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Aos 30 anos, o tempo – ou a percepção que temos dele – sofre uma variação singular: ele começa a caminhar mais rápido. Em um minuto, coisas que aconteceram ontem já contam cinco anos. De repente, dez. Crianças que vimos nascer já encenam os aborrecimentos da puberdade. Com essa noção, começamos a lembrar do tempo perdido com trivialidades, da importância de ter lido mais, estudado mais, se esforçado mais. Até os 20, temos a eternidade pela frente. Depois disso, é penoso olhar para trás e ver o quanto já passou.

Beirar os 60 anos de idade requer ainda mais musculatura emocional para suportar o fardo do tempo pretérito. Soma-se a isso a queda do vigor físico e a sensação de perda, mesmo das coisas que não tivemos, dos amores não vividos e daqueles que foram vividos, mas só resultaram em dor. Em A bela Helena, nono livro da escritora carioca Miriam Mambrini, a personagem Talita faz um relato com gosto de passado. Ao longo de 42 capítulos curtos, ela relembra a amargura dos seus dias; confidencia ao caderno fatos, diálogos, decepções, brigas e eventos que marcaram a sua vida.


Se tempo e espaço misturassem suas propriedades, o passado seria, para Talita, uma prisão. Sem conseguir se desvencilhar do que viveu e se transformar na bela e desejada Helena do seu ideal, Talita se debruça sobre o caderno para narrar a própria história. Os capítulos são pedaços da personagem que se embaralham pelo tempo; ora ela é uma estudante secundarista, ora uma adulta, ora uma viúva com 59 anos de idade aguardando a virada do milênio, sozinha, sem amigos, longe do único filho e com um amante inconstante. Rejeitada, assim como era em sua infância. Quando se põe a escrever, Talita passa a ser uma crisálida, uma transição.
“As lembranças aproveitavam os momentos vazios e vinham se instalar em seu pensamento. Não era uma ocupação pacífica, era uma invasão, uma intromissão violenta. Imagens surgiam, alongavam-se, desfaziam-se, eram substituídas por outras imagens e voltavam mais uma vez. O seu tempo passou a ser o passado” – Texto do prólogo.
A marcação dos diálogos com aspas, ao invés de travessão e uso predominante do tempo verbal no pretérito imperfeito reforçam essa característica da narrativa. A narradora é Talita, o seu tempo presente é a véspera do ano 2000, mas toda a história é o seu passado com ligeiras incursões em sua atualidade. Como a história não obedece a uma sequência temporal – o começo e os meios estão fora de ordem –, o leitor precisa ficar atento para não se perder. Mas quando as primeiras peças são posicionadas, fica fácil montar o restante do quebra-cabeça.

Em que pese a narrativa madura e experiente de Miriam Mambrini, erros de edição podem ser percebidos – a maioria pouco significativos, como espaços duplos e uma falta de pontuação. O mais grave é a personagem, então estudante de Letras, citar a obra de Guimarães Rosa como Grandes Sertões: Veredas [o título correto é Grande Sertão: Veredas], embora o lapso não comprometa a densidade da narrativa.

História

Filha inesperada de uma mãe indiferente e pobre, sem muito amor para dar, e de um pai tão ausente quanto ignorado, ela é atirada na casa dos avós paternos, que viviam em Copacabana. No mesmo apartamento, morava seu pai, dado à bebedeira e prostituição, uma tia desinteressada e egoísta, um avô severo e uma avó carinhosa. Esta decidiu criá-la quando Zenaide, mãe de Talita, bateu à porta com a mala da criança já pronta, com a promessa de buscá-la assim que tivesse melhores condições. Ainda na infância, Talita enfrentou a rejeição dos parentes, a pobreza de afeto e a ausência de um lar.

Quando adolescente, começa a descobrir a paixão sensual durante agarrações com o jovem Luiz Eduardo, ambos dentro de um fusca estacionado nos ermos da floresta da Tijuca. Os toques e carícias levam ambos a picos de excitação que exigem sexo. Mas, nos anos 50 e começo dos anos 60, o hímen ainda era um instrumento social; perdê-lo implicava rebaixamento, o que levou Talita a recusar posteriores amassos. Luiz Eduardo, herdeiro de família tradicional, propõe casamento, e ambos passam a viver na casa dos sogros de Talita.

Mais uma vez, ela experimenta a rejeição. Embora bem instalada em um quarto grande e bem mobiliado, vivia de favor, não era respeitada pelos sogros e ainda lidava com a indiferença do marido, que ainda agia como adolescente, interessado apenas em sexo. Ao se separarem, Talita era uma jovem desquitada sem ter concluído os estudos secundaristas e com poucas perspectivas. Volta a viver com a mãe, a contragosto desta, e consegue emprego em um jornal.

Vive outros amores. Com Gustavo, um executivo acostumado ao controle, ciumento e com ímpetos de violência, tem o único filho. Com Eugênio, um empresário bem-sucedido, quinze anos mais velho, casa-se e, durante seis anos, experimenta a tranquilidade de um relacionamento estável. Mas o personagem que mais a influencia é Laerte, com quem Talita vive um romance tórrido, porém sem promessas de fidelidade, estabilidade ou respeito mútuo. Ele aparece e desaparece de sua vida conforme o próprio gosto.

A primeira vez que Laerte vê Talita é no meio de um tumulto provocado por um atropelamento fatal. De imediato, a imagem da garota é associada tanto ao amor quanto à morte, dualidade que o personagem sintetiza na expressão “anjo mau”. A maneira como ele se relaciona com ela reflete esse pensamento. Atração e repulsa coabitam. Laerte surge em momentos pontuais da vida de Talita para desaparecer após algumas semanas ou meses. Talita, por sua vez, projeta em Laerte a mesma decepção provocada pelo abandono paterno, mesmo com sua completa entrega. O período mais duradouro do relacionamento foi também o mais frio; o combustível da paixão é fugaz.

Contudo, o aspecto mais marcante do romance não são as histórias de amor e sofrimento, mas a condição da mulher no século passado – não faz tanto tempo. Talita molda-se aos relacionamentos conforme exigem seus homens, mesmo quando há um sacrifício emocional. Apesar de forte, ela se mostra totalmente passiva, ao ponto de incomodar o leitor. Se o marido é ciumento e possessivo, ela toma para si a tarefa de chegar em casa nos horários definidos para não levantar suspeitas. Ao descobrir o prazer e a sexualidade, descobre também a culpa unilateral de não ser uma mulher “para casar”. Se o cônjuge é de uma alta casta social, ela adequa o modo de falar, vestir e comer. E poucos dão importância ao que ela pensa ou sente a respeito disso tudo.

Essa condição de vida não era algo particular. O jugo carregado pela mulher na sociedade brasileira até o final do século 20, como vemos hoje, era profundamente desigual – ainda é, se considerarmos o atraso social das localidades distantes das metrópoles. O melhor que se podia esperar era um casamento tolerável, onde a traição e outras falhas de caráter atribuídas ao sexo masculino – enquanto construção social, não natural – deveriam ser relevadas em nome da respeitabilidade. Com isso, abusos sexuais, violência doméstica, prostituição dentro do casamento, ameaças constantes, homicídios domésticos e outros fenômenos grassaram no seio necrosado da família brasileira.

Nunca saberemos quanta dor e sofrimento aprisionaram as mulheres que viveram nesse período, tornando-as crisálidas sob força e opressão sufocantes. Muitas certamente pensaram em matar os esposos, algumas podem ter levado o intento a cabo – como a personagem Clarice –, ou mesmo atentado contra a própria vida. As mulheres dessa época que vivem hoje e conseguem ser felizes conseguiram romper um casulo grosseiro, artificial e desnecessário – ou ainda tentam. A história de Talita faz com que A bela Helena seja uma leitura ideal para mães, avós e filhos que pouco reconhecem o que elas sofreram e os sonhos que esqueceram para criá-los.
Ilustração  de Sagarana feita pelo célebre desenhista Poty Lazzarotto |

Gosta de paisagens rurais, serranas, sertanejas? Então você precisa ler Sagarana.

Gosta de uma linguagem inovadora, sofisticada e ao mesmo tempo simples? Então você precisa ler Sagarana.

Gosta de histórias? Então você precisa ler Sagarana.

A obra que estreia o pujante estilo de Guimarães Rosa começou a ser escrita em 1937 e foi publicada em 1946. Sagarana – hibridismo entre "saga" (histórias germânicas de heroísmo e lutas) e "rana" (do tupi, "que se assemelha a") – reúne nove novelas que se tangenciam no ambiente onde são narradas e no estilo: O burrinho pedrês, A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado, Conversa de bois e A hora e a vez de Augusto Matraga. Algumas edições têm como prefácio uma carta de Guimarães Rosa a seu editor, João Condé, onde ele detalha o processo de escrita das histórias.

Antes, é necessário deixar uma coisa clara sobre a escrita de Guimarães Rosa: é difícil acompanhar. O ritmo é lento como uma caminhada à beira da estrada, o autor se detém em criar fantásticas imagens do ambiente e utiliza palavras e construções pouco usuais. Ao ler Sagarana, o leitor deve esperar que toda a grandeza do sertão seja descortinada, e absorver tudo isso é um processo que requer esforço mental e algumas consultas ao dicionário. O próprio Rosa era ciente disso. Em entrevista a Günter-Lorenz, publicada no livro Diálogo com a América Latina, ele afirmou:

"Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão (...). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua".

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Assim como Cortázar, Rosa rejeita a ideia de que o sertão é simplório, e de que, portanto, contos ambientados nele precisam ser dotados de uma linguagem igualmente simplória. O sertão, para Rosa, carrega a aura do começo dos tempos. Por ter vivido e trabalhado como médico em comunidades rurais, ele sabia do que falava. Capturava histórias e conferia-lhe aspectos perceptíveis apenas com desprendimento e imaginação, sem dispensar o tratamento literário. O resultado é a união perfeita entre forma e conteúdo.

Novelas

Em O burrinho pedrês, o narrador heterodiegético passeia entre os personagens. Na história, um velho burro é escalado, na falta de cavalos, para acompanhar um grupo de vaqueiros que conduz uma boiada. Subestimado, o animal é o único que sobrevive, junto com dois vaqueiros, a uma cheia no rio que deveriam atravessar. Ao longo da narrativa, outras histórias menores são contadas, todas confluindo para o mesmo leito, como vários braços de um rio.

A volta do marido pródigo foi a novela mais rapidamente escrita, segundo o próprio Rosa. De fato, além de mais curta, não tem uma estrutura complexa. É narrada em terceira pessoa. Na história, o malandro Lalino larga a esposa e o emprego na estrada de ferro para desfrutar de uma vida dissoluta no Rio de Janeiro. Quando o dinheiro encurta, volta para o interior, onde usará seu cartel de astúcias para ganhar prestígio e recuperar a mulher, que havia se casado novamente.

Sarapalha é um diálogo entre dois moribundos numa vila atacada por uma epidemia de malária. Durante a conversa, os dois primos revelam pontos-chave da história, até o inesperado desfecho.

Duelo começa com o ponto de partida clássico: traição conjugal. O marido traído mata, por engano, o irmão do amante, que ocorre de ser o chefe de polícia da região. A perseguição e permuta de papéis entre caça e caçador se estende por vários meses.

Em Minha Gente, Rosa consegue algo que eu já tentei sem sucesso até agora: usar o jogo de Xadrez como metáfora dentro da narrativa. A estratégia de avanço e recuo, paciência e sagacidade é conduzida até o desfecho da trama de amor, política e jogo.

São Marcos é o mais místico dos contos. Segundo Rosa, também foi o mais demorado de escrever pela necessidade de resgatar, na memória, detalhes do ambiente onde se passa a história. Aqui a natureza aparece mais viva do que nas outras histórias; ao invés de servir como background, ela é um personagem que interage com os outros.

Corpo fechado é a história do personagem Manuel Fulô, talvez o mais complexo dentre todos do Sagarana. "Manuel Fulô foi o personagem que mais conviveu 'humanamente' comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existência", relatou Rosa na carta a Condé. A narração é um caso bem particular entre as novelas do Sagarana: é feita em primeira pessoa, mas com o narrador-testemunha, onde o personagem que conta a história é bem parecido com o próprio Rosa.

Em Conversa de bois, o narrador volta para a terceira pessoa. Num estilo que remonta às fábulas de Esopo, a história se passa numa viagem conduzida por um carro de bois com um carregamento de rapaduras e um defunto. O filho do morto é o guia, e o carreiro é o padastro do jovem. "Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, nêste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enrêdo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) - também com carro, bois, carreiro e guia - totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esquecida outra, da anterior", detalha o autor.

A hora e a vez de Augusto Matraga é a mais conhecida das histórias. Já virou filme (A hora e a vez de Augusto Matraga, Roberto Santos, 1965), e deverá chegar aos cinemas mais uma vez em setembro deste ano. A refilmagem ganhou cinco troféus no Festival Rio 2011. Dentre todas, é a que considero mais transcendental, parece um mito ou uma parábola. É a história da redenção de um vilão, o cara maligno, violento e poderoso que é quebrado, passa um tempo de penitência e ressurge para se redimir. Dentre todas, é a história mais cativante e que resolve o livro inteiro. Para Rosa, essa história é uma vitória pessoal: "desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir".

Estilo

A principal característica da escrita de Guimarães Rosa é a oralidade. A partir dela, consegue aglutinar novos elementos e criar neologismos que representam ideias complexas. No entanto, não nivela a linguagem por baixo: tudo o que é escrito traz um robusto carregamento de símbolos e imagens. Junto com os termos populares, mistura também palavras de uso corrente na medicina e biologia, como "trabécula" (feixe). Rosa tratava as palavras com cuidado; "as palavras têm canto e plumagem", escreveu na novela São Marcos. É notável o perfeccionismo em cada construção, ainda que seja, à primeira vista, excessivamente descritivo.
"E a estrada subia e descia, mais, como as descidas eram muito menores, nós subíamos sempre. A tarde tinha recuado. Um resto de cirros, no alto, em alvas trabéculas rarefeitas; um empilhado de faixas, tangerina e rosa, no poente; no mais, o céu era lisa campânula de blau". (Minha Gente, Guimarães Rosa)
Sagarana lembra o poema O apanhador de desperdícios, de Manoel de Barros, onde ele também mistura propriedades estéticas das palavras.
"Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática
Só uso a palavra para compor meus silêncios."

O livro antes e depois do livro

O título Sagarana foi atribuído posteriormente ao livro de novelas. A versão original, iniciada e concluída em 1937 levava o nome Sezão, conforme aponta a pesquisadora Sônia Maria van Dijck Lima no artigo Canto e plumagem de Sagarana. Esse também era o título da primeira novela do livro, que mais tarde foi convertida em Sarapalha. O título provisório logo foi substituído pelo genérico Contos, assinado sob o pseudônimo de Viator, com o qual o livro foi inscrito no concurso de contos da editora José Olympio. Para constar, o livro de Rosa foi o segundo colocado no concurso, atrás de Maria Perigosa, escrito por Luís Jardim.

Após várias revisões ao longo dos anos, Rosa alterou o nome do livro novamente para Sezão, retirou três contos que constavam no original (Bicho mau, Uma história de amor e Questões de família) e modificou alguns títulos: Sezão passou a ser Sarapalha, A oportunidade de Augusto Matraga se tornou A hora e a vez de Augusto Matraga e Envultamento virou São Marcos. Sarapalha foi 'rebaixado', e a história de abertura passou a ser O burrinho pedrês.

Sarapalha (Sezão) havia perdido de vez a graça de Rosa. Na carta a João Condé, se refere ao conto com certo tom de desprezo: "Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto". Na primeira ocasião, o título referia-se à doença, usava a enfermidade como panorama do conto. Ao trocar o nome para o da região fictícia, "o autor concedeu definição de palco ao drama das misérias humanas, integrando de tal modo espaço e criaturas, que  até podemos dizer que a paisagem é a outra personagem também vitimada pela sezão", afirma Lima. De uma forma ou de outra, não há um registro que indique o motivo de a novela ter perdido importância no conjunto.

Também não se sabe o processo pelo qual Sagarana foi eleito o título do livro renovado, agora com nove contos. A obra foi imediatamente abraçada pela crítica: "De repente chega-nos o volume e é uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura, que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível, ao mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público, penetra ruidosamente na vida literária para ocupar desde logo um de seus primeiros lugares", escreveu o crítico Álvaro Lins. À época, Rosa era tratado como um escritor estreante, e Sagarana foi o que hoje seria chamado de "viral": comentários positivos e negativos vieram de todos os lados, incluindo de escritores já consagrados, como Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

"Sagarana: coisa que parece saga... Filei um sufixo do nheengatu", disse Rosa, em entrevista ao repórter Ascendino Lima.

Poliglota

Rosa era, talvez não por formação, mas por paixão, um filólogo. Em entrevista a uma prima que o entrevistou, revelou seu impressionante cabedal de idiomas. "Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração."
"De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira." (Carta a João Condé, Guimarães Rosa)
Essa paixão foi aplicada com veemência em suas histórias. Ele sabia perscrutar e mexer nas estruturas de linguagem de uma região para criar narrativas. É como se observasse as cordas invisíveis que movimentam pensamentos e ações. É algo semelhante ao que Tolkien, que era filólogo, faz em O Silmarillion e outras obras – aliás, existe muito mais proximidade entre Rosa e Tolkien do que entre o autor britânico e muitos romances épicos contemporâneos. Em Sátira: origens e princípios, Matthew Hodgart defende que a qualidade literária de uma obra se define em duas etapas: primeiro, o grau de comprometimento do autor com a realidade que relata, ou o que chamo de imersão. Segundo, a qualidade da abstração; ou seja, mesmo imerso, o autor deve também observar a realidade de um plano geral. E isso é o que Rosa faz com maestria em Sagarana: mergulhado na imensidão do sertão, transcende. Mal posso esperar por Grande sertão, veredas.
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Tristes finais para começos infelizes, é o primeiro livro do publicitário paulista Raul Otuzi, vencedor do Prêmio Fnac Novos Talentos da Literatura Brasileira 2014. Trata-se de uma coletânea de 25 contos que nos faz refletir sobre os imprevisíveis rumos que a vida pode tomar. “Meus contos falam sobre os relacionamentos humanos, os seus abusos e absurdos”, afirma o autor.

Tudo começa com um olhar. A partir daí, pode ser um sorriso ou uma cara feia, um comentário tolo ou um pedido incomum, uma confissão ou um desabafo inesperado. Qualquer uma dessas cenas pode se transformar no estopim para uma história de amor, uma terna e duradoura amizade, ou para um desencontro sem qualquer chance de retorno. Daí, o que poderia ser um apanhado de bons momentos, em instantes transforma-se em situações irreparáveis: ciúme, traição, vingança.

Apesar do título, “Tristes finais para começos infelizes” não é só drama: “Alguns contos são melancólicos, é verdade, mas outros são bem divertidos, cheios de ironia e sarcasmo”, afirma o autor. Nos contos, os diálogos cortantes são capazes não apenas de tirar o fôlego e acelerar o coração do leitor, mas também de levá-lo a prolongar a história ou imaginar desfechos diferentes.

Sobre o autor

Quando tornou-se um dos vencedores do Prêmio Fnac Novos Talentos da Literatura Brasileira, em 2014, o redator publicitário e professor universitário Raul Otuzi, paulista de Ribeirão Preto, sentiu que chegara a hora de investir na tão sonhada carreira de escritor: “Escrevo desde os 18 anos e o prêmio Fnac foi o incentivo que precisava para reunir outras histórias curtas e apresentar à Novo Século minha coletânea de 25 contos”. O conto vencedor do prêmio, “O inventor de profissões”, encerra seu primeiro livro. Inspirado por Luis Fernando Verissimo e Nelson Rodrigues, o autor transita com uma facilidade pelo estilo de ambos, sem esconder as influências de J.D. Salinger, Scliar, Tchekhov, Julio Cortázar e Rubem Braga.

Ficha técnica


Editora: Novo Século
Título: Tristes finais para começos infelizes
Autor: Raul Otuzi
ISBN: 978-85-428-0428-7
Categoria: contos – literatura brasileira
Formato: 14 X 21 cm
Acabamento gráfico: brochura
Páginas: 212
Edição: 1ª
Preço: R$ 29,90

Com assessoria
Arte do chargista Carlos Latuff retratando o massacre [não presente no livro] |

Em 17 de abril de 1996, há pouco mais de 19 anos, dezenove sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar no município de Eldorado dos Carajás, no Pará. Segundo a perícia, dez foram executados à queima-roupa. A represália brutal que culminou em tragédia, embora pouco lembrada hoje, serve como panorama do primeiro romance da escritora Valéria Pimentel, que está sendo lançado pela Novo Século.

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Valéria Pimentel é blogueira, cronista e formadora de arte. Trabalhou na região norte durante doze anos e relatou suas impressões em Irina do Pará. O romance é a aposta da Novo Século, pelo selo Talentos da Literatura Brasileira, para o mês de junho.

Ficha técnica

Título: Irina do Pará
Autora: Valéria Pimentel
Categoria: Ficção/Literatura brasileira
Páginas: 168
Edição: 1ª edição
Preço: R$ 29,90
ISBN: 9788542804263

Encontrei Reima numa estante de livraria em João Pessoa. Jamais ouvira falar no autor, mas vi que o romance se situava no Rio de Janeiro e quis presentear um amigo carioca. Na promoção, o título custava só 13 reais, comprei outro para mim. Foi a primeira vez que conversei com o alagoano Dau Bastos, escritor com trinta anos de carreira e professor de Literatura Brasileira da UFRJ. Escrevi sobre o livro aqui no blog.

Sua primeira incursão na literatura foi com o romance Das trips, coração, onde narra a vivência de um jovem egresso da pernambucana Renitência que vai estudar na metrópole de Recife. Os conflitos sexuais e morais relatados na história ainda fazem sentido hoje. De lá para cá, foram mais quatro romances, três novelas infanto-juvenis, uma biografia de Machado de Assis e três ensaios, além da produção acadêmica e editorial (traduções e edições).

Sua obra é marcada por suas próprias vivências e observações sobre os diversos aspectos da sociedade. Embora seus personagens tenham mil facetas, vez por outra é possível discernir quando o autor encarna e emite ali suas opiniões, bem no meio da narrativa. “As investidas contra o pensamento de direita e o mau gosto literário integram uma lista imensa de ataques que nem sempre tenho coragem de fazer ou, pelo menos, não de forma tão contundente”, confessa Bastos.

Pode parecer uma pretensão exacerbada por parte do autor. Mas Bastos tem muito a dizer. E gosta de usar muitas palavras para isso. Destaco abaixo alguns pensamentos que pincei de seus livros.

“Mas nessa tarde percebia, era tolice, lembrava até do delirante pensador dizendo, ser jovem é ter integral respeito por si mesmo, de tal maneira que não há mais nada a destruir ou enfrentar, pois se investe toda a energia na construção dos próprios sonhos” (Das trips, coração)
“Como ente da literatura, eu pensava na besteira desses escritores com a cachola tão marcada pelo consumo de thrillers que acreditam que criar é inventar histórias mirabolantes, quando o desafio é alar a linguagem” (Mar negro)

O desafio seguinte, proposto pelo autor a si mesmo, é regressar à região de origem, o Nordeste, em suas narrativas. Nas palavras do próprio, um “mergulho de cabeça”. Num momento em que a região ganha cada vez mais protagonismo econômico e cultural, uma reedição do regionalismo literário que marcou o movimento modernista, Dau deverá lançar em breve um romance ambientado no final dos anos 60 e genuinamente nordestino, intitulado Morte certa. “A melhor maneira de fundir ética e estética é privilegiar meu torrão natal em minhas narrativas”, afirma.

Conheça todas as revelações de Dau Bastos sobre sua vida e obra na entrevista abaixo.

Livreiro – Primeiro fale um pouco sobre tua vida: onde nasceu, quando começou a tomar gosto pela leitura e que caminhos percorreu até a escrita do primeiro livro.

Dau Bastos – Nasci em Maceió, mas só vivi na capital alagoana até os cinco anos de idade, quando minha família se mudou para uma fazenda no município de Boca da Mata. No campo, a falta de escola levou minha própria mãe a nos ensinar os rudimentos de matemática e português. Por conta disso, as diferentes atividades ligadas ao saber – a começar pela leitura – passaram a se associar ao carinho materno, o que foi altamente estimulante. Em aparente paradoxo, porém, comecei a gostar de escrever quando já não era um aluno exemplar, e sim um adolescente em crise com o ensino médio, concluído, a duras penas, no Colégio São Bento de Olinda. Por essa época, enviei um arremedo de artigo para um jornal anarquista baiano chamado Inimigo do Rei e, ao vê-lo publicado, passei do pasmo por terem me levado a sério à decisão de continuar escrevendo.

Pouco depois, participei da criação do Teatro Universitário Boca Aberta (TUBA), da Universidade Católica de Recife, e, percebendo minha total incapacidade de fazer algo que prestasse no palco, experimentei a dramaturgia: redigi uma peça tão panfletária e mal-ajambrada que não arrancou elogio nem mesmo dos amigos mais próximos, portanto foi devidamente engavetada.

Aos dezenove anos, me mudei para o Rio, onde tive a sorte de trabalhar numa revista alternativa chamada Rádice, cujo editor, Carlos Ralph, me mostrou que as pessoas que se dispõem a publicar têm o dever de reescrever à exaustão seus textos. Posteriormente, essa publicação se desdobrou no Luta & Prazer, hoje estudado como periódico anarquista e, no início dos anos oitenta, um espaço em que pudemos brincar tanto com a linguagem que ultrapassamos os limites do jornalismo e caímos naquele vazio libertador entre significado e significante.

Para chegar à literatura faltava apenas um passo, que dei ao ver o projeto falir definitivamente, quando parti para produzir meu primeiro romance, Das trips, coração (1984), no qual me senti plenamente à vontade para trocar o fato pela ficção.

Livros e ensaios

Clandestinos na América
romance/ficção
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Saraiva
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Reima
romance/ficção
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Travessa
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O fino da erva – a canabis
como ela é

ensaio/não-ficção
Cultura
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Saraiva
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Luiz Costa Lima – uma obra
em questão

crítica literária
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Travessa
Folha (ebook)
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Monografia ao alcance de todos
acadêmico 
Cultura
Saraiva
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Machado de Assis – num
recanto um mundo inteiro

crítica literária
Cultura
Saraiva
Travessa
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Papos contemporâneos
crítica literária 
Cultura

Celine e a ruína do velho
mundo

crítica literária 
Cultura
Travessa
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Mar negro
romance/ficção
Cultura (ebook)
Saraiva
Amazon (ebook)

Só meu pai sente saudade
infantil 
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Das trips, coração
romance/ficção 
Estante virtual

Snif
romance/ficção 
Estante virtual

O ins nunca esteve tão alegre
literatura infantil
Estante virtual

Você costuma ambientar seus romances em vários biomas diferentes. Clandestinos na América (2005) se distribui pelo Brasil, o México e os Estados Unidos. Em Reima (2009), um dos personagens brasileiros é íntimo da Paris urbana. Mar Negro (2014) se passa basicamente no Leste Europeu. Como você constrói esses ambientes? Visitas in loco, pesquisas ou conversas com quem esteve lá?

Acho importante o ficcionista ambientar suas histórias em lugares que tenha visitado e, se possível, conhecido para além do mero turismo. Agora, tive as mais diferentes relações com as localidades estrangeiras presentes em minhas narrativas.

Dos dois países percorridos pelos personagens de Clandestinos na América, conheci os Estados Unidos em 1986, quando, durante seis meses que pareciam não acabar mais, paguei um curso de inglês com o que ganhava como busboy (assistente de garçom) na mortalmente enfadonha Washington DC. Quanto ao México, devo confessar que frequentei apenas pela internet. Acontece que dediquei tanto tempo a vasculhar sua história, conhecer seus habitantes e curtir suas paisagens que no ano passado finalmente tive oportunidade de passar dez dias em sua capital e fiquei aliviado de perceber que não mudaria nenhuma das descrições do livro.

Na capital francesa, passei quase quatro anos, distribuídos pelas décadas de oitenta e noventa. Da primeira vez, era um mochileiro duro, me arranjando em quartos alugados e casas de amigos, a pagar as contas com a merreca do trabalho de baby-sitter, que, em contrapartida, me dava tempo para circular bastante e tocar a escrita de meu segundo romance, Snif (totalmente ambientado no Rio e lançado em 1987). Posteriormente, voltei a Paris para fazer um doutorado-sanduíche na Sorbonne, agora com a papelada regularizada e condições de morar num pequeno apê em Montmarte, onde se desenrola o drama de Boiô, personagem de Reima que, na verdade, não tem nada a ver comigo.

Finalmente, as seis nações do Leste Europeu percorridas em Mar Negro foram objeto de uma visita planejada de dois meses, durante os quais tirei mais de mil fotos e tomei nota das situações a serem enfrentadas pela narradora. A cada cidade, eu imaginava o que Anderline sentiria, com quem se esbarraria e o que viveria. O melhor foi perceber que não precisava fazer programas diferentes daqueles que me interessavam, pois, se o cotidiano é capaz de nutrir qualquer ficção, as viagens comportam tantos eventos que, em prol do cultivo de alguma reflexividade e do atendimento de exigências da própria narrativa, frequentemente precisamos até ser parcimoniosos em seu aproveitamento.

Resumindo, trabalho as cenas e os cenários de minhas narrativas pensando na máxima jornalística segundo a qual o repórter pode mentir à vontade, desde que tenha o cuidado prévio de apurar bem os fatos relatados. Mais pesquiso, mais me sinto à vontade para rearticular as descobertas, que, em vez de ser reproduzidas como convém a documentários, se prestam perfeitamente à criação de novos mundos e situações, assim como à brincadeira com a linguagem em seu sentido mais lato.

Em Reima, você desenvolveu uma abordagem interessante ao priorizar não o conflito, e sim os personagens. Eles foram descritos em detalhes e, na subjetividade e comportamento deles, foi possível desenhar uma guerra. Cada pessoa é palco de uma guerra, na verdade. Como foi o processo de construção dos personagens?

Nordestino desterrado, busquei ancoragem no bairro de Santa Teresa, onde moro praticamente desde que cheguei ao Rio, daí ter me acostumando a ouvir tiros ao longe e a comentar, com os vizinhos, as novidades sobre os conflitos em curso entre os traficantes locais. Acontece que, em meados dos anos noventa, uma guerra especialmente sangrenta entre duas facções envolveu o próprio condomínio onde eu morava, então percebi que, se tivesse alguma vergonha na cara, ficaria para acompanhar de perto o incidente e, posteriormente, escrever um livro. O problema é que a matéria-prima se mostrou tão agitada que bastava encadeá-la para criar um thriller capaz de prender a atenção do início ao fim. Assim, possivelmente o livro conquistaria público, ao preço de meu constrangimento de haver trilhado o caminho mais fácil.

Então resolvi dedicar um capítulo a cada personagem, sempre concebido a uma distância tal das pessoas envolvidas ou atingidas que nenhum conhecido se reconheceu na história. Ao longo do processo, enfrentei tantos percalços que cheguei a interromper a escrita por longos períodos de tempo. Entre outras lições, aprendi que é bem mais complicado dinamitar um enredo oferecido pronto pela realidade e, a partir de seus estilhaços, construir uma nova história do que simplesmente inventar um entrecho original.

O resultado, como sabe, é um calhamaço de quase quatrocentas páginas, perpassado por um protagonismo propositalmente diluído, um ritmo que se arrasta devido ao empenho em forjar diferentes universos interiores e trechos marcados por uma linguagem ironicamente neoparnasiana, ou seja, um romance que discrepa da maioria dos livros com a mesma temática. Para complicar ainda mais sua recepção, demorou tanto para ficar pronto que veio a lume quando as narrativas centradas no banho de sangue que cobre as urbes brasileiras já demonstravam um certo esgotamento de público. Além disso, a grande mídia havia decidido que, em nome da Copa e dos Jogos Olímpicos, a violência saíra de moda a ponto de não ser mais de bom-tom tocar no assunto.

A despeito de tantos senões, não me arrependo de nenhuma das decisões que tomei relativamente à forma e também ao conteúdo. Sintomaticamente, enquanto escrevo estas linhas ouço tiros do outro lado do vale onde moro, em prova de que a população está certa ao afirmar que, não bastasse o fato de terem apenas varrido o crime para a periferia, as Unidades de Polícia Pacificadora se desmoralizam a olhos vistos e, aos poucos, a violência generalizada retorna mesmo aos bairros de classe média.

No mesmo romance, o Rodapé é um preparador de textos frustrado por ser incapaz de escrever o próprio romance. Você já trabalhou como preparador de originais. Rodapé tem um pouco de Dau Bastos?

Com pouco mais de vinte anos, passei a revisar, preparar originais, copidescar e, depois, traduzir textos do francês e do inglês, o que me levou a uma situação esquisita: os editores sempre me consideraram um prestador de serviços razoável, mas raramente viram meus próprios textos como merecedores de investimento. Certa vez um deles, de quem me sinto bem próximo, me ajudou a compreender o que acontecia ao pedir, durante a realização de um trabalho, que eu não caísse na “tentação da literatura”. Ou seja, eu agradava quando prestava serviços porque, em vez de me permitir experimentar com a linguagem, oferecia um texto fluido, sedutor, enfim, publicitário. Ora, se os trabalhadores do mundo do livro geralmente ganham menos do que merecem, minha situação de dublê de ficcionista e pé de boi de editora ampliou esse desconforto inevitável.

Por meio de Rodapé, pude expor a dureza do ofício, agravada pela amargura de transformar textos ilegíveis em escritos atraentes, contribuindo para encher a bola de todo tipo de gente, inclusive de picaretas. Para piorar o quadro, Rodapé desconhece a criação e a procriação, que, diferentemente, a vida me proporcionou logo cedo. Posso dizer, portanto, que partilho com o personagem a vivência indicada pelo seu próprio apelido, mas já ao final da adolescência percebi que, ao menos para mim, a maneira menos dolorosa de enfrentar o inevitável vazio da vida seria torná-la produtiva.

Um recurso bastante utilizado em sua obra é o fluxo de consciência, que enriquece a construção dos personagens e torna a leitura densa. Cada modulação de caráter do personagem, os ímpetos e recuos, tudo é relatado em detalhes, de modo que o autor acaba se fazendo presente no romance. Em Mar Negro a protagonista chega a sair de seu papel para reclamar do escritor. Os personagens são, de certa forma, “avatares” de Dau Bastos na narrativa, uma forma de dar vazão às tuas próprias ideias e sentimentos?

Até ler esta pergunta, eu estava convencido de que era capaz de me entregar ao ponto de vista dos diferentes personagens, que colocariam em suspenso minha visão de mundo e, com seus vaivéns narrativa afora, acabariam constituindo uma pluralidade imunizadora contra fechamentos de foco. No entanto, a reflexão a que você me forçou me fez perceber que a busca consciente de criar o texto ficcional à imagem de uma colcha de retalhos não impede que, até involuntariamente, as escolhas que me cabem como autor tenham, como sombras, verdadeiras tomadas de posição.

Assumida a inevitabilidade da ideologização, acho que a dosagem varia em função da história. Mar Negro, como sabe, é narrado por uma alagoana de uma feiura absurda que, entretanto, parece ganhar verossimilhança à medida que transforma o rancor de desvalida e discriminada em discurso de uma virulência tal que transforma todo mundo, inclusive o suposto autor, em alvo. Curiosamente, a distância em relação à Anderline me permitiu lhe atribuir uma série de opiniões que, no fundo, partilho. As investidas contra o pensamento de direita e o mau gosto literário integram uma lista imensa de ataques que nem sempre tenho coragem de fazer ou, pelo menos, não de forma tão contundente. O que talvez me livre da acusação de que pragmatizo a ficção são os exageros da protagonista, destemperada a ponto de alternar guerra santa com cruzada que, comprometida pelo ódio, pode se mostrar cega, injusta, até perversa.

É difícil não falar sobre a influência de Machado de Assis, tanto por sua importância na literatura brasileira quanto pela biografia que você escreveu sobre ele. Podemos dizer que ele é o teu "padrinho”? Fale sobre outros escritores que admira.

Escrever Machado de Assis – num recanto, um mundo inteiro (2008) me fez perceber que o autor carioca realmente é uma fonte inesgotável de ensinamento e inspiração. Contudo, em vez de assumi-lo como padrinho, eu diria que me alimenta tanto quanto Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Lê-los é uma experiência tão forte que fico excessivamente impregnado de seus respectivos estilos, portanto os evito sempre que estou tentando colocar para fora um novo romance.

Agora, dilatando a ideia de influxo para incluir a poesia, acrescento que saboreio, com emoção sempre renovada, os versos de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, que me incentivam a lapidar cada frase, semear o maior número possível de elipses e manter a ironia sempre ao alcance da vista.

Como considero o ensaio tão literatura quanto a ficção e a poesia, assinalo igualmente as luzes que recebo de pensadores como Antonio Candido e Luiz Costa Lima, cujos escritos são repletos de sacadas que ajudam a nortear o tateio que marca a escrita ficcional.

É de se frisar apenas que não invoco esses nomes – aos quais poderia acrescentar vários estrangeiros – como escritor que ingenuamente tentasse associar sua criação à qualidade, e sim como leitor convencido de que o afã de devorá-los é incontrolável, tanto quanto é total a certeza de que jamais lhes chegará aos pés.

Você faz uma crítica explícita aos autores que se inspiram em livros de fantasia consagrados pela mídia para criar subprodutos literários. Em tua opinião, há muitos escritores esquecidos do desafio de “alar a linguagem” e limitados à criação de “histórias mirabolantes”?

Em meus tempos de freelancer de editora, fiz tanta coisa sob encomenda que cheguei a redigir um livro de autoajuda, com pitadas de ficção, cuja autoria foi assumida por uma embromadora americana. Conto isso para afastar de mim qualquer legitimidade para dizer o que os outros têm de escrever ou não. Agora, justamente por conhecer bem o emprego de fórmulas para facilitar o encarrilhamento das palavras e fisgar o leitor, me permito separar a literatura que nasce da busca da qualidade daquela que se contenta em simplesmente alinhavar uma história.

No presente, todos os países, inclusive o nosso, têm muitos autores satisfeitíssimos em oferecer ao mundo bobices esotéricas, fantásticas, policiais e assemelhadas, umas se arvorando em iluminadas, outras prontas para serem filmadas, todas trepidantes, mas nenhuma a valer a mais desatenta das leituras, muito menos aplauso. Aqui e ali, alguns desses escrevinhadores se permitem, inclusive, falar mal de verdadeiros divisores de água, como James Joyce. É o que podemos chamar de suprassumo da tosquice.

A sorte é que nossa atualidade literária se faz também de uma grande lista de ficcionistas que se tonificam mediante a canibalização oswaldiana do passado e, norteados pela busca da originalidade (de resto, obrigatória a quem quer que se pretenda artista), ousam tentar o diferente e fazem de cada frase objeto do máximo de esmero. Assim, levam em conta o feliz achado do francês Jean Ricardou, para quem há muito a “escrita de uma aventura” deu lugar à “aventura de uma escrita”.

Você começou a lecionar aos 40 anos, já com lastro na carreira literária. A experiência te ajudou a pautar suas atividades na universidade a partir de uma visão mais ampla, para além da academia?

Sou um entusiasta da academia, pois lá encontro jovens antenados, questionadores e dispostos a fazer uso pleno da liberdade de expressão. Entre os funcionários e os professores, também conheço muita gente honesta, politizada e sonhadora. Por essas e outras, costumo dizer que poder pagar minhas contas como servidor de instituição pública de ensino é um privilégio e tanto. Agora, mesmo que os docentes se irmanem pela formação, cada um desenvolve um perfil particular, cabendo a mim atuar basicamente como um escritor que dá aula.

Nos cursos que ministro sobre literatura brasileira na graduação, por exemplo, faço questão de abordar todo o conteúdo, mas, em vez de aplicar prova, sugiro que os alunos passem o semestre desenvolvendo um ensaio nos moldes daqueles elaborados pelos pós-graduandos. Aos estudantes de mestrado e doutorado, por sua vez, aconselho que produzam textos dignos de publicação. Também mantenho uma oficina de contos que, entre outras alegrias, me permite comprovar a conhecida tese de que todo ser humano nasce ficcionista e, para ser chamado de escritor, basta bolar uma lorota e colocá-la no papel. Além disso, participo de projetos editoriais – como a revista virtual Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea – que fomentam a escrita dita profissional. Por fim, integro um grupo de pesquisa que costuma convidar agentes literários, autores, editores, jornalistas, livreiros, tradutores e demais profissionais do meio editorial para conversas públicas no campus.

Completando o que disse no início desta resposta, não me sinto absolutamente com visão mais dilatada do que os colegas que abraçaram a carreira universitária logo cedo, entre os quais vejo professores infinitamente mais competentes e eficazes do que eu. Apenas, como sua pergunta me impôs pensar minha atuação, percebo, concordando com você, que o fato de ter começado a lecionar quando já tinha 40 anos contribui para que eu me empenhe em harmonizar as vidas acadêmica e literária.

O Nordeste está sempre presente, de alguma forma, em suas histórias, mas você diz que agora quer mergulhar de cabeça na região onde nasceu. Como esse sentimento telúrico vai se concretizar? Você pretende se unir ao time de representantes da literatura nordestina – muitos deles vivem no Rio, como Bráulio Tavares, Aderaldo Luciano –, mostrar as caras da nossa região para o Brasil? Ou é um desafio pessoal?

Acompanho o Bráulio há mais de três décadas, tive o privilégio de contar com sua participação, como poeta e cantor, em lançamentos de livros meus e o considero um dos brasileiros mais inteligentes e talentosos da atualidade. Também admiro bastante o trabalho de Aderaldo. Pensando no Nordeste como uma região que recebe tantas cipoadas que precisa de gente decidida a defendê-lo, vejo os dois queridos paraibanos como exemplos que quero seguir. Digo isso como alagoano que, devido à necessidade propriamente psicológica de arrebentar certas amarras localizadas no passado – a começar por uma religiosidade asfixiante –, passou um bom tempo alheio às origens.

Depois de Das trips, coração, cujo enredo se desenrola principalmente em Olinda, publiquei livros ambientados no Rio, no exterior, ou com localização incerta. Reforcei esse afastamento ao investir onze anos no estudo da obra de Louis-Ferdinand Céline, que rendeu uma tese publicada com o título de Céline e a ruína do Velho Mundo (2003). Acontece que, mesmo sendo considerado por muita gente como o maior romancista francês do século XX, o polêmico escritor não é conhecido por praticamente ninguém em nosso país. Ou seja: devo ser o maior especialista tupiniquim num autor estrangeiro que, entre nós, existe mais pela fama de nazista do que pelo estilo demolidor. Resta o consolo da riqueza da imersão na literatura ocidental que essa longa pesquisa me forçou a fazer.

Ainda em 2013, fui liberado para fazer um pós-doutorado de um ano e, em vez de recorrer a uma instituição situada no Nordeste, minha própria trajetória acadêmica me levou a optar pela Universidade de Stanford, na Califórnia. Lá, me dividi entre a literatura de diferentes partes do planeta e a participação num grupo de discussão filosófica, o que foi muito bom. Só que a própria distância reforçou o sentimento de que os 35 anos de morada longe do Nordeste me possibilitaram aprender um monte de coisa que agora – quando a saudade se soma à percepção propriamente política de que a melhor maneira de fundir ética e estética é privilegiar meu torrão natal em minhas narrativas – poderá me ajudar a fazer jus à nossa fascinante e desafiadora região ou, sendo mais preciso, ao meu detonadíssimo estado.

Algum livro está em gestação no momento?

Sim, acabo de rematar o romance Morte certa, ambientado no final dos anos 60, com homem pisando na Lua, Woodstock contrapondo a interioridade à ideia de universo, a eletricidade acendendo o território nacional, a televisão integrando a pátria e a seleção canarinha se preparando para o tri. Resgatar esse período emblemático da história da humanidade e de nosso povo foi emocionante, mas o melhor foi ler o período pelas lentes de moradores de uma cidadezinha fictícia de Alagoas. Mais uma vez, usei a inclinação para o detalhe do signo de Virgem para criar personagens com aparência tão realista que parecem realmente haver existido. Comecei a escrever a história durante minha estada em São Francisco e continuei ao voltar para o Rio. Dois meses atrás, fui visitar minha família no agreste e pude perceber que, a despeito de tanta viagem, tenho em mãos um original genuinamente nordestino, cuja aspereza me impede de associar à doce rapadura, mas nem por isso abala o sonho de que seja visto como um afiado e florido mandacaru.
Mário de Andrade e suas estudantes do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo |

A partir do próximo ano qualquer pessoa poderá republicar e adaptar os livros de Mário de Andrade gratuitamente. Conforme a legislação brasileira, suas obras caem em domínio público e os direitos patrimoniais podem ser exercidos livremente, assim como já acontece com Machado de Assis, José de Alencar e outros escritores clássicos.

Mas até lá, as editoras que administram os direitos do autor pretendem lucrar com novas edições de suas obras, um romance inédito e até uma HQ baseada em Macunaíma.

A Nova Fronteira e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), responsáveis pelos títulos disponíveis hoje, devem lançar Café, um romance inédito de Andrade, além de uma coletânea de contos e crônicas e a HQ Macunaíma em São Paulo: o nascimento de um Brasil. A história gráfica tem o roteiro de Izabel Aleixo e ilustrações de Kris Zullo.

Ainda no início de 2015 outros três livros digitais com estudos do escritor modernista serão lançados: Música de feitiçaria, As melodias do boi e Pequena história da música.

No dia 25 de fevereiro, aniversário de morte de Mário de Andrade, a Edições de Janeiro em parceria com a Biblioteca Nacional publicarão a biografia Eu sou trezentos: Mário de Andrade vida e obra, do pesquisador Eduardo Jardim. "[O livro] tem o propósito de reconstituir a trajetória do poeta e pensador até o momento da sua morte, no ponto em que os impasses com que se deparou se mostraram insuperáveis".

As vidas de Mário de Andrade, do também pesquisador Jason Tércio, está sendo concluído e deverá ter 500 páginas. Segundo ele, o estudo aborda a "complexa personalidade de Mário e todos os aspectos da sua vida: poeta, ficcionista, crítico literário e de arte, viajante, epistológrafo, agitador cultural, bibliófilo, diretor do Departamento de Cultura de São Paulo, católico e boêmio", diz.

Na biografia, Tércio promete derrubar mitos sobre o autor, como os boatos de que ele seria antissemita e homossexual.

Por fim, o IEB em parceria com a Edusp irão publicar neste ano um volume com o conteúdo das cartas trocadas entre Mário de Andrade e o desenhista lituano Lasar Segall. Intitulado Correspondências de Mário de Andrade, o livro é organizado por Vera Dorta, Alceu Amoroso Lima e Leandro Garcia Rodrigues. A PUC-Rio assina a co-edição.

Mário de Andrade será lembrado como nunca.

Com informações do Estadão

Se você quer conhecer melhor e se aprofundar na obra de Machado de Assis, precisa conhecer o Machadodeassis.net. O site simplesmente mostra todas as relações hipertextuais contidas nos contos e romances do escritor com links apontando para as referências. Isso tudo -- sim, é muita coisa -- de graça.

Resumindo: toda a obra de Machado de Assis. Hipertextualizada. Gratuita. Na internet.

O projeto é encabeçado pela pesquisadora Marta de Senna em parceria com a Fundação Casa de Rui Barbosa, órgão ligado ao Ministério da Cultura, junto a cinco bolsistas de iniciação científica, uma webdesigner e um técnico em informática. Senna tem pós-doutorado nas áreas de Filosofia e Literatura pela Universidade de Oxford e já publicou dois livros sobre Machado de Assis: O olhar oblíquo do bruxo e Alusão e zombaria, além de ter organizado outros dois.

"O objetivo deste projeto é oferecer ao usuário da internet uma edição fidedigna - com o texto cuidadosamente estabelecido - dos romances de Machado de Assis, na qual ele tenha acesso direto, através dos hiperlinks, às referências e alusões feitas pelo autor, bem como a informações sobre os locais citados pelo escritor em seus romances", informa o website.

A ideia veio em 2000, e desde 2005 é desenvolvida "intensamente". O site também conta com uma bibliografia básica que reúne cerca de trinta títulos sobre o autor carioca. O público-alvo são pesquisadores da área de literatura, porém nada impede leitores apaixonados de consultarem as obras. Se algum valor comercial fosse atribuído a todo o trabalho de pesquisa e disponibilização, não seria nada barato.

As relações de classes no Brasil, por mais que se queira negar, são baseadas na dissimulação. É o racismo que não é bem racismo, que inventa subterfúgios para escapar da reprovação, mas que espalha veneno insípido e indelével cujos efeitos se traduzem em ódio, dor e violência. O conflito abandona os contrastes e assume outras matizes, nas quais o paroxismo pode se manifestar em um ritual egoísta de sexo ou num simples tiro na cara.

Essa é a base da crônica social Reima, livro de doze capítulos escrito pelo professor de literatura Dau Bastos e publicado em 2009 pela Editora Record. A obra tem uma forte pegada sociológica, porém o discurso é entremeado nas histórias dos personagens, que vão se desvelando ao longo da trama. Cada um tem conflitos extremamente complexos e particulares, o que torna impossível a pasteurização típica de alguns romances, onde os personagens jamais se distanciam da sua zona demarcada.

Nicole é a franco-portuguesa órfã de mãe e objeto de interesse sexual do pai. Educada e formada em Ciências Sociais, ela passa a vida em busca do orgasmo, sensação que os parceiros conterrâneos -- pouco familiarizados com uma coisinha chamada clitóris -- não conseguem provocar nela. Bastos naturaliza o egoísmo colonizador e volta-o contra os próprios cidadãos das ex-metrópoles. O sexo com franceses é pragmático, o que, aliado aos traumas afetivos, contribui para a frigidez de Nicole.

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Quando conhece o músico bissexual carioca Boiô, é apresentada ao paraíso. Atribui o molejo e habilidade sexual do brasileiro, inicialmente, à cor da pele, mais uma pincelada da naturalização proposta por Bastos. O carioca, por sua vez, é um egresso dos Prazeres, favela que protagonizará um conflito armado entre facções, amigo de infância do traficante Camarão e do líder comunitário Juca. Boiô e Nicole permanecem juntos, mas a incapacidade de manter um relacionamento sedentário, paixão pela música e preferência do brasileiro por outros homens levam ao fim do relacionamento, marco que se torna outro conflito para Nicole: afinal, foi o único parceiro que lha provocou espasmos orgásticos.

O interesse de conhecer as origens do ex-amante e o tom mórbido que a capital francesa assume no psicológico de Nicole arrastam-na para trópicos inferiores. No Rio de Janeiro, passa a viver em um condomínio de classe média situado entre os Prazeres -- que, apesar de ser substantivo próprio, é sempre referido no plural -- e o Cerro, favela que se contrapõe em rivalidade. Nas relações do condomínio Equitativa com as comunidades, Dau Bastos deduz a tensão quase insuportável entre a classe média e os favelados, algo que muitos teimam em dizer que não existe. A convivência forçada leva à formação de laços que trafegam entre amor, amizade, interesse, repulsa e raiva.

O mote do livro é a tensão que perdura meses entre o Cerro, o Equitativa e os Prazeres.

No condomínio, uma das principais figuras é a síndica Clara, síntese do cu-docismo [habilidosamente desconstruído no final do livro], que manteve um triângulo amoroso entre o preparador de textos Rodapé e o aspone Gabriel. Ao sentir os calores da menopausa, desperta para a necessidade de ter um filho, o que acabou rompendo o relacionamento a três, onde Rodapé era favorecido e Gabriel servia de "contrapeso". O primeiro é intelectual frustrado, que dedica a vida a melhorar textos alheios, mas é incapaz de escrever um livro próprio. Mas é inteligente, culto, bom de lábia e senhor de uma luxúria insaciável, ao passo que o rival é corpulento e bruto, desprovido do mínimo traquejo para a conquista e com potencial para o crime.

Manuela, filha de Gabriel, tem contatos próximos com os moradores de ambas as comunidades, com os quais não hesita em dividir a mesa de bar ou a cama -- tanto que foi iniciada pelo porteiro negro Juca. Não se perca ainda, as relações que se estabelecem pelo contato sexual são amplas e ganha matizes que variam entre desejo e ódio. O romance, dessa forma, desconstrói e enterra de vez o ideal romântico que ainda predomina em alguns escritos.

Em resumo, é possível construir um infográfico intrincado sobre quem transa ou já transou com quem em Reima.

O mote do livro é a tensão que perdura meses entre o Cerro, o Equitativa e os Prazeres. Os traficantes do Cerro, liderados pelo alagoano 'paraíba' Reimoso, preparam um avanço sobre os Prazeres, onde Camarão manda, para unificar as comunidades. Há também um componente pessoal, uma vez que Reimoso foi injustamente expulso tanto do seu trabalho no Equitativa quanto da comunidade rival. No meio de ambos, o tradicional condomínio de classe média, capitaneado pela síndica Clara, vive o risco de ser ocupado durante a invasão. Conhecendo os não-pobres-ascendentes brasileiros, não é difícil imaginar que os sentimentos dos moradores não passam de uma reedição da casa grande e da senzala -- mas nesse caso a senzala vem armada com AKs-47.

Análise

Apesar de a violência e o sexo -- Eros e Tânatos -- pautarem todo o romance, não se deve ter a percepção de que o mesmo é superficial. Bastos consegue passear pelas características, sentimentos e decisões dos personagens, apesar de utilizar um ponto de vista narrativo que pessoalmente não curto: o narrador onisciente "intrometido" ou intruso. Em certos momentos ele demonstra conhecer particularidades sobre os personagens que nem os próprios sabem. Por um lado pode ser vantajoso para o tipo de romance que ele quis escrever, já que apresenta ao leitor os "porquês" daquela situação de conflito. Por outro, cansa e tira o clima de ação transmitido pela capa e pela sinopse do livro. Lança o foco sobre as questões sociológicas e antropológicas, os construtos culturais sobre raça e diversidade sexual e a intolerância griffithiana. Não sobre a trama em si. O autor assume para si todas as opiniões e visões que estão ali escritos, mesmo atribuindo-os aos personagens.

A sociedade brasileira precisa de uma certa instrução, nada contra, e a literatura brasileira carece disso. Mas eu quase não sobrevivi ao primeiro capítulo, onde cansei de me compadecer pelas desventuras sexuais de Nicole.

Mesmo minúsculo em área, Alagoas é o estado com a maior área plantada de cana-de-açúcar da região. Conhecer um personagem que teve origem nesse contexto é fascinante.

Para quem insiste no livro, as coisas ficam mais interessantes. Dau Bastos utiliza uma linguagem de fácil trânsito entre o erudito, o regional e o demótico. O próprio título do livro faz referência tanto a um termo grego quanto à corruptela do Norte e Nordeste. 'Reima' carrega uma conotação de doença, o mesmo sentido que pode ser atribuído ao personagem Reimoso. Ambos os termos têm a mesma raiz de 'reumatismo', por exemplo. Assim, fica fácil deduzir que uma sociedade doente (Reima) produz indivíduos potencialmente nocivos (Reimoso). O segundo termo é popularmente utilizado para definir alimentos saudáveis que prejudicam pessoas doentes. Uma metáfora habilidosa para definir traficantes e milicianos que se aproveitam da vulnerabilidade gerada pela pobreza extrema para criar um poder paralelo.

Em contraste ao ambiente violento, o bucolismo do local é um dos aspectos mais marcantes. Os cenários naturais dentro do bairro Santa Teresa, como a cachoeira e a floresta que circunda as comunidades, são mostrados como verdadeiros refúgios para os personagens. Mais do que um lugar de contemplação, é um templo onde ocorrem mudanças interiores significativas em momentos de conflito, como a conversão de Reimoso de um sujeito tranquilo e sedutor para um matador violento e a desvirginação de Manuela. O verde da natureza também é um símbolo de esperança que cerca uma terra manchada de sangue.

Após a leitura do romance, descobri que Dau Bastos é alagoano e vive há algum tempo no Rio de Janeiro, onde leciona Literatura Brasileira. Isso explica o conhecimento geopolítico e econômico sobre o estado nordestino, bem como a realidade social periclitante da capital fluminense narrados no livro. A lembrança de que o governo Sarney foi particularmente destruidor para as usinas de álcool do Nordeste e seus milhares de empregados é algo que não se pode esperar de escritores do eixo Sul-Sudeste. Mesmo minúsculo em área, Alagoas é o estado com a maior área plantada de cana-de-açúcar da região. Conhecer um personagem que teve origem nesse contexto é fascinante.

Na hora de comprar, não se deixe enganar pela sinopse sexy e cheia de promessas de ação, tiroteios e demonstrações visuais de barbárie. Infelizmente Dau Bastos, um escritor inteligente, talentoso e com trinta anos de carreira na área literária, foi vítima da necessidade desesperada de vender imposta pela indústria editorial. Uma sinopse equivocada é capaz de destruir a experiência do leitor. Reima exige uma leitura calma e reflexiva, pouco a pouco, um avanço lento e paulatino, porém contínuo e inexorável. Entornar bocados do romance de uma só vez pode levar ao abandono prematuro da leitura pela falta de paciência ou perda da mensagem contida nas entrelinhas. Ler duas páginas por dia tem o mesmo efeito. Reima não é filme, é um seriado com 12 temporadas.
A Fuvest, órgão responsável pela organização e realização do vestibular da Universidade de São Paulo (USP), divulgou a lista dos livros paradidáticos que cairão no próximo vestibular. Títulos clássicos, como Memórias de um sargento de milícias e Memórias póstumas de Brás Cubas, dominam a lista.

Machado de Assis, autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, aos 25 anos
O predomínio de livros clássicos no currículo escolar é um tema que vem sendo cada vez mais debatido: por um lado, muitos estudantes veem essa obrigatoriedade como um fator que desestimula a prática de leitura; por outro, insiste-se nos mesmos livros mesmo quando a literatura brasileira tem um cartel de excelentes escritores contemporâneos.

No último concurso, a instituição ofereceu 11.057 vagas nos cursos de graduação e mais 120 cadeiras no curso de medicina da Santa Casa.

Confira abaixo a lista.

Viagens na minha terra -- Almeida Garrett

Til -- José de Alencar

Memórias de um sargento de milícias -- Manuel Antônio de Almeida

Memórias póstumas de Brás Cubas -- Machado de Assis

O cortiço -- Aluísio Azevedo

A cidade e as serras -- Eça de Queirós

Vidas secas -- Graciliano Ramos

Capitães da Areia -- Jorge Amado

Sentimento do mundo -- Carlos Drummond de Andrade
A tarefa era simples: levar um cruel e influente prisioneiro político udenista de Paulo Afonso até Barra dos Coqueiros, município conurbado com Aracaju. Mas, no meio do caminho, uma reconfiguração nas alianças de poder leva o mandante da prisão a ordenar ao sargento Getúlio Santos Bezerra abandonar a empreitada e liberar o prisioneiro. Homem bruto do sertão, talhado nas mortes e experiente em tirar sangue, Getúlio se recusa a obedecer as ordens -- carregadas por terceiros -- e, desconfiando dos mensageiros armados, reitera que levará o prisioneiro até o Coronel Acrísio. "[...] vou levar esse traste arrastado ou espetado, naquele hudso até Aracaju, e chegando lá apresento ele". Seus únicos companheiros de viagem são o motorista Amaro e um velho Hudson.


É claro que a empáfia do sargento não sai barato: à medida em que avança em direção à capital e a vegetação seca dá lugar aos mangezais, mais se envolve em brigas e conflitos armados. Com uma noção de honra própria de um vassalo e a valentia de um guerreiro, não aceita desaforo nem afrouxa seu sistema de valores particular. A preparação psicológica e a experiência em combate, por outro lado, fazem do sargento um homem que vale por vinte.

João Ubaldo Ribeiro se inspirou nas histórias reais narradas por seu pai, Manoel Ribeiro, que fora chefe da Polícia Militar de Sergipe, para escrever Sargento Getúlio, publicado em 1971. A narrativa se passa em torno da segunda metade do século 20, quando metralhadoras eram uma raridade no arsenal da Polícia Militar -- principalmente no interior nordestino. A primeira ideia que vem à mente quando o leitor se depara com o título e a capa da nova edição -- um muro velho crivado de balas -- é violência. Mas o autor trata de mostrar a humanidade que existe debaixo de toda a camada de brutalidade e revela sentimentos ainda menos compreensíveis: rancor e medo.

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A história envolve pouquíssimos personagens, a maioria transitórios. Dessa maneira, o falante personagem principal se expõe completamente, deixando que o leitor reflita sobre a sua personalidade e os acontecimentos ao longo de sua vida. O livro é narrado em primeira pessoa -- na verdade é um monólogo -- e o discurso é sempre indireto, embora entrecortado com alguns poucos diálogos. O domínio do tempo na narrativa é extremamente complexo -- não é à toa que rendeu um Prêmio Jabuti ao autor na categoria "Revelação. Em alguns momentos, o personagem descreve eventos que se passaram muitos anos antes que tiveram muito ou pouco impacto em seu caráter. Em outros, narra um tiroteio no qual se envolveu há poucos dias com riqueza e precisão de detalhes. Parte da narrativa é analéptica, e vai mudando para o tempo presente à medida em que avança.

Um aspecto dramático que se destaca nos primeiros capítulos é o homicídio pretérito que o sargento comete contra a própria esposa, grávida, sob alegação de ter sido traído. "Eu tinha de fazer. Não gostava de pensar que ia atravessar a rua com o povo me olhando: lá vai o dos galhos". A motivação óbvia é a tradição de 'lavar a honra' com sangue, onde o assassinato é a única maneira de expiar o adultério perante a sociedade.

Em determinados momentos Getúlio é confrontado com sua própria identidade, como no trecho em que narra a conversa com o pároco: "Não sei, não sei, diz o padre, sacudindo a cabeça e fazendo um bico com a boca. Por que vosmecê não some? Eu sumir, eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir". Ingenuamente Getúlio argumenta que fugir do mundo significaria fugir de si mesmo e do seu dever, e antes disso acontecer ele prefere abrir mão da própria vida: "É preciso entregar o bicho. Entrego e digo: ordem cumprida. [...] eu levo esse lixo de qualquer jeito, chego lá e entrego. Nem que eu estupore." A mando de Antunes, matou uma vintena, mesmo assim não espera consideração nem apreço. Essa noção primitiva de valores já se repetiu diversas vezes na história da humanidade e é patente na era feudal do Japão, onde a morte era um destino menos terrível para um samurai do que viver desgarrado, sem suserano.

A morte sem bravura, pacata, resultante de uma vida medíocre ou em uma condição desonrosa também é repudiada, o que fortalece o arquétipo. "Pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém [...]". Logo, no decorrer da trama, Getúlio começa a se conformar e até mesmo desejar a morte durante a missão derradeira. Ele sabe que não tem futuro, que jamais vai se esvair lentamente numa vida singela com uma mulher. O que ele sabe fazer melhor é matar. Viver e morrer pela espada. Enquanto os samurais entendem isso desde o início da carreira, Getúlio descobre aos poucos, e esse 'desabrochar' do entendimento para a morte certa dá um encanto único à obra.

Entretanto o sargento é derrotado constantemente pelos próprios temores, e isso é abordado por Ubaldo com uma sutileza que separa escritores eternos dos meia-bocas. Getúlio jamais dirá que sente medo; mas brada constantemente sua bravura, macheza e destemor. Quando está em perigo, fala ainda mais. "E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma"; "nunca senti medo de macho nenhum". Quanto mais numerosos os protestos em contrário, mais evidente o medo.

Ele sabe que é bem dotado no combate. Mas, durante a narrativa passa a compreender que é uma peça fora de um tabuleiro de maracutaias e arranjos políticos que jamais seria capaz de compreender. Ele já está fora de cena, mas é o único que não percebe. Quando nota, a revolta [birra quase infantil] o leva a se imaginar como um cangaceiro -- metáfora usada para exprimir a ideia: "se eu não sei jogar seu jogo, invento meu próprio jogo com minhas regras". Claro que é um devaneio.

O monólogo é calcado no linguajar típico do interior nordestino, coloquial, quase um dialeto. Ubaldo resgata e ressignifica termos que jamais seriam ouvidos em uma conversa de esquina atualmente. Tudo na linguagem remete à cultura popular que, como o leitor haverá de descobrir, é riquíssima e complexa. Esse aspecto mostra um lado do coronelismo que ninguém se importa muito de conhecer: o dos matadores, jagunços, dos cabras simples e ignorantes que, a mando do político ou coronel, agem sem piedade. Numa tremenda inversão, o autor traz o desumano violento para a ribalta e coloca os graúdos mandatários na periferia, criando uma denúncia contundente contra uma estrutura de poder que desafia leis e estabelece seu próprio comando. De repente os bandidos não são tão simplórios, eles têm uma história, têm desejos, cultura, alegrias e gostam de viver. Alguém tirou isso deles.

A trajetória é concluída quando Getúlio se vê diante da 'força', um destacamento de soldados. "Aquele homem que o senhor mandou nessa condição, no hudso preto com Amaro, que nem estava lá na hora e estava dormindo na Chefatura ou olhando os crentes na Rua Duque de Caxia, que ele apreciava os cantos dos crentes, eu acho, pois então, aquele homem que o senhor mandou não é mais aquele. Eu era ele, agora eu sou eu". A viagem transforma o sargento, muda seu pensamento, dá uma nova perspectiva. Esse é o momento em que ele se emancipa mentalmente da estrutura de poder que o escravizou. Manda tudo às favas e vai ser dono do próprio nariz. Por três vezes ele repete: "agora eu sou eu", e finaliza com "agora eu sei quem eu sou". Na minha opinião, o que acontece depois é detalhe, esse é o verdadeiro desfecho do livro.