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O Brasil é um país democrático. Isso significa que, independente da conjuntura, existem instituições, leis e uma Carta Magna que garantem a todos o direito da liberdade de expressão, o que não significa liberdade para fazer discurso de ódio. Alguns acham que isso diferencia esquerda e direita, que um lado existe para doutrinar o outro e que o Governo quer criar uma geração de vermelhos e outras sandices e factoides que vão se somando à algaravia virtual, tornando a internet um lugar detestável.

Mas há uma medida simples para não ser doutrinado. Aliás, há cinco. Se você praticá-las, não vai se tornar um bolchevique tupiniquim nem um bolsonarete viúva-da-ditadura pela vontade alheia, mas um ser evoluído, independente e civilizado, que sabe conviver com quem pensa diferente. De quebra, sua mente vai ser expandida, lapidada e polida. Novos caminhos se abrirão e até o contracheque pode receber aquele providencial incremento.

Mas só se você seguir à risca as medidas abaixo listadas.

1. Leia obras de referência sobre vários assuntos

Não fique só nos textões e tirinhas de Facebook. Eles querem te doutrinar. Tampouco saia catando informações pelo Google, porque elas vêm fragmentadas e apresentadas de maneira que só repetem a visão de mundo a que você está acostumado. Se você quer ser livre e não doutrinado, precisa cavar fundo, investigar livros de várias épocas e que têm ou tiveram impacto. Por exemplo, antes de sair repetindo por aí que você é um liberal que nega o racismo e a violência contra a mulher, vá ler Stuart Mill e seu notável A sujeição das mulheres; aproveite e leia A Política, de Aristóteles, os contratualistas, iluministas e os pensadores modernos. Mas não leia como quem come um prato de feijão; leia como uma criança que separa as verduras no cantinho do prato. E, sobretudo, leia como quem debate racionalmente com o autor – o que implica em conhecer as premissas e argumentos.

2. Leia livros de vários gêneros

As guerras, bem como os atos e motivos que levaram à sua eclosão, são bem descritos em livros como Uma breve história do século XX, de Geoffrey Blainey, ou Era dos extremos, de Eric Hobsbawm. Mas nenhuma obra historiográfica é tão pungente ao relatar o sofrimento provocado pela guerra quanto Ana-Não, de Agustín Gómez-Arcos, ou relatar o que se passa por trás das trincheiras como Contos de Sebastopol, de Tolstói. Romances e contos têm essa qualidade de convencer provocando emoções, colocando o leitor numa perspectiva diferente. Bola de Sebo, de Guy de Maupassant, é um relato fiel e incontestável da hipocrisia social.

3. Leia livros que confrontem seu preconceito

O problema das redes sociais é que elas só nos mostram o que queremos ver. E isso é prejudicial ao processo dialético (lembrem-se: antes de Marx, Aristóteles e Hegel já utilizavam o termo). A tendência é que o indivíduo fique preso em um viés de confirmação eterno, como um loop infinito, ou um computador travado na tela azul – e o pior, sem compreender a extensão da própria ignorância. Não permita que a netflixização das coisas escolha o que você deve ou não ler. Leitura é diálogo e debate, e o fruto dela é o aumento da sua capacidade cognitiva (vulgo inteligência). Outro benefício da leitura crítica é a aniquilação da narrativa primitiva de que nós precisamos ser salvos por heróis para não sermos devorados por vilões. Concordar ou discordar implica em conhecer e entender.

4. Leia livros bem selecionados

Como escolher os livros a serem lidos? Dificilmente chegamos a um deles aleatoriamente – já aconteceu comigo. Mas, normalmente, seguimos pistas e indicações: bibliografias, sugestões de amigos ou deste blog que vos fala. Os melhores livros são aqueles que resistiram ao tempo, frequentemente chamados de clássicos. Há também clássicos recentes, publicados na segunda metade do século passado – como O livro no Brasil, de Laurence Hallewell, e O que é Política, coleção primorosa de ensaios escritos por Hannah Arendt. Os melhores livros modernos costumam ter ampla exposição na mídia e disponibilidade nas estantes. Mas esse é o menos importante dos critérios. Antes de selecionar um livro para ler, faça uma leitura rápida dos elementos pré-textuais e de alguns capítulos. Daí você saberá como situá-lo no seu plano de leitura e evitará perder tempo.

5. Leia para se tornar uma pessoa melhor

Não terceirize seu direito/dever de pensar. Quando começar a ler um livro, esqueça o que você leu na página do Movimento Endireita Brasil ou Quebrando o Tabu. Construa um repertório sólido baseado na identificação dos argumentos e posterior refutação ou aceitação. Leia para saber se colocar na perspectiva de outra pessoa e entender seus amores, sofrimentos e tragédias. Leia consciente de que livros não são entidades sagradas e invioláveis, mas que em cada livro há algo para ser aproveitado – aquela verdurinha no canto do prato. É claro que a prática da leitura, por si só, não vai fazer de você uma pessoa melhor, mas vai te libertar das amarras da opinião alheia sobre tudo. E aí você pode escolher. Apenas não seja o ignorante que bate no peito estufado, orgulhoso de sua triste condição.

Na postagem anterior, onde foi exposto o método geral para leitura e os quatro níveis de leitura segundo Mortimer Adler, pôde-se destacar que a leitura pode ser elementar, inspecional, analítica e sintópica. Nesse post, a intenção é pormenorizar a leitura analítica – considerada a melhor leitura possível de um único livro – e as 15 regras para o melhor aproveitamento do livro.

Quando se fala em regras, há uma tendência a menosprezar o assunto, sobretudo quando se trata de regras para leitura. De fato, ler um livro e se relacionar com ele pode ser algo bem pessoal; um mesmo livro pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Livros também são distintos entre si, tanto quanto pessoas são distintas entre si, já que livros não chegam a nós por mãos divinas, mas pelo talento de seres humanos. As regras, no entanto, são úteis para uma abordagem crítica e, apesar da quantidade de itens propostos, são genéricas. É possível aplicá-las a um livro prático, filosófico ou de ficção, adaptando-as se necessário.

Para recapitular, a leitura analítica é o terceiro nível de leitura conforme a tipologia de Mortimer Adler, e consiste em uma leitura compassada, lenta se necessário, mas que tem por objetivo a absorção total do conteúdo – ou seja, das proposições e argumentos. Ao final, podemos emitir um juízo sobre o que foi lido ou suspender o julgamento, caso o livro não leve a uma conclusão ou informações novas sejam necessárias. Livro e leitor debatem, mas apenas este último é modificado após a leitura.

Livros de ficção também apresentam proposições e argumentos, porém não de uma maneira clara. Os autores desses livros em geral preferem trabalhar sentimentos e emoções ao invés de demonstrar fatos e ideias racionais. Cabe ao leitor se deixar levar pela narrativa, porém entender qual a pretensão do autor e onde ele quer chegar, e para isso as guias gerais também podem ser úteis. Hermann Melville não vai deixar claro que Moby Dick representa uma queda-de-braço entre homem e natureza numa época de caça predatória, abuso de recursos naturais e revolução industrial. Talvez a intenção dele tenha sido apenas escrever uma história sobre um cara obcecado por uma baleia gigante. Mas o leitor tem que considerar que há um discurso por trás de cada história e descobrir do que se trata – levando em consideração um repertório prévio de conhecimentos. Os melhores livros de ficção têm argumentos fortes vestidos de belas histórias.

1 Regras para descobrir o conteúdo

1.1 Classifique o livro de acordo com o tipo e assunto;

1.2 Diga sobre o que é o livro como um todo, com a máxima brevidade possível;

1.3 Exponha as partes principais em sua devida ordem e relação;

1.4 Defina o problema (ou os problemas) que o autor buscou solucionar.

Segundo Adler, essas primeiras quatro regras auxiliam na resposta à primeira das quatro perguntas fundamentais que devem ser feitas pelo leitor ao livro: o livro, como um todo, é sobre o quê?

2 Regras para interpretar o conteúdo

2.1 Entre em acordo com o autor, interpretando as palavras-chave do livro;

2.2 Apreenda as proposições principais, estudando as frases mais importantes;

2.3 Identifique os argumentos, encontrando-os ou construindo-os com base em sequências de frases;

2.4 Determine os problemas que foram resolvidos e os que não foram resolvidos; quanto a estes últimos, verifique se o autor está ciente de que não conseguiu resolvê-los.

O segundo set de regras, por sua vez, irá guiar o leitor a responder a segunda questão fundamental: o que exatamente está sendo dito e como?

3 Regras para criticar o conteúdo

3.1 Preceitos da etiqueta intelectual

3.1.1 Não critique até que tenha completado o delineamento e a interpretação do livro. Ou seja, não diga que concorda, discorda ou que suspende o julgamento até que tenha dito "entendi";

3.1.2 Não discorde de maneira competitiva;

3.1.3 Demonstre que reconhece a diferença entre conhecimento e opinião pessoal apresentando boas razões para qualquer julgamento crítico que venha a fazer.

3.2 Critérios especiais para o exercício da crítica

3.2.1 Mostre onde o autor está desinformado;

3.2.2 Mostre onde o autor está mal informado;

3.2.3 Mostre onde o autor foi ilógico (lembre-se: premissas, conclusão e argumento);

3.2.4 Mostre onde a análise ou a explicação do autor está incompleta.

O terceiro set de regras refere-se às duas últimas perguntas fundamentais: o livro é verdadeiro? E daí? "A pergunta 'o livro é verdadeiro?' pode se prestar virtualmente a qualquer tipo de leitura (...) O melhor elogio que alguém pode fazer a qualquer obra da mente humana é afirmar que ela expressou a verdade; porém criticá-la por não ter alcançado esse objetivo é sinal de que a respeitamos e a tratamos com seriedade", defende Adler.

Se, entre os quatro últimos critérios, o leitor concordar com três primeiros – o que equivale a dizer que o autor é bem informado sobre o assunto e apresentou as ideias de forma lógica – então ele é obrigado a concordar com o livro, ou pelo menos com a maior parte. O último critério pode servir como ponto de partida para o leitor desenvolver sua própria análise – é o que se exige de estudantes universitários e pesquisadores, por exemplo. Na busca pelo conhecimento, a quarta pergunta nunca tem fim. "Se as comunicações não fossem complexas, os delineamentos estruturais seriam desnecessários. Se a linguagem fosse um meio perfeito de comunicação, interpretações seriam totalmente desnecessárias. Se o erro e a ignorância não fossem uma ameaça à verdade e ao conhecimento, não teríamos de ser críticos", explica o autor.

As regras expostas dificilmente serão acompanhadas por todos os leitores, mesmo os mais experientes – que sabem ler analiticamente por intuição. No entanto elas representam um desempenho ideal de leitura, ou seja, quanto mais o leitor se aproximar desse desempenho, melhor será a qualidade da leitura. A quantidade de livros lidos não faz a menor diferença.

Há alguns anos, quando comecei o curso de jornalismo, resolvi turbinar minha capacidade de leitura. Foi quando Machado passou a me encantar: lia tudo dele que estivesse à mão, geralmente em um ou dois dias. Tentei ler A divina comédia no mesmo ritmo e, apesar de não ter perda total, hoje preciso reler a obra de Alighieri. Depois parti para um livro de Schopenhauer. Decepção total. Nunca mais li nada dele.

O problema é que eu, como muitas pessoas, via livros como copos de água, onde o desafio era beber tudo. É melhor do que nada, confesso, aprendi muito com essa ideia na cabeça. Mas também perdi muito. O que importa não é a velocidade da leitura, mas o que o leitor retém após. Cada livro deve ser lido em um ritmo próprio. Mas como saber se determinado livro merece mais atenção do que outros? Confiar apenas nas opiniões de booktubers e resenhistas? Indo mais fundo, para que realmente serve um livro?

Mortimer Adler e Charles Van Doren propõem essas e muitas outras perguntas – com suas devidas propostas – em Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. O livro carrega o pragmatismo do movimento pró-educação norte-americano, tradição secular que se mantém por lá e começa a substituir a literatura de auto-ajuda no Brasil – pense em quantos livros e artigos na internet têm no título a fórmula "Como fazer algo".
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Adler foi um célebre teórico da educação nos Estados Unidos. Nunca chegou a completar um curso superior formal, mas soube se educar através da educação clássica, devorando desde os filósofos da antiguidade até os modernos. Pode-se dizer que era um polímata, da categoria de Confúcio e do nosso Ruy Barbosa. E a problemática que deu origem a Como ler livros é a mesma que podemos observar na nossa realidade hoje: pouca gente sabe, de fato, ler livros. Na realidade, o índice de analfabetismo funcional entre universitários é de dar desespero.


O pensamento pedagógico de Adler fundamenta-se na filosofia educacional de Platão e Aristóteles, que foi aplicada na Idade Média: o trívio e o quadrívio, que formam as sete artes liberais. São elas: gramática, lógica e retórica (trívio) e aritmética, geometria, astronomia e música (quadrívio). Seus livros mais representativos – dentre mais de 50 – são The Paideia proposal: an educational manifesto; Paideia problems and possibilities e The Paideia program, nenhum deles disponível em português.

Como ler livros, no entanto, não tem importância menor na obra de Adler. Nasceu justamente da dificuldade que ele notou em seus alunos em relação à leitura. Foi publicado pela primeira vez em 1940 e reeditado em algumas ocasiões – a edição mais recente em português conta com a colaboração de Charles Van Doren. Citando um artigo publicado no Atlantic Monthly pelo pedagogo James Murcell, Adler resume o problema:

"Será que os alunos, nas escolas, aprendem a ler bem em sua língua materna? Sim e não. Até o sexto ou sétimo anos, a leitura, como um todo, é bem ensinada e aprendida. Até esse nível verificamos um progresso geral e constante, mas além dele as curvas tornam-se retas horizontais. Isso não acontece porque o aluno chega ao limite natural de sua eficiência no sétimo ano (...) também não significa que a maior parte dos alunos do sétimo ano leia suficientemente bem para todos os fins práticos (...) Ele consegue ler uma obra simples de ficção e gostar dela. Mas coloque-o diante de uma exposição sucinta, de um argumento formulado com concisão e cuidado, ou de uma passagem que demande consideração crítica, e ele estará perdido."

Não é de surpreender, portanto, que Como ler livros tenha uma orientação pedagógica ancorada na prática. Não é um livro de linguajar complicado nem de reflexões filosóficas profundas. A maior reflexão que o leitor faz é "por que leio tão mal?".

O livro divide-se em quatro partes, 21 capítulos e dois apêndices interessantes: o primeiro é uma lista com sugestões de leitura, todos livros clássicos, que cobrem o período que se estende da antiguidade até o século 19. Como o autor é norte-americano, há maior ênfase na literatura de língua inglesa. O segundo é composto por breves exercícios de leitura, onde o leitor é desafiado a aplicar as regras práticas propostas ao longo do livro. Apesar de ser um livro exaustivo sobre o tema proposto, Como ler livros ainda é genérico. Por exemplo, há um capítulo dedicado à leitura de romances e obras "imaginativas", mas que deixa muitas brechas, como o fato de que a ficção pode transcender e escapar de seus limites para encontrar respaldo na realidade, amplitude que não é alcançada pelo termo "leitura imaginativa".

O método proposto

Para Adler, a atividade de leitura é semelhante a uma aula, mas não uma aula meramente expositiva. O dever do aluno – ou leitor – é questionar o que está sendo exposto no livro, analisar os argumentos do autor e emitir seu juízo sobre o assunto baseado também em argumentos. É uma tradição claramente baseada na lógica formal, onde um argumento é formado por premissas.

"O livro é como a natureza – ou o mundo. Quando você os questiona, eles lhe responderão na medida da sua própria capacidade de pensar e analisar", alega o autor. A leitura se torna necessária a partir de duas constatações: a primeira é a desigualdade inicial de entendimento do leitor em relação ao autor, ou ao conhecimento que ele transmite no livro. A segunda é a capacidade do leitor de superar essa desigualdade.

Para que isso aconteça, o leitor deve fazer quatro perguntas básicas durante e após a leitura. Podem parecer perguntas tolas, mas pense no último livro que você leu e tente respondê-las.

1. O livro fala sobre o quê? Com isso, procura-se desvendar o tema central do livro, seja uma obra prática, seja uma peça teatral.

2. O que exatamente está sendo dito e como? Aqui o leitor deverá divisar as ideias, afirmações e argumentos utilizados pelo autor para transmitir a sua mensagem. É útil sobretudo para livros filosóficos e clássicos.

3. O livro é verdadeiro em todo ou em parte? A partir das respostas das perguntas anteriores, o leitor deve formar um juízo a respeito do que está sendo ou foi lido.

4. E daí? A partir das questões e respostas anteriores, deve-se pesar a importância e a necessidade de pesquisar e buscar novas informações a respeito do assunto. É uma pergunta fundamental para o último nível de leitura.

Não se deve tomar isso como um questionário padrão para ser respondido ao final da leitura, mas questões mínimas a serem feitas durante a atividade. É um requisito fundamental da leitura ativa. No início é complicado e requer mais esforço do que parece, mas com a prática, desenvolve-se a habilidade para questionar de maneira natural. "Ler é pensar, e o pensamento tende a se expressar em palavras – faladas ou escritas", defende Adler.

Durante a leitura – precisamente antes da leitura do texto principal do livro – o leitor precisa firmar um acordo com o autor, aceitar seus termos, para então entender o que está sendo lido. Por termos pode-se entender palavras-chave ou conceitos-chave. Por exemplo, qual a acepção da palavra "livro" para Roger Chartier em A aventura do livro? É o mesmo conceito usado pelos autores de Impresso no Brasil, livro composto por artigos? Os autores deste último concordam entre si? O que é "o mal" na Bíblia e na famigerada série de artigos de Hannah Arendt? Até o terceiro nível de leitura – próximo tópico –, o leitor deve firmar um terreno comum com o autor ao aceitar seus termos, o que não implica ausência de questionamento.

Apenas no quarto nível – a leitura sintópica, ou de vários livros sobre o mesmo assunto – é o leitor quem vai estabelecer os termos e fazer com que os autores entrem em acordo. Isso equivale a descartar certos usos e conceitos de palavras em desacordo com a proposta do leitor, segundo critérios por ele estabelecidos.

Os níveis de leitura

Elementar – Consiste na leitura de nível mais básico ou rudimentar. É a leitura de crianças que estão tendo contato com as palavras e frases pela primeira vez, e têm como única preocupação saber o que está escrito. A ausência ou falhas na educação de base podem comprometer o desenvolvimento da leitura elementar e, consequentemente, dos demais níveis. Mas também pode ser um desafio para quem começa a ler livros em língua estrangeira.

Inspecional – Esse tipo de leitura é semelhante à feita por bibliotecários para catalogar livros; eles não leem todos os livros da biblioteca, mas fazem uma leitura técnica que lhes permite conhecer, em linhas gerais, do que se trata o livro. Normalmente é dada ênfase aos elementos pré-textuais (sumário, orelhas, contracapa, às vezes prefácio). Na leitura inspecional, o leitor vai ler alguns trechos em intervalos curtos de tempo; "o objetivo da leitura inspecional é extrair o máximo possível de um livro num determinado período – em geral, um tempo relativamente curto". É um nível importante para quem está selecionando uma bibliografia para pesquisa ou análise e precisa saber o que é relevante.

Analítica – É a melhor leitura possível de um único livro. A ideia aqui é que o leitor leve o tempo necessário para ler, sem se preocupar com a velocidade. Não é uma leitura diversional ou informativa, mas uma leitura "intensamente ativa" e sistemática. "Nesse nível, o leitor adquire o livro – a metáfora é bem apropriada – e imiscui-se nele até que o livro efetivamente lhe pertença", argumenta o autor. O propósito da leitura analítica é entender o livro em sua integridade.

Sintópica – É o nível mais exigente de leitura. Como já foi dito, nesse ponto o leitor vai firmar um acordo comum entre vários autores sobre um tema específico. É uma etapa fundamental para estudantes de nível superior, exige comparação e confronto de ideias e conceitos e, a partir disso, o leitor desenvolve uma análise que não está em nenhum dos livros lidos.

O resumo, até aqui, não esgota o conteúdo de Como ler livros. Adler propõe ainda 15 regras gerais de leitura que serão descritas em outro post. Além disso, cada nível de leitura conta com outras especificidades e subdivisões que o próprio leitor deve sondar. Outro aspecto que merece ser ressaltado é a classificação dos livros conforme suas particularidades e regras de leitura, todos elencados na terceira parte: livros práticos, imaginativos, peças e poemas, livros de história, ciências e matemática, filosofia e ciências sociais.

Como ler livros é um título de natureza prática que não exige habilidade e experiência de leitura, apenas paciência e aplicação. Pela formação do autor, pode ser notado um tom positivista nas ideias – observo a quem interessar que, no prefácio da edição mais recente, há uma citação de Olavo de Carvalho, do livro Aristóteles em nova perspectiva. Muitas dos níveis, regras e etapas de leituras podem ser utilizados intuitivamente por leitores experientes, sem a necessidade da exposição. Talvez o maior mérito da obra seja o de colocar o livro como uma fonte de conhecimento que só se completa quando o leitor lê, decifra os argumentos, absorve seu conteúdo e a partir desse processo forma um juízo. Na era das opiniões prontas, dos entreveros de redes sociais e da crítica superficial, Como ler livros é um lembrete de que não sabemos ler bem e ignoramos a tradição milenar do conhecimento ocidental. Mas podemos aprender e melhorar.

imagem: Manu_H/Flickr (CC BY 2.0)
A experiência de leitura para as crianças, atualmente, tornou-se parte se experiências sensoriais e cognitivas bem mais amplas. O outro lado desse panorama aparentemente positivo, é que os jovens leitores não estão mais sabendo escrever narrativas longas porque se acostumaram com fragmentos de histórias.

O alerta foi feito pelo crítico de literatura infantil Peter Hunt. Durante o painel "Literatura e Arte na Era dos Bits", realizado durante a Jornada Nacional de Literatura na última terça-feira (23), ele analisou a forma como as crianças interagem com a informação atualmente

No espaço onde a leitura e o conhecimento deveriam ser mais cultivados dentro de uma sociedade, é justamente onde, por vezes, são mais vilipendiados. Monografias e trabalhos de conclusão de curso são feitos a toque de caixa sem leitura e análise sobre os temas escritos, e o resultado são trabalhos de má qualidade que pouco ou nada contribuem para a construção do conhecimento.

Segundo uma pesquisa desenvolvida pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) junto a 20 mil estudantes de nível superior em universidades federais, cada aluno lê em média de um a quatro livros por ano.

“Por meio da leitura se internalizam os mecanismos envolvidos na composição de um texto. Quem lê mal ou lê pouco não acumula conhecimentos, não dispõe do instrumental intelectual necessário à produção de um bom texto e não consegue mobilizar os recursos linguísticos que o ato de redigir exige. Seu repertório cultural fica limitado”, afirma o professor de língua portuguesa Antonio Carlos Olivieri, criador do site Página da Redação.

Para ele, o hábito da leitura e a prática da escrita são atividades que são desenvolvidas por etapas durante a vida do estudante, semelhante ao aprendizado de um idioma estrangeiro. “O primeiro passo é adquirir vocabulário e as estruturas básicas da frase nessa nova língua. Essa é uma fase, digamos assim, passiva do aprendizado e é depois dela que se passa à forma ativa, que é falar a língua estrangeira”.

A noção de vitória mediante a simples aquisição do diploma é um conceito trabalhado equivocadamente desde as bases educacionais, sobretudo privadas, no Brasil. Não se ensinam parâmetros introdutórios à pesquisa, ensino e extensão, o foco é a aprovação no vestibular por meio de fórmulas prontas. Com isso, os estudantes entram na universidade sem saber o que fazer nem o que querem. A prática da leitura é ainda menos estimulada, o que leva ao quadro de despreparo dos alunos para a pesquisa e produção de conhecimento.
Proposta ainda deve passar pela Câmara dos Deputados; objetivo é atualizar acervo de bibliotecas públicas e criar sistemas de inclusão

O Projeto de Lei nº 294/2005, que cria o Fundo Nacional Pró-Leitura (FNPL), foi aprovado em decisão terminativa por todas as comissões do Senado Federal na última terça-feira (19). O projeto, proposto pelo senador José Sarney (PMDB-AP), ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados para ter validade.

De acordo com a Agência Senado, o objetivo do fundo seria captar recursos para estimular a produção, distribuiçaõ e comercialização de livros, nos termos da Política Nacional do Livro. Os recursos deverão ser aplicados na atualização do acervo de bibliotecas públicas, inclusão de livros em Braille e capacitação dos colaboradores que trabalham diretamente com livros.

O FNPL também irá financiar projetos de edição e distribuição de produções literárias, técnicas e científicas, podendo contemplar até 80% do custo total do projeto, desde que estes estejam de acordo com os termos previstos na lei.