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Cena do filme Lolita, de Stanley Kubrick (1962); personagem teve idade aumentada de 12 anos para 16, mesma idade da atriz, a fim de evitar escândalos |

O amor é uma invenção dos românticos – pelo menos o significado que se atribui ao amor novelesco. Como toda construção, foi posteriormente desconstruído. Em Romeu e Julieta o fim do amor é a morte; em Tolstoi, Nabokov, Quiroga e até no nosso Machado de Assis o leque de significações do sentimento assume vários outros matizes: interesse, paixão, ciúme e posse são alguns.

Se você acha que amor é apego e vontade de ficar de agarração, ou ainda que deve ser eterno enquanto dure, leia os livros abaixo. Caso não mude de ideia, pelo menos terá lido alguns dos melhores livros já escritos.

Anna Kariênina (Leon Tolstoi)


É quase unanimidade: escritores clássicos e modernos, de Dostoiévsky até os que ainda respiram, consideram Anna Kariênina o melhor romance ever. Uma pesquisa publicada em 2007 confirma a supremacia. A primeira frase do livro também é uma das mais célebres da literatura universal: "Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira". Enfim, é Tolstoi, e Tolstoi é soberbo.

A descolada sociedade russa dos czares

A história se passa na Rússia do século 19, onde a aristocrata Anna Kariênina inicia um caso extraconjugal com o Conde Vronsky, ao mesmo tempo em que tenta ajudar o irmão a restaurar o casamento. Dividida entre a pressão da sociedade e a paixão por Vronsky, Kariênina se torna possessiva e paranóica em relação à infidelidade do amante. Não bastasse tanto nó cego, há uma narrativa paralela: a do fazendeiro Konstantin Levin, que propõe casamento várias vezes à irmã da cunhada da protagonista.

Lolita (Vladimir Nabokov)


A paixão de um professor universitário à beira dos 40 anos por uma adolescente de 12 – e todas as tragédias subsequentes – inspiraram inúmeras adaptações, entre filmes, novelas e seriados, incluindo um brasileiro (sim, Presença de Anita). O livro se tornou um clássico instantâneo, logo após sua publicação, em 1955. mais do que no espaço físico e temporal, a trama se desenrola no psicológico, onde o significante do amor é totalmente distorcido por um trauma recalcado. É loucura, cara.

Um velho que busca juventude... isso dá uma ótima história

Lolita é frequentemente apontado como um dos melhores romances do século 20, mas quando Nabokov tentou publicá-lo foi recusado por cinco editoras norte-americanas. "Pura pornografia", ouviu de uma delas. Após uma resistência inicial dos leitores, a reputação do livro foi salva pelo crítico Graham Greene, que incluiu o título entre os melhores de 1955. Depois de Lolita, Nabokov deixou de dar aulas para viver de literatura e se firmar no panteão da prosa e do estilo.

Contos de amor de loucura e de morte (Horacio Quiroga)


O uruguaio Horacio Quiroga foi uma tragédia viva da infância até a morte. Perdeu o pai quando tinha quatro anos de idade, matou o melhor amigo com um tiro acidental, o padrasto cometeu suicídio, assim como sua esposa, ele próprio – após ser diagnosticado com câncer – e seus três filhos. Não foi uma vida fácil.

Não, não vou sorrir nem dizer "xis"

Apesar disso, é considerado um dos grandes mestres latinoamericanos do conto. Não é um elogio vazio, o cara era excepcional. O primeiro dos Contos de amor de loucura e de morte (sem vírgula mesmo), Uma estação de amor, é dividido em quatro partes: primavera, verão, outono e inverno. O leitor é conduzido pela história com uma dúvida fundamental: afinal, a mulher ama o cara de verdade ou é só interesse na grana? A resposta é bem sutil e só aparece lá no finalzinho. Sem falar que o livro reúne outros de seus melhores contos, como A galinha degolada.

Dom Casmurro (Machado de Assis)


Você não, Brás... volta para o caixão

Dispensa apresentações. Dispensa qualquer introdução sobre o enredo. Se você nunca leu Dom Casmurro, faça um favor a si mesmo e leia. Machado de Assis teve uma fase mais romântica, como em Helena, e uma fase realista. Dom Casmurro pertence à última. O livro simplesmente mostra o estrago provocado pelo amor, reunindo elementos sociais e psicológicos.

Se você quer conhecer melhor e se aprofundar na obra de Machado de Assis, precisa conhecer o Machadodeassis.net. O site simplesmente mostra todas as relações hipertextuais contidas nos contos e romances do escritor com links apontando para as referências. Isso tudo -- sim, é muita coisa -- de graça.

Resumindo: toda a obra de Machado de Assis. Hipertextualizada. Gratuita. Na internet.

O projeto é encabeçado pela pesquisadora Marta de Senna em parceria com a Fundação Casa de Rui Barbosa, órgão ligado ao Ministério da Cultura, junto a cinco bolsistas de iniciação científica, uma webdesigner e um técnico em informática. Senna tem pós-doutorado nas áreas de Filosofia e Literatura pela Universidade de Oxford e já publicou dois livros sobre Machado de Assis: O olhar oblíquo do bruxo e Alusão e zombaria, além de ter organizado outros dois.

"O objetivo deste projeto é oferecer ao usuário da internet uma edição fidedigna - com o texto cuidadosamente estabelecido - dos romances de Machado de Assis, na qual ele tenha acesso direto, através dos hiperlinks, às referências e alusões feitas pelo autor, bem como a informações sobre os locais citados pelo escritor em seus romances", informa o website.

A ideia veio em 2000, e desde 2005 é desenvolvida "intensamente". O site também conta com uma bibliografia básica que reúne cerca de trinta títulos sobre o autor carioca. O público-alvo são pesquisadores da área de literatura, porém nada impede leitores apaixonados de consultarem as obras. Se algum valor comercial fosse atribuído a todo o trabalho de pesquisa e disponibilização, não seria nada barato.

Livros, periódicos, cartas e outros escritos com mais de 300 anos, considerados raros, estão entre os 260 mil documentos que fazem parte do acervo digital da Biblioteca do Senado. O mais antigo foi redigido no ano de 1633, intitulado Novvs Orbis seu Descriptionis Indiae Occidentalis, e faz uma descrição geográfica, científica, etnológica e linguística da América. Quem assina é o geógrafo neerlandês Johannes de Laet.

Entre os periódicos que constam no acervo, o destaque é a Revista Moderna, impressa em Paris a partir de 1817. A publicação adotou uma linha moderna de produção jornalística, com foco em reportagens aprofundadas. De acordo com a Agência Senado, em breve serão incluídos mais títulos e periódicos, como o jornal satírico ilustrado Don Quixote, que circulou de 1895 a 1903.

Um dos poucos manuscritos digitalizados é o autógrafo da Lei Áurea, documento que erradicou [oficialmente] a escravidão no Brasil. É claro que o velho mulato Machado de Assis não poderia ficar de fora: o manuscrito de O Casamento do Diabo, em versos, também pode ser acessado. Como sua caligrafia era tão incompreensível que o próprio não entendia o que escrevia, uma versão digitada acompanha a obra para facilitar a leitura.

No total, a biblioteca da instituição disponibiliza 916 obras raras e valiosas em suas versões digitalizadas. Conforme explica a bibliotecária Clara Bessa Costa, responsável pela restauração e manutenção do material, o processo de liberação do material requer cautela e tempo.

"Na etapa de seleção analisamos se as obras estão em condições de passar pelo processo de digitalização, que é realizada com todo o cuidado para que não haja nenhum dano ao material.  Depois os arquivos em alta resolução são conferidos e convertidos para PDF para facilitar  o download pelas pessoas que acessarem nosso acervo", explica.

A cereja do bolo: não é necessário nenhum cadastro para acessar as obras. Bastar abrir o portal da Biblioteca Digital do Senado e realizar a busca. O cadastro só é requerido caso o usuário queira ser avisado quando novas obras forem incluídas na coleção.
Memórias Póstumas de Brás Cubas é encantador, disse o diretor

Em uma lista elaborada para o jornal britânico "The Guardian", o diretor norte-americano Woody Allen elencou cinco de seus livros favoritos, dentre os quais encotra-se o brasileiríssimo Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor realista Machado de Assis.

"Eu recebi pelo correio um dia. Algum estranho do Brasil me mandou e escreveu 'você vai gostar disso'. Como é um livro fino, eu li. Se fosse grosso, eu teria descartado", afirmou Allen. O diretor elogiou a obra, afirmando que ela é encantadora e atual: "não conseguia acreditar que ele viveu há tanto tempo", disse.

Aqui para nós... milhões de brasileiros já sabiam disso.

Com informações do G1.