cortiço. O leitor entra na história de Dom Casmurro, vasculha a casa, o quarto da Capitu, vai para o cemitério, vê as memórias de Bentinho. É um mergulho no universo de Machado de Assis, de uma maneira mais sensorial. Se o leitor não estiver satisfeito, pode ir ao escritório de Machado de Assis onde está disponível a contextualização da época, os outros textos mais "pop" de Machado. Além disso, há a obra integral, que é o tal do PDF, para ler o livro linearmente. Isso é uma coisa bacana para o nosso trabalho de contadores de histórias.

"Felizmente, matar o prazer da leitura enquanto você faz o ensino médio é algo que vai diminuir um pouco."

Você acha que vai existir uma convergência de livros eletrônicos para jogos digitais?

Para mim, a melhor maneira de ler um livro ainda é com o livro físico. Não tem aquela luz ofuscante da tela de leitura, o que incomoda muito, já que eu passo muitas horas lendo e trabalho em frente ao computador. Acredito que o livro em papel vai continuar existindo, bem como vai continuar existindo o rádio e a televisão. Acho bobagem essa coisa de uma mídia mata a outra. Mas nunca houve uma mídia tão generosa com o entretenimento como as tecnologias digitais, que misturam tudo. Eu posso até fazer uma peça ao vivo, com atores em Curitiba e outros na Espanha, ao mesmo tempo você pode interagir e acompanhar. Dá para contar histórias de mil maneiras. Acho que essa convergência é legal, favorável, e forma um tipo construído de leitor, o que é bacana. O leitor vai ler sem perceber que está lendo. A literatura formal engessa o leitor.

Na tua opinião, os jovens estão adotando mais o comportamento de ler em formatos digitais do que livros físicos?

Como autor de livros para jovens, há uma coisa que me incomoda. Vamos ilustrar um exemplo: primeiro o garoto ouve histórias, depois começa a ler histórias e a gostar cada vez mais de textos, tudo por prazer, onde ele se contextualiza, se reconhece, onde as angústias dele estão postas ali, tudo funcionando direitinho. Então o jovem chega à escola e escuta o seguinte: "esqueça tudo o que você aprendeu sobre o prazer de leitura. Você vai ter que ler 20, 30 clássicos que não têm nada a ver com a sua linguagem, não tem nada a ver com a sua maneira de olhar pro mundo, você não está presente nesse lugar”. Felizmente, matar o prazer da leitura enquanto você faz o ensino médio é algo que vai diminuir um pouco. Primeiro porque ler no computador já é mais agradável, inclusive com versões em quadrinhos. Se livros eletrônicos como as minhas versões de Dom Casmurro e O Cortiço estiverem disponíveis, acho que podem mexer bem com a vontade de ler do jovem.

"Cada vez mais eu percebo que as editoras estão mais interessadas em ousar, em criar, em fazer entretenimento sem deixar de fazer reflexão."

É verdade, mas o grosso do mercado de livros digitais é composto por ebooks lineares, mesmo em ePub. Isso vai mudar em um horizonte de tempo?

Acho que isso aí é uma coisa de mercado. É mais barato para as editoras fazerem assim. Esses projetos audaciosos são mais caros para uma editora formal. Tem que investir muito dinheiro para criar um livro que não é PDF, digamos assim. Paga a conta ou não paga a conta? Gastar R$ 40 ou R$ 50 mil, por baixo, com um livro digital bacana, vai dar quanto de retorno? As editoras num primeiro momento não conseguem fechar essa conta. Ou vai ter que ser feito em parceria, como foi o meu caso com a Fundação Telefónica, ou vai ter que ser uma iniciativa dos autores. Por exemplo, você é um escritor, teu amigo é um músico, tua namorada é programadora de computação e webdesigner. Vocês se juntam, criam uma plataforma de conteúdo, vendem o acesso a esse lugar por US$ 1 em vez de vender o livro a US$ 10. Isso pode atrair uma grande quantidade de leitores. O investidor, o criador individual pode ter o luxo dessa ousadia. Uma editora que vive de grandes vendas tem mais dificuldades em apostar todas as fichas nesse mercado. Isso vai ter que se mexer de alguma maneira.

Acredito que é preciso procurar maneiras de transformar o negócio. Eu já achei algumas, uma delas é essa que eu já falei: estou fazendo alguns projetos patrocinados pelas redes de incentivo, por fundações de estímulo à leitura. Outro exemplo é um livro que criei com a Editora Planeta, que é o DJ. Eles estão licenciando a marca para uma empresa que cria jogos de videogames para que eles desenvolvam também a versão eletrônica. Existe a versão em papel, com uma parte da história em quadrinhos, uma parte da história em texto linear, e uma outra empresa, que não é uma editora, vai fazer o jogo eletrônico, vai vender o jogo eletrônico e vai criar uma versão digital do livro. É outra maneira que eu encontrei.

Então nós estamos precisando de tentativas mais ousadas nesse sentido, tanto de autores quanto de pequenos editores?

É, eu acho que sim. As pessoas têm que ter tempo, vontade e um pouco de competência para fazer a coisa andar. É necessário saber usar e aplicar a tecnologia. Eu mesmo não entendo nada de tecnologia, só tenho competência para saber mais ou menos o que eu quero que aconteça, então eu preciso de um programador de computador. Esse cara, que é competente, se formou para isso vai me enquadrar e falar: “olha, isso aqui você não pode fazer. O que você quer fazer custa R$ 1 milhão, o que você pode fazer custa R$ 10 mil”. E eu vou pelos 10 mil, se puder pagar. Cada vez mais eu percebo que as editoras estão mais interessadas em ousar, em criar, em fazer entretenimento sem deixar de fazer reflexão. Então é só achar o jeito.

Você pensou em trabalhar com a Amazon ou com a Apple?

Já, eu acho super bacana. Na verdade o que eu não tive ainda foi tempo para criar um projeto que eu não comprometesse com uma editora. Eu já estou com compromissos assumidos com as editoras de um ano, dois anos pra frente. Eu gostaria muito de fazer um livro que começasse como um jogo e depois virasse um conteúdo não-linear e fosse comercializado; isso que eu estou fazendo com o DJ mas pelo contrário. Faço o jogo, depois vou vendendo conteúdo com as histórias e personagens. Isso é legal. Também tem a possibilidade de lançar em chinês ou em inglês. Existem várias possibilidades.



Perfil
Toni Brandão é escritor multimídia com mais de 20 livros publicados ao longo de sua carreira, que venderam mais de 2 milhões de cópias. Seus projetos transitam entre TV, internet, livros impressos, teatro e CR-ROM. Além de ter conquistado alguns importantes prêmios literários, fez adaptações de suas próprias obras para o teatro e para a Rede Globo: a série Irmãos em ação é uma adaptação do livro Foi ela que começou, foi ele que começou. Também trabalhou na adaptação da série Sítio do pica-pau amarelo e As aventuras de Zeca e Juca.
imagem: divulgação/4º Congresso CBL |

O pesquisador e professor Sílvio Meira assumiu para si o papel de arauto das más notícias, logo na abertura do 4º Congresso Internacional do Livro Digital. De bibliotecários a livreiros, muitos profissionais saíram do auditório se sentindo um pouco mais desempregados, porém alertas para uma realidade que já está desenhada e pronta para acontecer: a transformação completa da indústria editorial.
“Se você olhar a transição de mosteiros e monges copistas para Gutenberg, quantos mosteiros se tornaram casas impressoras, gráficas, editoras ou livrarias? Nenhum”, diz. Meira recorda que em uma janela de 50 anos, a invenção de Gutenberg mudou completamente o que se conhecia por produção de livros desde o final da antiguidade. E isso vai se repetir em nossa era.

“Essa transição que a gente está vendo agora está em andamento. Se for medir, desde o lançamento do Mosaic, que é o primeiro browser competente da internet, em 93, nós já temos 20 anos. Eu não tenho a menor dúvida de que dentro dos próximos 30 anos, completando o mesmo ciclo de 50 anos, a gente vai ter resolvido esse problema”.

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Problema? Sim, o fato de a atual indústria editorial gerar lucro e meios de sobrevivência para uma parcela mínima de seus participantes, para Sílvio, é um problema que vai ser superado. “As transições não têm respeito nenhum pelo passado. Mas não têm mesmo!”. No entanto, ele aponta uma saída, um novo papel para o editor. Leia a entrevista abaixo com a mente aberta.

Queria começar com um assunto interessante que você falou no final da palestra, de que os próximos passos do mercado vão ser definidos por tentativas, erros e aprendizado. A indústria editorial é bem tradicional, está assentada sobre padrões sólidos desde o século 19, e agora recebe esse impacto. Como as editoras irão lidar com isso?

Uma parte significativa dessa indústria vai deixar de existir, para começar. Se você olhar a transição de mosteiros e monges copistas para Gutenberg, quantos mosteiros se tornaram casas impressoras, gráficas, editoras ou livrarias? Nenhum. Eles simplesmente ficaram lá achando que esse negócio não ia rolar, e tudo aconteceu em 50 anos. Se você olhar a história da transição do monge copista para a prensa de Gutenberg, em 50 anos você fechou todos os mosteiros copistas da Europa, exceto aqueles que tinham altíssimas especialidades de ilustração. Fechou todos em 50 anos. Essa transição que a gente tá vendo agora, ela já está em andamento. Se formos medir, desde o lançamento do Mosaic, que é o primeiro browser competente da internet, em 93, nós já temos 20 anos. Eu não tenho a menor dúvida de que dentro dos próximos 30 anos, completando o mesmo ciclo de 50 anos, a gente vai ter resolvido esse problema. Aí você diz: "ah, mas o cara é editor, ele tem publicações e livrarias que vendem milhões de livros...". Certo, mas acontece o seguinte: vamos pegar um outro cenário. As pessoas dizem: "esse negócio de redes sociais, isso é um absurdo...". Daqui a 30 anos, o presidente da República do Brasil vai ser um cara que quando era adolescente tinha uma conta no Facebook. Jogava todo dia. Provavelmente vai continuar jogando, esperando que alguma reunião termine enquanto fica jogando o Angry Birds do futuro, ou então um retrô. As coisas mudam. Em 1450, existiam famílias lutando para colocar seus filhos para serem monges copistas em mosteiros europeus porque era uma profissão segura, bem remunerada e era para a vida toda.

Hoje, literalmente, se eu quiser criar um negócio ao redor do meu livro, criar um PDF e colocar para vender, a renda que eu vou ter é a mesma ou maior do que se eu colocasse um mecanismo de distribuição para fazer isso. Sabe por quê? Porque estruturalmente ninguém ganha dinheiro com livro. Conjunturalmente alguns poucos caras ganham dinheiro com livro. Paulo Coelho ganha dinheiro com livro. A imensa maioria das pessoas não ganha dinheiro com livro. Se você fizer um levantamento da indústria literária brasileira ou de qualquer país do mundo e for ver como as pessoas que escrevem livro ganham dinheiro, tirando uma certa nata do leite, todo mundo ganha a vida em um outro trampo. Então tem alguma coisa errada aí. Desde o começo, mesmo na indústria de Gutenberg, tem algo errado. Se não tivesse, Carlos Drummond de Andrade não teria sido funcionário público, nem Machado de Assis, nem José de Alencar.

Então estruturalmente, o autor, que é um cara que foi criado -- se tem uma coisa que a plataforma de Gutenberg cria é o autor -- não ganha dinheiro escrevendo livro. Ele é aquele cara romântico, que escreve o que quer, porque tem alguma coisa a dizer para o mundo. Mas e se você disser para o mundo a partir do seu Facebook? Se a sua página no Facebook tiver 100 mil pessoas? Se a minha página no Facebook tiver 100 mil pessoas que queiram ouvir certas coisas, eu escreveria, depois imprimiria para quem quisesse comprar como lembrança.

As transições não têm respeito nenhum pelo passado. Mas não têm mesmo! A Seleção Brasileira não teve o direito de ganhar a Copa da Inglaterra (1966) porque tinha ganho as outras Copas. Ganhamos em 58, 62 e a gente tinha certeza absoluta que iria ganhar a Copa da Inglaterra. Foi o maior desastre futebolístico da história do Brasil. Por que isso? O futebol tinha mudado. As pessoas não eram mais as mesmas, mudou tudo, mudou o game. O que estamos vendo agora é uma mudança do jogo. Imagine esses livros-apps, literatura como aplicações e serviços. Cultura de entretenimento "de fundo literário" como processo interativo conectado. Se esse negócio começa a pegar, o livro pode sair dali. Eu não estou dizendo que necessariamente sairá dali. E o pessoal que está fazendo as regras lá não está perguntando o que a indústria literária está achando.

Estamos vendo uma onda muito forte hoje que é a do selfpublishing. Mas embora um autor adote o selfpublishing, cada um deles se torna um pequeno editor. E muitos autores simplesmente não gostam...

Vai acontecer um processo de reintermediação, como já aconteceu várias vezes na indústria da música. Alguém, numa nova forma, numa nova arquitetura de valor diz: "olha, eu sou o editor do seu negócio, eu vou formatar, eu vou colocar no ar, eu vou promover, eu vou articular, mas eu vou ter também outra renda associada a isso. Não é o mesmo domínio que você tinha sobre o autor como antigamente, os autores viviam num domínio de escassez, com pouco papel, pouca tinta, pouca impressora, pouco espaço na estante... A estante da Amazon ou de outro publicador digital qualquer, é infinita. O meu problema agora é outro: como é que eu sou achado, como é que alguém vai comprar alguma coisa minha lá? Como é que alguém chega a mim? E o editor vai fazer esse trabalho? Se ele for fazer esse trabalho, ele é muito benvindo. Mas se ele for só dizer: "ah, eu acho que você só deveria escrever parágrafos ‘não sei o que lá’ porque a nova novela...", eu caguei (sic). Eu é quem vou definir o que é e vou escrever do jeito que eu quiser. O lance do selfpublishing não é você dominar a inteireza da cadeia de valor para que a ideia saia da sua cabeça e você saia promovendo o livro digital do outro lado. É muito mais sobre você dizer: "o conteúdo é meu, porque eu posso refazê-lo a qualquer momento".

Mas toda essa arquitetura nova que você acredita que um dia vai existir, tudo isso esbarra no copyright...

Ou não. Por exemplo, eu acho que os autores não ganham dinheiro com livro. Os autores ganham dinheiro na periferia do livro. Eu não ganho dinheiro com meu blog. Ninguém pagaria para ler meu blog. Mas eventualmente eu ganho dinheiro porque as pessoas me chamam para discutir isso. Isso acontece com quase todos os autores. Eles não ganham dinheiro com o que escrevem, é mais uma atitude de colaboração com o pensamento geral da humanidade, ou como a expectativa de cada um de ser reconhecido como parte dele. Os poucos que ganham, ganham fortunas e passam a depender da literatura. E o fato do digital ter aparecido não tem mudado esse negócio não.

Como assim?

A literatura como a gente conhece vai ser modificada radicalmente pela pirataria, mas numa escala em que ao mesmo tempo parece e não parece com o mercado da música. Porque música todo mundo ouve. Menos de 10% dos norte-americanos leem um livro depois de sair da universidade, isso nos Estados Unidos. Qual o percentual da população brasileira que leu algum livro depois de sair da universidade? Qual o percentual da população brasileira que leu algum livro? Não existe uma demanda infinita para as pessoas piratearem livros, porque livro é um negócio que dá trabalho para ler.

Se eu vou piratear Ulysses ou Dom Casmurro, eu vou gastar um tempão para ler esse negócio. Se a gente tivesse um problema de pirataria de literatura no Brasil, a gente deveria dar graças a Deus. Acho que eu vou escrever um texto sobre esse negócio. Se a gente tivesse pirataria de literatura, a gente deveria sair comemorando, soltando fogos, já imaginou o que significaria? Já imaginou o significado de pirataria literária? As pessoas fazendo o download de todas as obras de Érico Veríssimo, por exemplo. Aliás, uma parte da obra de Érico Veríssimo já deve estar em domínio público, como Machado de Assis, José de Alencar, e eu não vejo as pessoas fazendo esses downloads desesperados, e de repente a Câmara Brasileira do Livro sair correndo atrás de gente que está pirateando livro.

Esse negócio eu simplesmente não vejo acontecer, mas eu gostaria muito que acontecesse. logo depois que eu publicar, se eu descobrir que tem gente escaneando meu livro e tem 100 cópias piratas dele na rede, eu estaria muito bem. Eu tenho certeza absoluta que eu não vou ganhar dinheiro com esse livro que eu escrevi. Me deu um trabalho infernal, só a versão em papel me custou 1000 horas de trabalho contadas, ou 100 dias trabalhando 10 horas por dia. Abandonei todo o resto da minha vida, pedi uma licença na universidade para fazer isso, e antes disso publiquei 27 capítulos no meu blog que deve ter consumido mais ou menos 20 horas por capítulo. Então tem aí 1500 horas de trabalho. O retorno financeiro do livro jamais vai remunerar 1500 horas de trabalho. Se eu tivesse olhado para o custo de oportunidade, teria investido em outra coisa. Mas se eu tiver 100 links diferentes apontando para uma cópia pirata do meu livro, ele é um sucesso, e eu estarei gratificado por isso ter acontecido.



Perfil
Sílvio Meira é professor do Centro de Informática da UFPE e ex-cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.). Sua formação inclui graduação em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e um doutorado em Computação pela Universidade de Kent, Canterbury. Já trabalhou como assessor da secretaria de política de informática do Ministério da Ciência e Tecnologia; foi membro do primeiro Comitê Gestor da Internet (CGI.br) e presidente da Sociedade Brasileira de Computação. Trabalhou também como consultor do Banco Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Enviado especial pelo Revolução Ebook